Da última vez que escrevi nesta Casa, Lula ainda era o presidente, gays não podiam fazer união civil, Kate ainda era Middleton e as poucas matas restantes neste país não estavam ameaçadas por um código florestal idiota.
Estou de volta, é sério.
Passando para tirar o pó, espantar as bruxas e fantasmas e para deixar claro que ainda sou a dona desta Casa!
Já estamos em agosto e até agora este ano tem sido bastante exaustivo. Muitas mudanças, muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo, muitas novidades no mundinho desta Tuka. Para contrabalancear, tenho aprendido muita coisa e aprender sempre teve bastante importância em minha vida.
No mais, a vida segue igual e o copo quase sempre é meio cheio pra mim. Nem sempre, mas quase.
Eu, meu marido, Gato Lolô e Nina, nos mudamos no dia 20 de março após sete felizes anos vivendo num apartamento charmoso, porém minúsculo, no delicioso bairro da Bela Vista em São Paulo.
Fomos para perto. A cerca de uns 50 metros para a esquerda, no mesmo lado da calçada, fica nossa nova morada.
Fizemos a mudança com a colaboração de dois homens que carregaram nossas coisas em carrinhos de transporte já que não valia a pena um carreto para tão perto. Impressionante como de um espaço tão diminuto, saíram quase 30 caixas de papelão abarrotadas de coisas. E isso porque nos livramos de roupas que já não usávamos, sapatos surrados, papeladas – inutilidades variadas que as pessoas acumulam com o passar dos anos.
San acompanhava os homens a cada “viagem”, enquanto eu seguia enfiando nossas vidas naquelas caixas de mudança. E lá se foi caixa após caixa, eletrodomésticos, badulaques… No chão muita sujeira e apenas vestígios da vida que ali vivemos.
Quando enfim acabou, pegamos os gatos, os colocamos numa enorme caixa de transporte. Eu bati a porta à nossa frente, San a trancou e andamos de mãos dadas até o elevador. Olhei para trás e veio uma sensação inexplicável, que eu jamais poderia prever até aquele momento. Caí em lágrimas. Ali ficaram sete anos de muita felicidade, compreensão, amizade… San me abraçou, sorriu, limpou minhas lágrimas e disse: “A parte mais importante desta mudança está indo agora”.
Entramos toda família naquele elevador do 13º andar pela última vez e fomos ali, para 50 metros de distância à esquerda. Chegando ao prédio, apertamos o 13º no elevador (mantivemos a rua e também o andar do antigo endereço) e entramos em nosso apartamento novo. Prontos para continuar a história: eu, San, Gato Lolô, Nina e quem mais chegar…
Espero o elevador no hall do meu prédio novo. Seguro uma caixa de ventilador de teto. Uma senhora e um rapaz se refestelam no sofá do hall e me olham.
Estou de TPM.
O elevador parece que não chega nunca. Sorrio amarelo. Eles me olham.
- Comprou um ventilador de teto é? Pergunta a senhora.
(Não, moça. Comprei uma Barbie!)
- Comprei.
- Calorão né? Constata a senhora.
(Esquenta menos quando não falamos.)
- É, calorão mesmo.
Geralmente até gosto de um papo furado com desconhecidos. “Será que vai chover?”, “Tá calor”, “Tá tudo tão caro”, “Que trânsito terrível”- todas essas frases são clássicos do papo furado e sei perfeitamente quando usufruir de cada uma delas. No entanto, quando estou com TPM viro uma pessoa incomunicável e evito até mesmo olhar para as pessoas para que não puxem assunto. Eu sei que é feio, mas eu sou assim.
Ela continuou:
- Vou ter que comprar um desses também, sabe?
(Nossa, agora que sei disso minha vida vai mudar!)
- Huuum, que legal.
Enfim, o elevador. Entro, sorrio e aceno.
Com certeza ela ainda me acha uma mocinha fofa. Que bom que a maioria das pessoas não consegue ler pensamentos.
Duas semanas depois estacionamos o carro em pleno meio-dia por 30 minutos numa rua bem movimentada. Quando voltamos, haviam estourado nosso vidro e roubado a porra-do-rádio-com-mp3-e-entrada-auxiliar-com-controle-remote-super-caro-e-bacaninha. Bando de filho da puta, leitores. Foi assim que resolvi nunca mais investir em nenhum rádio para carro, muito menos em uma porra-de-rádio-com-mp3-entrada-auxiliar-com-controle-remote-super-caro-e-bacaninha
-prum-flho-da-puta-qualquer-roubar e me mantive firme e resoluta, no silêncio absoluto, deprimente e assustador – Aiim, Tukaaam, pára de ser loucaaam!
