Arquivo da Categoria ‘Mulherzices’



23 de fevereiro de 2010

A boa vizinha


Espero o elevador no hall do meu prédio novo. Seguro uma caixa de ventilador de teto. Uma senhora e um rapaz se refestelam no sofá do hall e me olham.

Estou de TPM.

O elevador parece que não chega nunca. Sorrio amarelo. Eles me olham.

- Comprou um ventilador de teto é? Pergunta a senhora.

(Não, moça. Comprei uma Barbie!)

- Comprei.

-  Calorão né? Constata a senhora.

(Esquenta menos quando não falamos.)

- É, calorão mesmo.

Geralmente até gosto de um papo furado com desconhecidos. “Será que vai chover?”, “Tá calor”, “Tá tudo tão caro”, “Que trânsito terrível”- todas essas frases são clássicos do papo furado e sei perfeitamente quando usufruir de cada uma delas. No entanto, quando estou com TPM viro uma pessoa incomunicável e evito até mesmo olhar para as pessoas para que não puxem assunto. Eu sei que é feio, mas eu sou assim.

Ela continuou:

- Vou ter que comprar um desses também, sabe?

(Nossa, agora que sei disso minha vida vai mudar!)

- Huuum, que legal.

Enfim, o elevador. Entro, sorrio e aceno.

Com certeza ela ainda me acha uma mocinha fofa. Que bom que a maioria das pessoas não consegue ler pensamentos.



8 de maio de 2008

O creme compensa?


A primeira pergunta que uma bee-sha amiga que estudou comigo na faculdade me fez na vida foi: “Coloca meu nome no seu trabalho de rádio?”. Para a qual eu respondi: “Tá bom, mas não acostuma, não”. A segunda pergunta foi: “Você usa algum creme para retardar o envelhecimento?”. E eu respondi: “Ah, váaaaaa, bee! Se vira com essa porra de trabalho!”.

Depois entendi que ela não estava insinuando que eu estava acabadinha com 19 anos, ela é que era uma bee-sha afetada, maluca e neurótica que se preocupava com rugas desde os cinco.

Mas eis a questão: existe no mundo algum creme que realmente retarde, disfarce ou regrida o envelhecimento como diariamente tentam nos fazer acreditar? Será que o efeito é apenas psicológico? E a principal pergunta: que mal há em envelhecer?
***

Pausa para um gole de água, um suspiro e um golpe de coragem para que eu admita que tenho um creme anti sinais Spilol 30 + da Natura que ganhei de uma amiga.

***

Mais uma pausa para que eu consiga transcender pensamentos mundanos e exaltar a mente ao corpo.

***

Continuando: Não há mal nenhum em envelhecer, mas quando uma amiga me perguntou o que eu gostaria de ganhar de aniversário, respondi que queria esse tal creme super fodaaam que todo mundo estava falando. Ela, que trabalhava na fabricante do tal creme, provavelmente achou o pedido normal, já eu, percebi que era o inicio de um período que eu acreditava que jamais viveria. Eu, tão culta, tão cheia de idealismos de mundo melhor, tão cheia de atitude… Eu, que sequer sabia o que era spilol até pouquíssimo tempo atrás e vivia muito bem assim, estava preocupada com rugas. Lamentável, Tukaam, lamentável!
***

Depois de uns dias liguei pra bee-sha da faculdade que permanece minha amiga até hoje:

- Bee-shaam, lembra que há 11 anos atrás você me perguntou se eu usava alguma coisa para retardar as rugas?

- Claro que lembro, lôcaam! Você quase me bateu!

- Pois é, estou te ligando justamente por isso. Comecei a usar há 15 dias.

Do outro lado da linha ela foi arrebatadora:

- Agora, gataam? Com 30 não adianta mais!

- Ah vá, bichaaam!

***

Quando ao creme, se funciona ou não, ainda não descobri, quase nunca lembro de passá-lo. E sim, envelhecer faz parte do pacote desde aquele dia em que seu pai e mãe desistiram de assistir TV e te fizeram. Desde aquele instante você está envelhecendo. Triste? Nem tanto.


