Arquivo da Categoria ‘Homens x mulheres’



12 de março de 2008

As contradições de ser mulher


Ou: como é simples ser homem

Quando crianças, ganhamos fogõezinhos e panelinhas e brincamos de fazer comida. Numa ingenuidade linda, fizemos bolinhos de areia, pudins de espuma de sabão, saladas de mato e sucos de água com tinta guache. Enquanto isso observávamos nossas mães preparando a comida congelada rapidamente antes de voltar ao trabalho.

Ganhamos vassouras e rodos em miniatura e alegremente brincamos de limpar a casa. Enquanto isso, nossas mães não tinham tempo sequer de lavar a louça do café da manhã.

Também ganhamos bonecas imitando bebês e então brincamos de embalar, trocar e alimentar nossos filhos de mentirinha. Enquanto isso nossas mães diziam que quando adultas pensássemos mil vezes antes de termos filhos.

Crescemos um pouco e a Barbie com suas roupas e sapatos modernos, assumiu o lugar do resto dos brinquedos. Com essa evolução passamos a sonhar em sermos tão lindas quanto a boneca. Com ela veio o Ken e então também fantasiamos o dia de encontrarmos um namorado tão gatchinhomm e bem sucedido quanto ele. Ao mesmo tempo, nossas mães falavam que casamento era algo secundário, que jamais deveríamos depender de homem nenhum e em primeiro sempre deveriam estar os estudos e a carreira profissional.

Quando se nasce mulher o mundo pode ser bem contraditório. Se casamos, trabalhamos e não queremos filhos, somos julgadas. Se optamos em trabalhar e jamais casar, somos julgadas. Se casamos e queremos apenas cuidar da casa, somos julgadas. Se temos filhos, mas trabalhamos demais, somos julgadas. Não, não é simples ser mulher.

Facilmente os homens abrem a boca e dizem sem o menor constrangimento: “Tanto queriam igualdade de direitos que conseguiram, agora vão à luta”. Eu sempre considero burros os que têm coragem de dizer isso, pois se existe algo que jamais conseguimos é a igualdade de direitos, apenas a de deveres, e óbvio, aqueles que originalmente eram somente dos homens. As obrigações ditas femininas continuaram sendo apenas nossas. Temos o dever de trabalhar fora, temos o dever de prover uma família e temos o dever de nos sentirmos gratas pelo fato de que todo direito conquistado tenha acarretado em um dever pelo menos dez vezes mais pesado do que para um homem.

Sim, podemos votar, nos formar em faculdades, trabalhar fora, tomar pílula anticoncepcional. Mas creio que isso tudo, pelo menos para os que possuem um mínimo de neurônios pensantes, não foi nenhuma reivindicação absurda. Afinal, temos capacidade para tanto. Acontece que junto a tudo o que nos foi “concedido” vieram as cobranças do que passamos a ter obrigação. Trabalhamos, ganhamos nosso dinheiro, somos, pelo menos a maioria das vezes, mais inteligentes e capacitadas do que os homens e sempre seremos colocadas à prova. Uma cagada é feita no trânsito e logo se ouve: vai lavar louça, dona Maria! E não é raro quando o autor da frase descobre que no volante fazendo as barbeiragens está um homem. Caros, não é a toa que o seguro é mais barato para as mulheres, é porque de fato sabemos dirigir melhor do que vocês.

Ser mulher significa ter que ser pelo menos duas vezes melhor do que um homem, e digo isso com certeza absoluta de que não estou falando nenhuma asneira. É só observarmos tudo pelo ângulo mais simplista possível. Se é difícil acordar todas as manhãs, trabalhar como um burro de carga, fazer malabarismos para pagar as contas todo mês, some isso tudo a cobrança eterna de cuidar da casa, dos filhos e do marido. E caso a mulher em questão, por algum motivo circunstancial, não trabalhe fora, adicione as cobranças mesmo que silenciosas do companheiro e de todo o resto do mundo a apontando e concluindo que tudo o que faça para facilitar a vida de todos a sua volta não é o bastante, você sempre precisa ser mais, precisa ser tudo. Definitivamente o feminismo pode sim ser considerado o ato mais machista de toda história.



23 de maio de 2007

Amélia que era Adélia que é mulher de verdade


Eu tenho um lado que quase ninguém conhece e que não faço questão nenhuma de esconder. Mas antes de contar a vocês e tornar isso algo público, um aviso.