Acontece que dirigir nessa cidade do capeta e ficar parado no trânsito mais tempo do que em casa ao lado da família, é dose. Ficar parado no trânsito num silêncio fúnebre é pior. Mas nada se compara a ter que ficar parado no trânsito sem rádio e ser obrigado a ouvir a merda da música cafona que essa gente tosca que dirige do nosso lado, gosta. Descobri uns forrós, uns funks e umas músicas-gritinho (sacam estilo Wanessa Camargo/Mariah Carey?) que eu jamais saberia que existiam se não fosse esse bando-de-motorista-cafona-cujo-rádio-nenhum-filho-da-puta-rouba que anda por aí.
Então percebi que estava ficando maluca quando comecei a desejar com todas as minhas forças que um tsunami passasse por ali e matasse a todos – TO-DOS! Menos eu, que não tinha rádio algum, poxa. Imaginem um tsunami do Rio Pinheiros, do Rio Tietê… Seria lindo.
Antes que eu arrumasse encrenca na rua por causa do gosto musical duvidoso desse-bando-de-motorista-cafona-cujo-rádio-nenhum-filho-da-puta-rouba, comprei outro rádio. Depois de procurar em dezenas de lojas acabei encontrando:
- Oi moço, estou procurando um rádio furréca bem baratinho pra colocar no meu carro.
- Tem um aqui com entrada auxiliar, USB e…
- Não, moço! Quero um rádio furréca, eu já tive uma porra-de-rádio-com-mp3-entrada-auxiliar-com-controle-remoto-super-caro-e-bacaninha-mas-
um-filho-da-puta-veio-e-roubou.
- Hum. Que pena, moça. Tem um aqui de cem conto, pode ser?
- Tem mais barato, não?
- Tem não.
- Tá. Pode ser então.
Foi assim que comprei um rádio furréca. Até que é bonitinho, acende umas luzinhas e tals. O único problema é que agora quando eu acelero e o rádio está ligado (e sempre está) o carro zune: Zuuuuuuuuuuuuum! Coisa linda, leitores. As pessoas dizem que vou acostumar e acho que têm razão. Pois até um rádio que faz seu carro zunir é melhor do que ser obrigado a ouvir o gosto musical dos infernos dessa gente tosca que dirige por aqui.
A primeira pergunta que uma bee-sha amiga que estudou comigo na faculdade me fez na vida foi: “Coloca meu nome no seu trabalho de rádio?”. Para a qual eu respondi: “Tá bom, mas não acostuma, não”. A segunda pergunta foi: “Você usa algum creme para retardar o envelhecimento?”. E eu respondi: “Ah, váaaaaa, bee! Se vira com essa porra de trabalho!”.
Existem vários tipos de motoristas aqui em São Paulo: os mal humorados, os mamãe-olha-como-eu-corro, os egoístas, os tirei-carta-por-e-mail, os distraídos, os pau-pequeno-e-carro-munito. Tudo um bando de filho da puta, leitores. Verdade. Dirigir nesta terra em plena hora do rush é pagar adiantado por diversos pecados que uma pessoa pode acumular durante a vida. Eu tenho vários bônus por dirigir todos os dias pelas Avenidas Santo Amaro e Nove de Julho. Daí vocês podem dizer: Aim, Tukaam, vai de metrô ou ônibus, amapô! E então eu terei que responder: Não adianta merda nenhuma, a única diferença é que eu ficarei em pé por mais de uma hora enquanto algum mané de sovaco fedorento fica roçando em meu corpinho com o chacoalhar do buzão.
Ontem, no caminho de volta pra casa, eu estava dirigindo quando um tiozinho pitizou comigo, sabem? Tudo isso porque eu tentei fazer uma conversão (permitida) à esquerda e o bonitão queria ir reto. Ele gesticulou e xingou e xingou e xingou. Quase vi em minha mente aquela parte da história em que o lobo dizia que ia soprar e soprar e soprar até o meu carrinho voar, ops, a casinha voar. Eu, muito linda, abaixei meu vidro e disse:
- Senhor, com licença. Por gentileza o senhor pode me deixar virar aqui rapidinho? Não leva nem dois segundos, prometo. Muito menos tempo do que ficarmos aqui parados enquanto o senhor treina comigo todos os palavrões que aprendeu até hoje. Que tal?
Ele respondeu:
- Passa, sua vaca!
E eu:
- Viu, falando assim com jeitinho é muito melhor. Obrigada, tenha uma ótima noite. E continuei a ouvir David Bowie que me acompanhou durante todo meu trajeto de volta ao lar.
Morar e dirigir em São Paulo é uma eterna aventura. Obras desabam, motoristas se matam, crianças são arremessadas do sexto andar. E depois de tudo isso, se conseguimos chegar em casa vivos, escrevemos um post satirizando essa merda toda.
Abre modo sotaque afetadinho paulistano: Meu, São Paulo é suuuuuper legal!
Tony foi embora hoje de manhã depois de 14 anos de companhia. Acho um desperdício tremendo que os cachorros vivam tão pouco. Só 14 anos, Tony! Isso não é coisa que se faça, ir embora assim e me deixar aqui tendo que me contentar apenas com as lembranças de tudo que passamos juntos.
