Arquivo da Categoria ‘Cinema’



23 de outubro de 2006

Pequena Miss Sunshine


Faz tempo que não falo a respeito de cinema aqui na Casa. O motivo é bem simples: nada do que eu assisti ultimamente me empolgou tanto a ponto de eu ter vontade de recomendar a alguém.

Os diretores Valerie Faris e Jonathan Dayton com a pequena OliveMas eis que vi Pequena Miss Sunshine – a estréia na tela grande de Jonathan Dayton e Valerie Faris saídos do mundo dos videoclipes. O filme não tem atores extremante famosos e não está passando em circuito comercial nos cinemarks e ucis da vida. Exatamente por isso é que a maioria das pessoas não ouviu falar dele e se o vir em algum cartaz por aí poderá deixá-lo passar batido.

Miss sunshine é uma antítese muitíssimo bem-humorada daqueles tão batidos filminhos americanos em que tudo dá certo para os personagens. Sabem a histórinhas de redenção em que os feios se tornam bonitos no final, ou em que os times repletos de pernas de pau ouvem frases de incentivo de seus treinadores e sempre vencem os craques? No filme em questão não há absolutamente nada disso.

As plásticas candidatas à miss e Olive fora de qualquer padrão de belezaAos sete anos, Olive adora participar de concursos de beleza mesmo que sua aparência definitivamente não se insira nos padrões presentes em eventos do gênero. Com enormes óculos de grau e uma linda pancinha (a atriz Abigal Breslin, de Sinais, usou uma roupa com enchimento), a garotinha sonha em ser miss. E a sorte a ajuda quando ela acaba sendo qualificada para participar do concurso que escolherá a Miss Sunshine.

É então que começa a história da viagem de uma família nada convencional para levar a pequena Olive ao concurso de beleza infantil. Em uma Kombi caindo aos pedaços seguem todos de Albuquerque, no Novo México, até a Califórnia.

A família tenta alcançar a velha KombiRichard, o pai, é um fracassado motivador profissional obcecado pelo sucesso e por frases clichês de auto-ajuda. A mãe, Sheryl, é uma típica dona de casa desesperada cheia de preocupações com a família e, sobretudo, com seu irmão Frank, um gay, estudioso de Proust que acaba de sobreviver a uma tentativa de suicídio. Dwayne, o filho mais velho, é um adolescente rebelde, leitor de Nietzsche, em voto de silêncio e que odeia todos a seu redor. O avô (pai de Richard) usa a velhice para justificar suas crises de mau-humor e seu vício em heroína.

Com nenhuma pitada de família perfeita todos se unem em favor do sonho da caçula e na conturbada viagem vários acontecimentos fazem com que o problema de cada um deles seja confrontado.

Nada de família do-ré-miO roteiro envolve o espectador de corpo e alma ao alternar momentos hilários aos dramáticos e principalmente quando seus personagens dão suas caras à tapa enfrentando suas dificuldades no meio de uma sociedade que cobra tantos valores ridículos.

Pequena Miss Sunshine demorou cinco anos para ser produzido, pois seus diretores encontraram dificuldades para conseguir apoio financeiro de estúdios. Ironicamente, depois de ter sido exibido no Festival de Sundance – a principal janela do cinema independente norte-americano – teve seus direitos de exibição vendidos por mais de US$ 10 milhões. Somente nos EUA, rendeu US$ 55 milhões.

Ótimo filme: escrachadamente livre de padrões, sem lições de moral no final, nem reviravoltas impossíveis ou muito menos fábulas de bem contra o mal. Entrou em minha lista de filmes preferidos assim como todos os outros que fazem questão de ficar bem longe do comum. Assistam.



3 de setembro de 2006

Fora do alvo


Caiu!Assisti agorinha United 93, o filme que conta a provável história do que aconteceu ao quarto vôo seqüestrado por terroristas durante o atentado de 11 de setembro. O avião da American United foi o único que não atingiu o alvo.

Bem, o que falar? O avião cai e todo mundo morre. Ops, você não sabia? Não tem muito o que dizer, é sério. Tudo foi baseado nas gravações da caixa preta e nas ligações feitas de dentro do avião pelos passageiros e tripulantes a seus familiares.