29 de janeiro de 2008

Os três estágios da verdade


Bem, depois de passado o impacto do “putaqueopa-não-quero-fazer-30-anos-porra!” minha vida começa a retomar ao rumo tranqüilo, sereno e sensato de sempre – ô! Afinal, todos nós passamos pelos três estágios básicos inevitáveis em várias ocasiões da vida, no meu caso, foi completar 30 anos que o desencadeou de maneira nunca antes vista.

No estágio da negação eu me deparei com a reação mais do que batidinha de todas as mulherzinhas bocós que existem por aí: “Parei de fazer aniversário aos 25, portanto completar 30 é algo impossível pra mim”. Mas não existe nada mais idiota no mundo do que esconder a própria idade e isso passou logo.

Quando chegou o estágio da depressão, me vi admitindo que trintar era inevitável, mas que eu bem merecia demorar mais uns aninhos para chegar nesta fase. Afinal de contas, eu era ainda apenas uma menininha abestada que mal acabara de sair das fraldas, oras!

Finalmente, no estágio da aceitação percebi que, um – fazer trinta anos possui muito mais simbolismo do que realmente merece e que no final das contas acaba sendo uma idade como outra qualquer. Dois, se já não somos mais tão jovenzinhas, ao menos temos grana para pagar o salão, as roupas e os sapatos que tanto desejávamos aos 20, mas não tínhamos como bancar. Três… Bem, eu ainda não consegui pensar numa terceira coisa, mas tenho certeza que existe.

Pois bem, com este post encerro de uma vez por todas a seqüência repetitiva e tediosa em que, com uma auto-comiseração dos infernos, falo de minha trintice. É, Tukaaam, já cansou mess, pô! Eu sei, parei, parei! A partir de agora volto a ser Tuka normalmente chata, linda-lisa-loira-alta-magra-rica-japonesa e sem crises de idade, afinal servimos bem para servir sempre, leitores, e é pra isso que vocês freqüentam a Casa há seis anos. Arrasaaaam, Tukaaaam, eu quero o meu pra viagem! Saindooo!



24 de janeiro de 2008

Entrintecendo


Versão-Hollywood-com-milhões-em-orçamento-para-elenco-locação-e-equipe

Rodando:

O tempo passa, mas no fundo a essência é sempre a mesma...Há trinta anos nascia uma pequena e linda garotinha de cabelinhos já fartos e brevemente cacheados. Ao primeiro olhar, seus pais logo imaginaram que um dia seria uma bela e encantadora mulher: “Que encanto, que graciosidade! Vamos sofrer para afastar os garotos”, murmuraram. Então a menina cresceu, todos os seus sonhos se realizaram, seus planos obtiveram êxito e aos trinta anos já era uma consagrada flamflamflam, o que sempre quisera ser. Tudo seguira exatamente conforme ela imaginara e a garota fora feliz para todo sempre. Fim.

Pausa

Off Record – Tudo poderia ter começado assim. Eu acharia lindo e muito provavelmente este blog não se chamaria Casa da Tuka. Seria algo como Casa de Três Andares com Cinco Suítes da Tuka, ou quem sabe, Casa no Condomínio Fechado da Tuka. Sem graça né?.

Versão-sem-verba-xexelenta-bagacenta-mixuruca-amadora

O tempo passa, mas no fundo a essência é sempre a mesma...Há 30 anos nascia uma garota enorme de quase 5 kg, de olhos esbugalhados, sem um único fio de cabelo na cabeça. Seus pais, imediatamente imaginaram que seria muito provável que se tornasse uma baleia se as coisas seguissem conforme começavam: “Affe, que gorda! Vai ser difícil arrumar namorado”, pensaram. Então a menina cresceu, queria ser ambientalista, voluntária da Cruz Vermelha e escritora. Sua vida dera muitas voltas e na medida do possível, ela sempre acabava se dando bem, mesmo que às vezes demorasse a se dar conta disso. Aos trinta anos não tinha muita certeza nem se preferia sorvete de morango ou chocolate e seguia seus dias sem nenhum roteiro pré-definido. Em certos dias era feliz e em outros nem tanto. Continua…

Stop

Bem, leitores é hoje o dia. Me dêem parabéns pois acabo de me inserir entre as homenageadas por Honoré de Balzac.

