Ninguém é perfeito

couple-driving-car
Juliana nunca foi uma mulher à espera de um príncipe encantado, mas já foi bem exigente. Com vinte e poucos anos, para ter chances de conquistá-la era preciso: ser inteligente, gentil, educado, sociável, bom de cama, bonitão, corpo em forma, com cabelo, bom emprego, bem vestido, organizado, financeiramente bem resolvido e, por um último, porém não menos importante: ter gosto musical compatível com o seu.


O tempo passou e ela conheceu o mundo todo e então percebeu que há coisas muito mais importantes a serem consideradas, por isso se tornou uma pessoa mais simples. Seus padrões haviam diminuído bastante, já não podiam, portanto, acusá-la de estar sozinha por escolher demais. Porém, de sua imensa lista de exigências, manteve apenas duas: alguém que não fosse um babaca e que tivesse um gosto musical similar. Amante de músicas clássicas, jazz, blues e até do bom e velho rock ‘n roll, achava que seria impossível o convívio com alguém que gostasse de funk, sertanejo, pagode e, sobretudo, axé.

Naquela sexta-feira estava ansiosa, pois se encontraria com um ex-colega de faculdade. Haviam perdido o contato há mais de 15 anos e só se reencontraram graças a uma coincidência que parecia ter saído de um filme. Dirigindo para o trabalho ela acabou batendo na traseira de um carro vermelho enquanto se distraiu ao retocar o batom. Preparada para ser xingada, foi reconhecida pelo motorista que havia sido seu colega na faculdade de publicidade: Fábio.

Daquele dia em diante, os dois começaram a se falar e foram descobrindo um sobre o outro. Parecia impossível que ainda não tivessem se encontrado. Eles moravam a apenas duas quadras de distância, andavam de bicicleta aos finais de semana, frequentavam os mesmos lugares e até a prima dele havia se casado com o chefe dela e os dois foram à festa. Mesmo com tudo a favor nunca tinham se encontrado em todos aqueles anos.

Combinaram de se ver às 20h em ponto em um charmoso barzinho que recém havia inaugurado na cidade. Pontual, ela fez questão de chegar 20 minutos antes e se surpreendeu ao ver que ele já estava no local a sua espera. Conversaram animadamente sobre tudo. De coxinhas, petralhas a legalização do aborto, de Émile Durkheim a Virginia Woolf, de cinema a decoração. Viciados em literatura, perceberam que elegeram quase as mesmas obras como seus livros de cabeceira.

Tudo ia às mil maravilhas. Ela reparou que, além do tempo não tê-lo envelhecido sequer um segundo, ainda o fez mais bonito e interessante do que antes. Adepto dos exercícios físicos, ele se mantinha em forma pedalando, correndo e nadando, exatamente como ela. Ainda assim não era o tipo de cara que cultuava o corpo, se permitia comer frituras, mas gostava de brócolis, tomava Serra Malte e Malbec Catena Zapata. Perfeito…

Depois de mais de quatro horas conversando sem parar, era nítido que tinham em comum coisas suficientes para que sentissem vontade de se ver por mais várias e várias vezes.

Decidiram ir embora. Ela aceitou uma carona e a caminho do estacionamento ele a puxou para si e a beijou com vontade. Sorriram e caminharam o resto do trajeto de mãos dadas. Ao entrarem no carro combinaram de se ver novamente no dia seguinte, se beijaram mais uma vez e seguiram caminho. No rádio ele liga em alto e bom som o axé de sucesso do último carnaval da Bahia. Ela o observava sorrindo ao volante com um brilho incrível nos olhos…

Naquele momento ela considerou desimportante a compatibilidade musical e até se permitiu cantarolar a música enquanto conseguia imaginar os dois juntos dali a vários anos discutindo filosofia, sociologia, política e, obviamente, correndo atrás do trio elétrico no carnaval baiano…

Tags: , ,