Segundo o que se tem notícia, os passageiros enfrentaram os terroristas e tentaram assumir o controle do avião quando se deram conta de que se tratava de uma missão suicida. Pode parecer que não tenha adiantado porcaria nenhuma, afinal todo mundo morreu na queda em um descampado no condado de Somerset, Pensilvânia. Mas ao menos os seqüestradores também não obtiveram êxito – especula-se que o alvo da aeronave era o Capitólio ou a Casa Branca.

Eu, como bem gosto de uma teoria da conspiração, acho que a possibilidade deste avião ter sido abatido pela força aérea americana faz bastante sentido, leia depois aqui.

Mas falando mesmo apenas do filme: nada demais – dá pra esperar chegar na locadora. Além, óbvio de ser previsível e não ter final feliz. Só sei que os americanos estão irados por causa dele. Dizem que estão metendo o dedo na ferida muito pouco tempo depois do ocorrido e tal. Eu acho é que essa gente é um bando de idiota que vive se sentindo ofendido por tudo, mas concordo quanto ao fato de ainda ser cedo, só que pelo motivo de não se saber ainda ao certo o que ocorreu naquele dia. Se tudo aquilo foi um grande engodo, como alguns defendem, o mundo só vai ficar sabendo daqui uns cem anos, pelo menos.



31 de março de 2006

Garota da Vitrine


Escolha um dia bunda em que o tempo não consegue se decidir se chove ou faz sol. Pegue aquele dia em que você está sozinha, tem tempo sobrando e ainda um troco na carteira que seja suficiente para assistir a um filminho no cinema. Depois, na fila, decida o filme que vai assistir pelo critério de qual começará primeiro. Antes de entrar na sala passe em uma confeitaria, compre e coma imediatamente um doce muito do gostoso, dê a primeira colherada de olhos fechados, de preferência. Daí alivie um pouco a consciência correndo para chegar até a escada rolante, afinal o filme já vai começar. Sente bem no meio da sala, naquela fila que não tem ninguém. Desligue a droga do celular, pois nada pior do que o tal aparelhinho estragando o barato de todos no meio da história. Se ajeite, tire os sapatos e despeje a bolsa na poltrona ao lado. Comece a assistir sem a menor pretensão de que seja algo que fará parte do seu Top List Puta Filmes. Depois de mais ou menos meia hora se dê conta de que se trata de um filme muito legal e que você quer chegar em casa e escrever no blog a respeito.

Pois então: Garota da Vitrine é algo assim – sem a menor pretensão de ser quase nada, e não é que é?

Gostei. Tem Claire Danes (a eterna Juliette do Romeu Di Caprio), tem Steve Martin (o atual inspetor Closeau) e tem Jason Schwartzman – esse último sem papéis de grande destaque, mas mesmo assim um ator muito legal mesmo (aquela cara de tonho engana).

Adaptado por Steve Martin de um romance curto de sua própria autoria, de 2000, essa história passada em Los Angeles é repleta de momentos comoventes, alguns muito divertidos e outros simplesmente bobos – assim como é a vida de todo mundo: uma sucessão de muita coisa.

O filme conta a história de Mirabelle (Claire Danes), uma moça dessas iguais a tantas e até bastante parecida com nós mesmas, nem que seja um pouco. Ela é uma pessoa sem grandes expectativas, mas que sai de Vermont para a chance de que algo melhor lhe aconteça, mesmo que não saiba exatamente o que.

Seus dias se passam atrás de um balcão na seção de luvas da loja Saks. Em casa toma anti-depressivos, alimenta a gata Sylvia, faz companhia a si mesma e desenha – sua verdadeira vocação.

Um belo dia em uma lavanderia conhece Jeremy (Jason Schwartzman), um vendedor de amplificadores e candidato a músico, um rapaz um tanto quanto confuso que não aparenta ser exatamente o seu tipo, mas diante da solidão ela parece crer que nada pode ser assim tão ruim.

Até que pouco depois encontra Ray Porter (Steve Martin), um sedutor e bem sucedido cinquentão que aparece em seu balcão de luvas e tenta conquistar seu interesse em grande estilo. E ela realmente se apaixona e se deixa envolver dia após dia apesar de ser avisada por ele repetidas vezes que não está interessado em nada sério.