Já era: trintei! Aiiiiiiiiiiiiiiiiimmmmmmmmm!



10 de janeiro de 2008

Geléia Geral – edição pré-balzaca


As calçadas da Avenida Paulista estão passando por restauração faz um tempo. Está uma droga andar por lá, uma gentarada doida com pressa se estabacando em todos ao redor – coisa linda de se ver. Domingo iniciaram um novo trecho de obras, então informaram na televisão, jornal impresso, rádio, correio elegante, megafone, repentista, ou seja, em tudo quanto foi meio de comunicação ou quase isso. Acontece que aparentemente os jornais matutinos estão sem muitas opções de links ao vivo e adivinha onde é que eles resolvem ir filmar todo santo dia? Na fucking Avenida Paulista, claro. Para falar sobre o trânsito, sobre as tais obras e flanflanflan. Até aí tudo bem, eu sou jornalista e super a favor da informação, da liberdade de imprensa e de expressão. Mas adivinha onde os fuckings helicópteros ficam sobrevoando todo santo dia a partir das 5h30 da matina? O meu prédio, claro! Daí não me resta mais nada a não ser levantar e começar o dia torcendo para que os helicópteros caiam para ver se assim rende uma matéria de verdade beeem feliz.
***

Farei 30 anos dia 24 de janeiro, daqui duas semanas. Estou chameguenta e manhosa por que posso ficar chameguenta e manhosa – poxa, todo mundo compreende que fazer 30 anos é algo realmente traumático. Como consolo, as pessoas que gostam de mim afirmam que estou lindonaam e gostosentam, melhor que muita garotinha de 15, dizem – mas meus amigos são os melhores e grandes mentirosos. Já as pessoas que não gostam, dizem que estou bem para trinta anos – eu, honestamente não sei bem o que querem dizer com isso. Será que é pré suposto que uma mulher de trinta anos deva estar horrorosa e pelancuda? Ou será que eu é que não estou tão horrorosa e pelancuda quando elas gostariam que eu estivesse ao completar trinta anos? Nunca saberei. O que sei é que três décadas passam num estalar de dedos.

***

Eu sei que a Casa anda meio abandonada, mas é culpa é do meu aniversário de 30 anos (legal isso de poder culpar os 30 anos por tudo, genteem!). Sério, devo estar num momento crise existencial e essas ladainhas, pois sequer escrever por aqui tenho conseguido. Isso passa né? Passa sim. Enquanto isso, os leitores que ainda não me abandonaram – Ai, Tukaaaam, vai começar com chantageeem? – podem vir aqui e deixar mensagens fofinhas e de incentivo a uma blogueira meio deprimida? Como prova de minha consideração prometo me esforçar para ser um cêrumano mais amável, bem humorado e menos irônico com todos. Até parece que a gente acredita nisso, Tukaaam!



22 de novembro de 2007

Da série: Manhê, tô munitaaam?


(Celebrities without makeup)
Mais uma galeria de fotos mostrando as celebridades do jeito que realmente são e não da maneira em que aparecem nas revistas. E pensar que a gente vê as fotos dessa mulherada absurdamente linda, cútis perfeita, olhos delineados, barriga tanquinho e fica deprimida, néaaam? Mas com essas fotos aqui a gente até começa a se sentir menos feia e gorda ou pelo menos se diverte com a desgraça alheia – Aiiim Tukaaam, por que você é assimmm? Não sei, é um dom, eu acho.

