Fácil, extremamente fácil

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Combinaram de ir a um show de uma nova banda de rock gringa que quase ninguém conhecia na época. Ele havia ganhado o par de ingressos num sorteio de uma rádio. Ela se impressionou em saber que as pessoas ainda participavam dessas coisas, mas ficou feliz em ter sido convidada, pois não teria um tostão para pagar o ingresso.

Saíram direto do trabalho e foram ao local do show, se encontraram na porta. Se sentindo rebelde, ela decidiu que se divertiria fazendo algo diferente e começou a beber – o suficiente para ficar alegre, talvez muito alegre. Ele, que se tinha bebido duas latas de cerveja até então em toda sua vida, seguiu os passos da amiga.

Cantaram, dançaram e pularam muito ao som de cada música que saia da boca do vocalista baixinho que tinha ares de galã de cinema – efeito muito conhecido dos feios com microfone nas mãos. Quando o show estava prestes a acabar perceberam que estavam bêbados e resolveram sair antes para evitar o tumulto que viria dali alguns minutos.

Já na calçada, esperando que um táxi aparecesse, ele, que já passava dos 20 anos, começava a entrar em neurose sobre o que sua mãe diria ao vê-lo chegando em casa naquele estado deplorável. Ela ria. Ele não entendia a falta de solidariedade da amiga. Ela ria.

Eis que no meio deste dilema, surge ao lado deles o vocalista de uma banda famosa que também tinha ido assistir ao mesmo show. Bêbados e sem nenhum bom senso restante, começam a discutir como se o homem estivesse a quilômetros de distância e não a poucos centímetros como realmente estava.

- Ei, esse cara é famoso! Ele é vocalista de uma banda que eu odeio, ele disse.

- Verdade, não consigo lembrar o nome, mas eles cantam uma música chatíssima que toda vez que ouço demora séculos para sair da minha cabeça.

Enquanto o diálogo nonsense acontecia, o pobre vocalista olhava desoladamente para os dois. Talvez se perguntando porque raios, em um lugar tão grande resolver esperar seu taxi ali do lado daqueles dois malucos.

- Sim, eu sei quem é esse cara! Meu ex-namorado – aquele merda – adorava as músicas bregas que ele canta! Deve ter sido por isso que peguei nojo desta banda!

- Será que ele está ouvindo o que a gente está falando? Ele parece tão perto. Disse ele recobrando um pouco de sanidade, porém tarde demais.

- Claro que não, respondeu ela, simplesmente ignorando o fato do tal vocalista estar apenas a um metro deles.

- É, né? Se ele estivesse ouvindo com certeza já teria falado alguma coisa.

Finalmente o táxi do cantor chega e ele se encaminha par ir embora. Educado, se despede e, gentil além da conta, resolve acabar com o mistério: Eu sou o Rogério Flausino, vocalista do J. Quest e eu canto aquela música chamada “Fácil”.

Os dois se olham, aparentam estar surpresos por ele ter ouvido todas as abobrinhas que falaram até então e exclamam em uníssono:

- Isso mesmo! Que porra de música chata! E gargalham sem parar.

O cantor entra no carro, diz um tchau sem graça e some na escuridão da madrugada gelada.

Bêbados, felizes e satisfeitos os amigos começam a cantar o refrão da música na calçada enquanto as pessoas que passam os observam com olhar de desprezo.

- Fácil, extremamente fácil, pra você e eu e todo mundo cantar junto!