Você comeu o controle remoto da minha televisão nova. Destruiu inúmeros pares de sapatos e chinelos meus e de meus amigos. Se escondeu embaixo da mesa e só saía de lá se o puxássemos pelas patinhas da frente brincando de “aviãozinho” como você adorava. Pulou e segurou meu braço com a sua bocona me deixando roxa por semanas, tudo isso para que eu entendesse que me queria perto, eu também queria ficar perto de você, bebê! Latiu aquele latido ardido e pulou de alegria dizendo o quanto estava feliz por eu ter chegado. Pulou e pulou como um canguru para espiar pela janela alta da cozinha enquanto estávamos sentados à mesa, jamais entendeu porque não podia sentar ali também e fazer bagunça. Enfiou o nariz pretinho no pote de margarina e, até ontem, antes de você ir embora, isso era motivo de gargalhadas entre eu e minha mãe.
Correu atrás de tudo quanto era galinha, pato e afins que se aventuraram a passar em seu caminho, era divertido, né? Encantou todo mundo que te via passeando comigo pelas ruas, que olhos azuis mais lindos, Tony! Foram muitas coisas, eu jamais conseguiria escrever tudo.
E hoje você foi embora. Eu, honestamente, não sei como vou preencher o vazio que você deixou. Acho que não vai ter jeito, Tony, vai ser uma falta eterna. Quando vir o Nico, diga que eu estou com saudades demais da conta. Brinquem juntos, não briguem, não morda a orelhinha dele que você sabe que é meio dodói. Voltem pra mim no próximo bichinho que eu tiver, vou cuidar de vocês novamente e amá-los tanto quanto os amei e ainda amo apesar de estarem longe.
Sua ida está me doendo muito. Vou chorar por mais um tempo, não posso estar de outro jeito agora a não ser triste, mas muitíssimo obrigada por tudo, bichinho.
Rodando:
Há trinta anos nascia uma pequena e linda garotinha de cabelinhos já fartos e brevemente cacheados. Ao primeiro olhar, seus pais logo imaginaram que um dia seria uma bela e encantadora mulher: “Que encanto, que graciosidade! Vamos sofrer para afastar os garotos”, murmuraram. Então a menina cresceu, todos os seus sonhos se realizaram, seus planos obtiveram êxito e aos trinta anos já era uma consagrada flamflamflam, o que sempre quisera ser. Tudo seguira exatamente conforme ela imaginara e a garota fora feliz para todo sempre. Fim.
Pausa
Off Record – Tudo poderia ter começado assim. Eu acharia lindo e muito provavelmente este blog não se chamaria Casa da Tuka. Seria algo como Casa de Três Andares com Cinco Suítes da Tuka, ou quem sabe, Casa no Condomínio Fechado da Tuka. Sem graça né?.
Versão-sem-verba-xexelenta-bagacenta-mixuruca-amadora
Há 30 anos nascia uma garota enorme de quase 5 kg, de olhos esbugalhados, sem um único fio de cabelo na cabeça. Seus pais, imediatamente imaginaram que seria muito provável que se tornasse uma baleia se as coisas seguissem conforme começavam: “Affe, que gorda! Vai ser difícil arrumar namorado”, pensaram. Então a menina cresceu, queria ser ambientalista, voluntária da Cruz Vermelha e escritora. Sua vida dera muitas voltas e na medida do possível, ela sempre acabava se dando bem, mesmo que às vezes demorasse a se dar conta disso. Aos trinta anos não tinha muita certeza nem se preferia sorvete de morango ou chocolate e seguia seus dias sem nenhum roteiro pré-definido. Em certos dias era feliz e em outros nem tanto. Continua…
Stop
Bem, leitores é hoje o dia. Me dêem parabéns pois acabo de me inserir entre as homenageadas por Honoré de Balzac.
Já era: trintei! Aiiiiiiiiiiiiiiiiimmmmmmmmm!
Durante este período de ausência o Corinthians caiu para a segunda divisão destroçando os corações de milhões de fanáticos pelo time, o Brasil teve um terremoto com vítimas – jogando por água abaixo a última desculpa que poderíamos usar para falar que vivemos em um país legal, pois agora, além de tudo, temos também as catástrofes naturais –, Renan Calheiros renunciou e a CPMF caiu, finalmente. Bem, caros leitores, tirando essas coisas, tudo continua praticamente na mesma no Brasil.
Já as coisas que aconteceram comigo durante este tempo possuem o mesmo ou maior impacto do que os fatos nacionais, vejam: coloquei a porra do aparelho ortodôntico, levei passada de mão no ônibus com direito a fuá, comprei três calças jeans numa promoção, quase fui atropelada em frente ao meu trabalho… Tirando essas coisas tudo continua praticamente na mesma comigo. A não ser que eu inclua na lista o fato de que no mês que vem a Casa completa seis anos e eu 30. Talvez nós duas já estejamos em pleno inferno astral. Mas não se preocupem, pois logo voltaremos com nossa programação normal, garanto.