Alicia SilverstoneDebra MissingCatalina SandinoKatherine HeiglJennifer LopezSofia VergaraJessica SimpsonVanessa ParadisPenélope CruzTyra Banks



24 de outubro de 2007

Aaaai, cacetaaaa!


Pintei a porra do cabelo. Não sei porque nós mulheres temos essa mania bocó de toda hora mexer na porra do cabelo. Homem é prático, o máximo que faz é cortar quando começa a ter que pentear. Mas nós não – mudar o cabelo é tão vital quanto comprar sapato novo, digo, respirar.

Mas sabem, também não tive muita escolha, pois no auge de meus 29 anos e nove meses, comecei a ter fios de cabelos brancos. Ai Tukaaaam, você é uma idosaaam! Idosa é a mãe! Eu só tenho alguns fiozinhos louros-esbranquiçados, só isso. Tá, pode ser exagero, afinal são uns fiozinhos de nada que encontro se fico fuçando, mas não gosto deles, eles não combinam comigo nem com meus All Stars. Portanto, apesar de relutar um pouco, resolvi que castanho claro não rolava mais.

Então fui à farmácia e comprei uma cor chamada Chocolate Profundo. Eu já devia imaginar que com uma droga de nome desses, em boa coisa não daria, afinal, chocolate engorda e dá espinhas. Mas nãaaaaaaaaaaao, achei legal e comprei. Resultado: Cabelos preeeeeeeeeeeeeeeeeetos, muito, mas muito pretos. Sabem Maga Patalógica? Só não estamos mais parecidas porque ela não tem franja. E porque o cabelo dela é liso natural. E porque ela é mais bonita e gostosa que eu. E porque ela sabe fazer mágica.

Ô merda!
***
Vou esperar uns dias pra ver se acostumo – mas se começarem a me chamar de emo na rua, definitivamente pintarei de loiro! Hohohohohoho.


21 de agosto de 2007

Geléia Geral


Sábado chegou meu sofá novinho em folha e desde então venho tendo crises nervosas com medo de que Nina e Gato Lolô comecem sua marcha de destruição. Então lembrei de um tal produto espanta-gatos que existe nos petshops. O Treco tem um cheiro insuportável para os felinos e promete afastá-los de locais onde é borrifado até que os danados percebam que não devem saracotear por ali, como por exemplo, no meu sofá tinindo de novo. Eis que borrifei o negócio e magicamente funcionou! Desde então Gato Lolô está me olhando com cara de ódio e, Nina, ignorando minha existência – mas até a publicação deste post o sofá se mantinha intacto. No entanto, como dizem que o feitiço sempre vira contra o feiticeiro, eu também não cheguei mais perto do sofá por causa do cheiro. E das duas uma: ou os filhos da puta mentiram dizendo que o cheiro só era sentido por gatos ou o mocinho que me chamou de gatinha hoje cedo estava mesmo certo – hohohohohohoho! Aimmm Tukaaam, essa foi horrível, credooom!

***
Eu sempre soube que a culinária e eu somos incompatíveis e toda vez que vejo uma receita sendo feita na televisão admiro o cozinheiro como se ele estivesse explicando-me física quântica. Foi assim que decidi que queria fazer um tal Bem-casado. Cinco minutos depois decidi que seria melhor se minha sogra fizesse – afinal, se existe alguém que entende de quitutes é ela. Lá fui eu fingindo que a ajudaria enquanto ela fingia que acreditava. Meia hora mais tarde o tal Bem-casado, feito através de uma receita que anotei de um programa de televisão, havia virado um doce do capeta. Tudo deu errado, desde a massa ao recheio. A partir dessa experiência terrível desisti de vez de cozinhar. Mas Tukaaam, nem foi você que fez o doceeem! Sim, eu sei, mas tenho certeza de que foi um sinal dos céus para que eu me mantenha afastada da cozinha. Vou obedecer.