O filme todo é uma questão de tempo: uma questão de tempo para que Mirabelle se toque de quem merece ser amado por ela. Uma questão de tempo para que ela tome coragem de voar em direção ao que realmente ama fazer. Uma questão de tempo para que as coisas entrem nos eixos sem que ela sequer perceba.

E, claro, também uma questão de tempo para que envolva totalmente a quem assiste.

Simples, bobo, objetivo, comum, bonito. Entrei no cinema sem a menor expectativa e pretensão, e saí do cinema leve – assisti a um filme legal.

Recomendo.



6 de março de 2006

And the Oscar goes to: Crash!


Contrariando todas as expectativas Crash levou o Oscar de melhor filme. Eu adorei o resultado. Minutos antes da cerimônia começar ainda comentei com meu marido o quanto seria ótimo se desse um revés e Crash levasse o prêmio e não Brokeback como o esperado. E arrematei dizendo: “Mas isso nunca vai acontecer, Hollywood é previsível”. Pois é, não é tão previsível quanto eu achava.

Quando assisti a este filme, em novembro do ano passado, saí do cinema tão extasiada que precisei de vários minutos para me recuperar. Quem me conhece, sabe que tenho uma certa tendência a gostar de filmes que não seguem aquela receitinha de mundo perfeito. Gosto do cinema que bate na cara, que não faz questão de máscaras, que tenta mostrar a realidade da melhor maneira possível. Não preciso de finais felizes. Não é à toa que meus filmes de cabeceira são Réquiem Para um Sonho, Magnólia, Fale com Ela, Dogville, A Vida é Bela e outros vários.

Claro, que algo leve de vez em quando também é legal. Vide filminhos bobinhos, mas adoráveis que vi nos últimos tempos como Tudo em Família e Dizem Por Aí (com duas das minhas top divas: Sarah Jessica Parker e Jennifer Aniston, respectivamente). Só que esse tipo de filme não é o que eu chamo de um “PUTA FILME” são apenas um passatempo divertido para um dia em que estou com preguiça de pensar muito.

Já Crash entra fácil em minha Top List Puta Filmes. Vale tanto a pena assistir que vi duas vezes. Depois baixei a trilha também, claro.

Pois bem, agora que o filme ganhou o Oscar fica mais fácil que acreditem em mim e o assistam – não preciso gastar muito assunto recomendando. Vão lá no cinema que ainda está em cartaz e deliciem-se.

PS: Agora agüentem as entidades gays dizendo que Brokeback não ganhou por preconceito.

Abaixo a lista completa dos vencedores e ao lado alguns comentários meus:

FILME

“Crash – No Limite” – (meu favorito disparado!)

DIRETOR

“O Segredo de Brokeback Mountain” – Ang Lee – (Uma pena Fernando Meirelles não ter concorrido)

ATOR

Philip Seymour Hoffman por “Capote” (Mais do que merecido!)

ATOR COADJUVANTE

George Clooney – “Syriana” (Nem foi isso tudo a atuação dele)

ATRIZ

Reese Witherspoon por “Johnny e June” (Preferia Felicity Hoffman)

ATRIZ COADJUVANTE

Rachel Weisz – “O Jardineiro Fiel” (Adorei!)

ROTEIRO ADAPTADO

“O Segredo de Brokeback Mountain” (Torci por O Jardineiro Fiel)

ROTEIRO ORIGINAL

“Crash – No Limite” (Nem preciso falar mais nada né?)

FILME DE ANIMAÇÃO

“Wallace & Gromit: A Batalha dos Vegetais” (A Noiva Cadáver me pareceu melhor)

FILME ESTRANGEIRO

“Tsotsi” (África do Sul) (Preferia Sophie Scholl ou Paradise Now)

DOCUMENTÁRIO

“A Marcha dos Pingüins” (Merecido)

DOCUMENTÁRIO DE CURTA-METRAGEM

“A Note of Triumph: the golden age of Normal Corwin” (Não assisti nenhum, infelizmente)

FILME DE ANIMAÇÃO – CURTA-METRAGEM

“The Moon and the Son: An Imagined Conversation”

MELHOR CURTA-METRAGEM

“Six Shooter”