Abre parênteses: Atenção feministas afetadas, esse post pode deixar algumas de vocês muito bravas. Eu sei disso porque eu também até posso ser inserida na categoria “feminista”, mas o que me diferencia de muitas é que faço parte da ala das coerentes, que defendem e acreditam em causas realmente importantes e possuem capacidade de colocar (pelo menos a maioria das vezes) os neurônios na frente dos hormônios. Fecha parênteses.

Continuando…

Eu sou uma Adélia. Ai, Tukaam, você quis dizer Améliaam? Ai credo, Tukaam, não vou vir mais aqui. Tá, vou sim. Não, eu disse Adélia. A Amélia da música de Ataufo Alves e Mario Lago composta em 1941, virou sinônimo da mulher submissa que cuida da casa e do marido sem se preocupar com si mesma. Já Adélia, o termo que inventei e ao qual me auto-designo, sugere algo bem diferente. É aquela que possui todas as características de uma mulher moderna e bem resolvida, mas que se permite gostar e assumir aquilo que ainda hoje pode arrepiar os cabelos da nuca de qualquer feminista levantadora de bandeira. Ou seja, é a mulher que fez faculdade, é inteligente, bem informada, trabalha, cuida da beleza e da saúde e ainda assim adora cuidar da própria casa e do marido. Tudo isso sem nenhuma crise de consciência do tipo: eu sou boa demais pra passar aspirador de pó nesse chão e colocar a roupa na máquina.

Eu sei o melhor sabão em pó do mercado. Eu organizo as gavetas do guarda-roupa. Eu acendo difusores com essências cheirosas. Eu passo roupa e as guardo em seus devidos lugares. Eu mantenho o armário do banheiro arrumadinho. Eu faço dezenas de coisas. Tudo, evidentemente, dentro do possível e dentro do tempo que possuo para tanto. Mas eu realmente gosto de tudo isso.

Óbvio que esse tipo de constatação levou algum tempo. Na minha época de faculdade jamais imaginara quão satisfeita eu poderia ficar em sair para comprar roupas de cama que combinassem com a cortina. Jamais passara pela minha cabeça que eu adoraria encontrar um produto que limpasse maravilhosamente bem meu espelho gigantesco e um que desse brilho ao meu piso de madeira. Eu estava ali na sala de aula disposta a ganhar suficiente para pagar alguém que fizesse isso por mim. Fui ensinada a vida toda que jamais poderia querer fazer isso tudo, pois teria que trilhar um longo caminho através do machismo. O tempo passou, me tornei uma mulher muito bem esclarecida e ciente de tudo, mas eis que me descobri tendo um prazer absurdo em organizar as minhas próprias coisas e em deixar minha casa com o jeito aconchegante que tanto gosto. Confesso que posso gostar justamente porque tenho a opção de ligar o foda-se e não fazer nada, confesso que de vez em quando apelo pra ajuda da Antônia, que eu não tenho o menor talento culinário e que eu odeio estender roupas, mas tudo o que faço é muitíssimo bem e com muito orgulho. Claro, um marido como o meu, que está sempre disposto a cooperar e que não tem a menor intenção de que eu seja sua empregada, ajuda muito.

Mas como assim, Tukaaam? Você não tem cara de que faz isso tudooom! Você é inteligente demais pra limpar a casaaaam! Você tem que ser baladeira, modérrrninha e mimadaam! Sim, leitores, acreditem em mim: eu consigo ser muitas coisas. Eu conheço o melhor rímel para aumentar os cílios, já li mais livros em um mês do que muitas pessoas em uma vida, assisto a milhares de filmes, sei o que se passa na política e economia, escrevo sobre qualquer assunto, trabalho e me insiro facilmente em qualquer área da comunicação, sou antenada na moda, conheço as novidades musicais e tecnológicas, gosto muito de sexo e o pratico quase todos os dias. Sou boa amiga, filha, irmã, tia, esposa e também dona de casa.
Portanto, eis mais um lado da dona desta casa virtual que vocês não sabiam que existia: o de dona de casa real. E como sei que muita gente ficará um tanto decepcionada com isso, quero dizer que é perfeitamente possível quebrar paradigmas todos os dias. E é óbvio que eu não estou ignorando as milhões de mulheres com outras realidades, as que batalham de sol a sol para sustentar os filhos, as que não tiveram oportunidade de estudo, as que muitas vezes apanham dos maridos, recebem menos do que um salário mínimo, vivem em lugares inabitáveis e que nem entenderiam isso tudo que escrevi aqui, pois simplesmente não tem opção de gostar ou não gostar das tarefas domésticas.