***
PreciiiiiiiiisoColoquei na cabeça que preciso de uma bolsa azul. Acontece que todo mundo sabe, assim como eu, que ninguém precisa de uma bolsa azul. Mas eu preciso. Com uma bolsa azul serei mais feliz, pois terei o que combinar com minha blusa absurdamente linda (verde), com meu vestido fantástico (cor-de-rosa) ou com aquela saia xadrez (cinza). Ok, eu não tenho absolutamente nenhuma desculpa racional para comprar uma bolsa azul. Nenhuma. A não ser que com uma bolsa azul eu ficaria fabulosa. Sim, eu ficaria mesmo… É, definitivamente eu preciso de uma bolsa azul – é questão de vida ou morte. Tukaaam, acabou seu Gardenal, gataam?


17 de agosto de 2007

Da série: Manhê, tô munitaaam?


(Celebrities without makeup)

Se existe uma coisa que alegra a maioria das mulheres – pelo menos a maioria das mulheres com TPM – é constatar que sem um leve trato, todas (ou quase todas) ficam com cara de escapei-de-um-filme-de-terror-e-daí?

AguileraBeyonce
Goldie HawnGwen StefaniHelen HuntEva Longoria



23 de maio de 2007

Amélia que era Adélia que é mulher de verdade


Eu tenho um lado que quase ninguém conhece e que não faço questão nenhuma de esconder. Mas antes de contar a vocês e tornar isso algo público, um aviso.

Abre parênteses: Atenção feministas afetadas, esse post pode deixar algumas de vocês muito bravas. Eu sei disso porque eu também até posso ser inserida na categoria “feminista”, mas o que me diferencia de muitas é que faço parte da ala das coerentes, que defendem e acreditam em causas realmente importantes e possuem capacidade de colocar (pelo menos a maioria das vezes) os neurônios na frente dos hormônios. Fecha parênteses.

Continuando…

Eu sou uma Adélia. Ai, Tukaam, você quis dizer Améliaam? Ai credo, Tukaam, não vou vir mais aqui. Tá, vou sim. Não, eu disse Adélia. A Amélia da música de Ataufo Alves e Mario Lago composta em 1941, virou sinônimo da mulher submissa que cuida da casa e do marido sem se preocupar com si mesma. Já Adélia, o termo que inventei e ao qual me auto-designo, sugere algo bem diferente. É aquela que possui todas as características de uma mulher moderna e bem resolvida, mas que se permite gostar e assumir aquilo que ainda hoje pode arrepiar os cabelos da nuca de qualquer feminista levantadora de bandeira. Ou seja, é a mulher que fez faculdade, é inteligente, bem informada, trabalha, cuida da beleza e da saúde e ainda assim adora cuidar da própria casa e do marido. Tudo isso sem nenhuma crise de consciência do tipo: eu sou boa demais pra passar aspirador de pó nesse chão e colocar a roupa na máquina.

Eu sei o melhor sabão em pó do mercado. Eu organizo as gavetas do guarda-roupa. Eu acendo difusores com essências cheirosas. Eu passo roupa e as guardo em seus devidos lugares. Eu mantenho o armário do banheiro arrumadinho. Eu faço dezenas de coisas. Tudo, evidentemente, dentro do possível e dentro do tempo que possuo para tanto. Mas eu realmente gosto de tudo isso.

Óbvio que esse tipo de constatação levou algum tempo. Na minha época de faculdade jamais imaginara quão satisfeita eu poderia ficar em sair para comprar roupas de cama que combinassem com a cortina. Jamais passara pela minha cabeça que eu adoraria encontrar um produto que limpasse maravilhosamente bem meu espelho gigantesco e um que desse brilho ao meu piso de madeira. Eu estava ali na sala de aula disposta a ganhar suficiente para pagar alguém que fizesse isso por mim. Fui ensinada a vida toda que jamais poderia querer fazer isso tudo, pois teria que trilhar um longo caminho através do machismo. O tempo passou, me tornei uma mulher muito bem esclarecida e ciente de tudo, mas eis que me descobri tendo um prazer absurdo em organizar as minhas próprias coisas e em deixar minha casa com o jeito aconchegante que tanto gosto. Confesso que posso gostar justamente porque tenho a opção de ligar o foda-se e não fazer nada, confesso que de vez em quando apelo pra ajuda da Antônia, que eu não tenho o menor talento culinário e que eu odeio estender roupas, mas tudo o que faço é muitíssimo bem e com muito orgulho. Claro, um marido como o meu, que está sempre disposto a cooperar e que não tem a menor intenção de que eu seja sua empregada, ajuda muito.