TRILHA SONORA ORIGINAL

“O Segredo de Brokeback Mountain” – Gustavo Santaolalla

MELHOR CANÇÃO

“It’s Hard Out Here for a Pimp” – “Ritmo de um Sonho” (Torci por Bird York)

DIREÇÃO DE ARTE

“Memórias de uma Gueixa”

FOTOGRAFIA

“Memórias de uma Gueixa”

EDIÇÃO

“Crash – No Limite”

EFEITOS VISUAIS

“King Kong”

FIGURINO

“Memórias de uma Gueixa”

MAQUIAGEM

“As Crônicas de Nárnia: o Leão, a Feiticeira e o Guarda-roupa”

EDIÇÃO DE SOM

“King Kong”

MIXAGEM DE SOM

“King Kong”



2 de março de 2006

Só para confirmar


O filme realmente é bom. Muito válido para se conhecer um pouco mais da história. Principalmente para que as pessoas parem, pelo menos um pouco, de achar que todos os alemães foram responsáveis pelas atrocidades cometidas durante a guerra de Hitler.

A história de Sophie Scholl não é tão diferente da de milhares de pessoas que desapareceram na ditadura brasileira, e que também morreram lutando por seus ideais.

Ela não era criminosa e nada fez além de tentar mostrar às pessoas que o que estava acontecendo era errado, que a guerra mais cedo ou mais tarde acabaria e que o mundo apontaria os dedos para a Alemanha condenado-a por seus crimes. Ela não foi uma profeta, não foi visionária, ela foi apenas uma pessoa que pensou sem que seus olhos e mente estivessem envoltos, quis lutar pelo o que acreditava.

É incrível, toda vez que eu assisto a um filme que retrata o nazismo eu tenho uma leve e estranha impressão de que os alemães simpatizantes do nacional socialismo agiam segundo aquela fábula do fim do mundo. Aquela em que as pessoas fazem as maiores barbaridades porque o mundo está prestes a ir para as cucuias. Só que eis que nada acontece e todos ficam com cara de bunda depois, sem nada que justifique os absurdos que cometeram.

No caso dos nazistas, eles não contavam com o fim do mundo, óbvio, mas com a vitória na guerra. Afinal, como não ficar ao lado do Führer, aquele que prometera elevar a Alemanha e transformá-la em uma potência? Acabou que o resultado não foi o esperado e até hoje, e acredito que eternamente, a Alemanha mantém a mácula do nazismo.

E não adianta pedir desculpas, não adianta construir placas em homenagem aos que lutaram contra, como Sophie, de nada adianta e nada faz voltar o tempo.



24 de fevereiro de 2006

As crônicas de nada: o celular, o filme e a escola de samba


Ontem perdi a droga do meu celular. Coloquei o aparelho no bolso da frente da calça jeans e, poucos metros depois que saí de casa, dei pela falta do dito cujo. Voltei todo o caminho e perguntei a todos que via se haviam encontrado o tal aparelho. A resposta era sempre a mesma, claro: “não”. Fui a um orelhão e liguei: o espertinho que achou não perdeu tempo e já o havia desligado. Fiz todos os procedimentos na operadora para bloquear aparelho e chip e mesmo que a pessoa tente usá-lo com outro cartão de memória não irá funcionar. E o bom é que pelo menos o número consegui manter, óbvio que os contatos já eram.

O que mais me deixou puta nessa história toda é que em encontrei celulares em duas ocasiões diferentes: uma vez no banheiro de uma balada e depois em um caixa automático. Nas duas vezes os telefones eram infinitamente mais modernos e mais caros do que o que eu tinha na época e sem pestanejar liguei para os números da agenda e devolvi. Isso sem contar carteiras e blusas que já vi cair enquanto andava e sempre corri atrás dos respectivos donos para devolver. Mas, como disse um rapaz da operadora: “honestidade é questão de berço – quem tem, tem”.

No meu caso, é fato de que quem encontrou estava logo atrás de mim. A pessoa muito provavelmente viu que caiu, pegou o aparelho e seguiu caminho. Isso pra mim é o cúmulo da desonestidade – e não me venham com “achado não é roubado”. Pois se tivesse um mínimo de decência nessa pessoa ela não teria desligado o aparelho em seguida pois sabia que o dono procuraria por ele. Mas ok. Tudo o que vem fácil vai fácil. E praga de Tuka pega.