Eu tenho consciência de que sou uma privilegiada se analisada sob o ponto de vista geral e mesmo assim acredito que nós mulheres já provamos coisas demais. Somos competentes em trabalhar, conseguimos ganhar o mesmo e até mais do que os homens, podemos escolher a hora de termos filhos ou optar por não tê-los, decidir se queremos casar ou sermos solteiras a vida toda… Mas acima de tudo e o mais importante é que podemos viver livres das amarras e rótulos de um feminismo ultrapassado por nossos próprios méritos, pois quase tudo o que queremos podemos (e uma das coisas que não podemos é justamente o tema de um dos próximos posts desta Casa). Simone de Beauvoir escreveu no livro O Segundo Sexo (considerado o fundador do feminismo moderno): “Ninguém nasce mulher, torna-se mulher” – eu concordo. As que pisoteiam as conquistas da luta feminista e se desvalorizam são as que se resumem e se contentam em ser o mínimo possível do que implica ser mulher e ser humano. Mas jamais será o prazer em organizar a própria casa que fará tal coisa. Por isso é que dou vivas àquelas que se orgulham do que são, sabem o querem, do que são capazes e ainda vão brigar muito para conquistar todo o resto daquilo que são impedidas de fazer.

***
PS: Adélia, segundo o dicionário de nomes, significa nobre, indica uma pessoa que luta para tomar as rédeas do seu destino. Não gosta de depender de ninguém, nem mesmo dos pais. Hábil e esperta, em geral consegue o que quer da vida. Mas deve combater a ansiedade e desenvolver o sentido de vida em comum.


10 de novembro de 2006

Primeiro eles, depois nós?


De Marte e de VênusDas coisas que me irritam em ser mulher, a maior delas é o fato de obrigatoriamente sermos o sexo de boas samaritanas, de sermos os eternos seres capazes de pensar primeiro nos sentimentos de nossos companheiros do que nos nossos próprios. Estou errada?

Puxem pela memória. Lembrem com cuidado e atenção de todas as vezes que protelaram um relacionamento (ou algo do gênero) por medo de magoar. Relembrem de todas as coisas que engoliram a seco para não deixar a pessoa chateada. Pesquem lá na memória todas as vezes que deixaram a própria felicidade em segundo plano por conta de estar ao lado de alguém que não amavam mais tanto assim, apenas porque a tal pessoa sofreria demais com o fim. Escalem tudo o que não queriam fazer e o fizeram apenas para agradar, apenas porque alguém tinha que ceder.

Relembraram de tudo?

Agora façam o contrário. Juntem todos os “nãos” que ouviram quando quiseram estar ao lado de alguém que estava de saco cheio com o relacionamento. Tragam de volta todos os “não te amo mais” que lhes foram proferidos sem a menor cerimônia e somem com os “estou a fim de outra pessoa”. Acrescentem pitadas de “você não me faz mais feliz” com gotas de “não suporto mais toda a sua insegurança” e “nem amarrado vou a esse lugar com você, hoje tem jogo do timão”. Pronto? Misture bem agora.

Nós, as mulheres, por mais que sejamos verdadeiramente práticas e tenhamos um limiar muito singelo de paciência no que se diz respeito a uma infinidade de coisas, quando se trata de amor, tudo muda de figura. Mesmo que o amor já não exista do nosso lado, se existe alguém ali que ainda sente algo e que irá sofrer com um fim, protelamos e nos deixamos em segundo plano.

Juntamos então uma infinidade de desculpas que de algum jeito justificam o maior de todos os atestados de burrice que é o de abrir mão do que queremos em função de outra pessoa: “ele vai se matar”, “antes só do que mal acompanhada”, “ele jamais vai se recuperar desta queda”, “jamais vou encontrar outra pessoa que me ame tanto quanto ele”. TU-DO BO-BA-GEM! E não me classifiquem de insensível e fria, pois lá no fundo vocês sabem do que estou falando.