Mas como assim, Tukaaam? Você não tem cara de que faz isso tudooom! Você é inteligente demais pra limpar a casaaaam! Você tem que ser baladeira, modérrrninha e mimadaam! Sim, leitores, acreditem em mim: eu consigo ser muitas coisas. Eu conheço o melhor rímel para aumentar os cílios, já li mais livros em um mês do que muitas pessoas em uma vida, assisto a milhares de filmes, sei o que se passa na política e economia, escrevo sobre qualquer assunto, trabalho e me insiro facilmente em qualquer área da comunicação, sou antenada na moda, conheço as novidades musicais e tecnológicas, gosto muito de sexo e o pratico quase todos os dias. Sou boa amiga, filha, irmã, tia, esposa e também dona de casa.
Portanto, eis mais um lado da dona desta casa virtual que vocês não sabiam que existia: o de dona de casa real. E como sei que muita gente ficará um tanto decepcionada com isso, quero dizer que é perfeitamente possível quebrar paradigmas todos os dias. E é óbvio que eu não estou ignorando as milhões de mulheres com outras realidades, as que batalham de sol a sol para sustentar os filhos, as que não tiveram oportunidade de estudo, as que muitas vezes apanham dos maridos, recebem menos do que um salário mínimo, vivem em lugares inabitáveis e que nem entenderiam isso tudo que escrevi aqui, pois simplesmente não tem opção de gostar ou não gostar das tarefas domésticas.

Eu tenho consciência de que sou uma privilegiada se analisada sob o ponto de vista geral e mesmo assim acredito que nós mulheres já provamos coisas demais. Somos competentes em trabalhar, conseguimos ganhar o mesmo e até mais do que os homens, podemos escolher a hora de termos filhos ou optar por não tê-los, decidir se queremos casar ou sermos solteiras a vida toda… Mas acima de tudo e o mais importante é que podemos viver livres das amarras e rótulos de um feminismo ultrapassado por nossos próprios méritos, pois quase tudo o que queremos podemos (e uma das coisas que não podemos é justamente o tema de um dos próximos posts desta Casa). Simone de Beauvoir escreveu no livro O Segundo Sexo (considerado o fundador do feminismo moderno): “Ninguém nasce mulher, torna-se mulher” – eu concordo. As que pisoteiam as conquistas da luta feminista e se desvalorizam são as que se resumem e se contentam em ser o mínimo possível do que implica ser mulher e ser humano. Mas jamais será o prazer em organizar a própria casa que fará tal coisa. Por isso é que dou vivas àquelas que se orgulham do que são, sabem o querem, do que são capazes e ainda vão brigar muito para conquistar todo o resto daquilo que são impedidas de fazer.

***
PS: Adélia, segundo o dicionário de nomes, significa nobre, indica uma pessoa que luta para tomar as rédeas do seu destino. Não gosta de depender de ninguém, nem mesmo dos pais. Hábil e esperta, em geral consegue o que quer da vida. Mas deve combater a ansiedade e desenvolver o sentido de vida em comum.

Leia antes de usar
Desde 15 de janeiro de 2002 uma jornalista nonsense escreve desembestada no blog que chama carinhosamente de sua Casa.

Aqui têm besteiras demais, coisas inúteis demais, enfim, tudo o que nem precisava ser dito, muito menos escrito.

Obviamente, qualquer semelhança com a realidade é única e exclusivamente uma opção da autora.

Assim como o direito de escrever
o que bem entender, claro!


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