***

Finalmente, depois de uma longa espera, estréia hoje “Uma Mulher Contra Hitler” (Sophie Scholl – Die Letzten Tage). Já falei de Sophie Scholl na Casa neste post aqui e desde que soube que fariam um filme a respeito dessa história fiquei ansiosa. Fala sobre um grupo de jovens universitários que em 1943 apela para a resistência pacífica como forma de conter o nazismo – assim, nasce o Rosa Branca. A única mulher que participa do grupo é Sophie Scholl (Julia Jentsch) e enquanto distribuíam panfletos Sophie e seu irmão, Hans (Fabian Hinrichs), são presos e condenados a morte.

Mais do que isso só irei saber depois de assistir. Mas já li em tudo quanto é site especializado em cinema que se trata de um puta filme. Veremos. Só o fato de ter Julia Jentsh – que fez Edukators – como a protagonista já conta muitos pontos.

***

Do Carnaval de São Paulo só espero por tudo quanto é mais sagrado que a Vai-Vai não ganhe. E esse meu interesse em nada tem a ver com nenhum critério carnavalesco e nem ao fato de eu torcer por alguma rival. Na verdade quero que todas vão pra PQP. Mas minha desafeição principalmente pela Vai-Vai (…pro diabo que te carregue) é devido à proximidade do meu prédio com a quadra desta escola. Imaginem portanto, que se ela ganhar, vai ser difícil ficar incólume a todo fuá que vai haver.

***
Feriado prolongado – check

Casa limpinha e cheirando a essência de rechaud da Imaginarium – check
Estoque de comida renovado – check
Filmes bons para assistir – check
Dias de luxúria e amor pela frente – check


7 de fevereiro de 2006

E o tal segredo da montanha…


Tenho assistido muitos filmes, algo que eu realmente adoro fazer. Domingo vi o tão comentado “O Segredo de Brokeback Mountain”. A obra de Ang Lee ganhou o Globo de Ouro de melhor filme na categoria drama e também outros três, incluindo o de melhor diretor, roteiro e música.

Ao que tudo indica o longa vai arrebatar o Oscar também já que lidera as indicações – foram oito no total: melhor filme, diretor, ator (Heath Ledger), ator coadjuvante (Jake Gyllenhaal), atriz coadjuvante (Michelle Williams), roteiro adaptado (Larry McMurtry e Diana Ossana), fotografia (Rodrigo Prieto) e trilha sonora (Gustavo Santaolalla).

O filme é bom. Só. Nada demais fora a fotografia fantástica. Uma simples história de amor que se fosse entre héteros passaria batido. Então me pergunto: por que tem que ser especial, extraordinário e considerado o melhor filme do ano só porque mostra uma história de amor? Por que mostra dois homens beijando na boca? Ah… Me recuso a acreditar que isso ainda choque alguém a ponto de achar que é preciso militar em prol da causa e que é por isso (e apenas por isso) que está se fazendo tanto fuá por causa desse filme (pois daí sim seria uma causa nobre).

Se for por causa nobre que se fale do filme, que falem até não agüentar mais que não há nada mais legal do que dois homens machos pra caramba que se amam e que se deitam juntos – assim como é o máximo duas mulheres que se amam e como também é maravilhoso um homem e uma mulher que se amam. Agora se for para se falar apenas em questão de qualidade, Brokeback é um filme apenas mediano: com uma história legalzinha e personagens até intrigantes, mas nada que possa ser considerado extraordinário.
Ok, o triste é exatamente o que me recuso a admitir: sim, duas pessoas do mesmo sexo juntas ainda chocam muita gente. Então tá: Brokeback deve até merecer o Oscar por estar dando a cara à tapa assim em tapete vermelho. Palmas.
Mas todo ano é a mesma coisa. Hollywood escolhe um tema e premia aqueles filmes que correspondem a esse mesmo tema. Teve o ano dos judeus, o ano dos negros, o ano dos arrasa-quarteirão, do cinema catástrofe, do épico, e por aí – já em 78 edições. Esse é o ano gay e Brokeback Montain, Capote e Transamerica estão aí para todos, inclusive para aqueles hipócritas que preferirem ir ver outra coisa no cinema – menos ver homem com homem.