Os homens têm a brilhante capacidade de se livrar do que não querem mais com um estalar de dedos. Não deixo de admirar isso e de considerar um dom apesar de muitas vezes ficar abismada com tais atitudes. Os homens esquecem facilmente da família por causa de uma mulher e pouco se lembram até mesmo de suas próprias mães. O grande problema disso é que as malditas sogras acham que isso é culpa das mulheres e jamais admitem que seus filhotes estejam cagando e andando para elas. Triste? Mas verdade. Os homens largam um relacionamento de anos a fio por causa de uma alguém que conheceram há cinco minutos. Nada importa: nem filhos, nem patrimônio, nem cumplicidade, nada. O que vale é o que eles decidiram naquele momento e é, portanto, o melhor para eles. E isso não deixa de ser um tipo de determinação. Os homens não se comovem com choros e apelos de “pelamordedeus, minha vida acaba sem você” – eles pensam: “Acaba sem mim? Azar o seu!”. Os homens têm habilidade de deixar bem claro quando estão em um lugar em que não gostariam de estar. A cara feia na festa de aniversário de sua amiga, na casa de sua mãe? Fichinha para eles.

Verdades absolutas: Eles jamais abdicam do que querem por causa de ninguém, muito menos por conta de relacionamentos que não querem mais. Eles jamais se deixam convencer do que não desejam. Seu cansaço sempre é maior do que o nosso por mais que façam o mesmo ou até menos do que nós. E suas dores sempre serão infinitamente mais dolorosas que as nossas, mesmo que seja um corte no dedo contra uma crise renal. Homens são uns desgraçados inteligentes isso sim, nós temos muito que aprender. Quando é que de iremos ligar o foda-se como eles e nos colocar no primeiro plano de nossas vidas?

Que tal agora?

***

PS: Antes que venham me perguntar se meu casamento vai bem e coisa e tal por causa deste post – sim, vai, obrigada, muito bem. Não sou objeto central deste texto, mas já fui, portanto tenho embasamento para os argumentos que uso e sei bem que muitas de vocês assinarão embaixo disso tudo que escrevi.



23 de agosto de 2006

Mulherzinhas


Mulher é um pé no saco. Eu sei disso e posso falar com propriedade, afinal não falho à regra de todas as mulheres e também sou um pé no saco. Todo dia pelo menos uma dessas frases (ou todas) sai das bocas de todas as possuidoras de cromossomos XX: “Ai, hoje estou meio deprimida e não sei por que”. “Ai, você não me ama mais”. “Ai, queria ser mais magra”. “Ai, queria ser mais gorda”. “Ai, odeio fulana”. “Ai, sicrana é um amor”, “Ai, como estou feia hoje”. Putaqueopariu! Como mulher é bicho chato!

ComplicadasOs homens são obras tão simplificadas da raça humana, não? Se estiverem feios não percebem, se gordos não ligam, se magros pouco se importam, não se metem em confusões por causa de ninguém, não são instáveis, não são compulsivos, não têm TPM. Eles existem e só isso está bom.

Nós temos que achar pêlo em ovo todos os dias. Necessitamos de coisas que eles não compreenderão nem em cinco vidas. Temos crises existencialistas enquanto eles arrotam a cerveja e dão risada. Andamos com sapatos lindos, caríssimos e extremamente desconfortáveis enquanto que eles seguem felizes naquele par de tênis horroroso que já deveria estar no lixo. Choramos em comercial de margarina enquanto eles se divertem com filmes de guerra. Fazemos amor enquanto eles metem.

Sentimentalóides demais, discutidoras de relação demais, vaidosas demais, metódicas demais, desconfiadas demais, mulherzinhas demais…

Diferenças gritantes essas que fazem com que eu compreenda meus amigos gays e admire a coragem das minhas amigas lésbicas totalmente: gostar de homens realmente é mais fácil. Mulher é um saco.

***


I eat dinner at the kitchen table
By the light of the TV screen
I eat leftovers with mashed potatoes
No more candlelight
No more romance
No more small-talk
When the hunger’s gone

(I Eat Dinner – Dido)


Leia antes de usar
Desde 15 de janeiro de 2002 uma jornalista nonsense escreve desembestada no blog que chama carinhosamente de sua Casa.

Aqui têm besteiras demais, coisas inúteis demais, enfim, tudo o que nem precisava ser dito, muito menos escrito.

Obviamente, qualquer semelhança com a realidade é única e exclusivamente uma opção da autora.

Assim como o direito de escrever
o que bem entender, claro!


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