1 de agosto de 2005

Cinema pornô ou sexo poético?


Assisti ao filme 9 Canções neste final de semana e devo admitir aqui que ainda não sei bem se gostei ou não do que vi.

A história é uma narração do inglês Matt sobre seu romance com a americana Lisa que está em Londres para estudar por um ano. Eles se conhecem em um show da banda Black Rebel Motorcycle, se apaixonam e o filme retrata o relacionamento dos dois, permeado pelas músicas de cada um dos shows a que vão juntos. Mas não vão pensando que é mais um filminho de amor, pois não é. A polêmica em torno desse filme é motivada pelo fato de que os protagonistas trepam do começo ao fim.

Nos 65 minutos que a trama possui, não aparecem cenas de um “sexozinho” que deixa para que a imaginação faça o resto. É real, eles fazem de verdade e isso, sei lá por qual motivo, chocou o mundinho do cinema. Acho que essa gente é pudica demais com o que não precisa, é só sexo, gente! Também não pensem que é um filme pornográfico como um mané do Estadão escreveu. É um filme de sexo real como os pornográficos, mostra penetração como os pornográficos, mostra sexo oral, como os pornográficos, mas não é um filme pornô, oras.

Tenho que justificar isso né? OK. O filme é sexo e música do começo ao fim. Tem drogas também. Então para ser bem original, posso dizer que se trata de uma obra de sexo, drogas e rock’n roll. Satisfeitos? Não? Hum… Tá, é um filme de sexo, mas mesmo apesar de ter motivos suficientes para que seja algo como o que passa de madrugada nos cines privê da vida, não é, e apresenta cenas maravilhosas. E são filmadas inteiramente com luz natural, o que as torna íntimas sem serem obscenas. Não sei como, mas de alguma forma Michael Winterbottom conseguiu fazer um filme inteirinho baseado em sexo explícito ser poético e de bom gosto. Além de ser bem inspirador, mas esta parte deixa pra lá.

Uma ressalva apenas: quem está interessado em assistir a uma história com diálogos marcantes, roteiro inesquecível, fotografia fenomenal: esqueça.

Outra ressalva: assistam a este filme com o marido/esposa ou namorado/namorada. De jeito algum vão ao cinema com a mãe ou a vó enganados pelo título meiguinho de 9 Canções que será meio chato.

Abaixo a lista das musiquinhas do filme:

Black Rebel Motorcycle Club – “Whatever Happened to Rock ‘n’ Roll?”
Von Bondies – “C’mon, C’mon”
Elbow – “Fallen Angels”
Primal Scream – “Moving On Up”
The Dandy Warhols – “You Were The Last High”
Super Furry Animals – “Slow Life”
Franz Ferdinand – “Jacqueline”
Michael Nyman – “Nadia”
Black Rebel Motorcycle Club – “Love Burns”



9 de junho de 2005

A queda


Assisti A Queda – As Últimas horas de Hitler (Der Untergang). Bem pelo título percebe-se quase que imediatamente que não se trata de uma comédia romântica. Também não se trata de uma história de heróis, nem de finais estarrecedores e injustos. Mas alguém tinha que avisar ao diretor Oliver Hirschbiegel.

Apesar disso se eu chegasse ao cinema sem a menor noção de quem tinha sido o führer, personagem principal da trama, eu sairia de lá aos prantos. Coisa, aliás, que aconteceu durante todo o filme com uma senhora aparentemente centenária que estava sentada a duas cadeiras de mim (pois se fosse ao lado eu teria que me conter para não dizer-lhe: “alouuuuuuu esse cara matou 6 milhões, vó!!”).

É sério. Hitler foi mostrado de maneira quase que imaculada e praticamente meiga. Precisavam ver que sarro. Beijinho no cachorro. A véia ao lado se debulha. Carinho na esposa. A véia quase que morre. Olhar penetrante para a fiel secretária. A véia feliz com risadinhas como se visse “jesuis” encarnado. O homem decide se matar junto com Eva Braun. A véia cai aos prantos e freneticamente começa uma sessão de funga-funga e amassar de lenços de papel.

E quando a senhora-nazista-safada-dos-infernos-Goebbels dá veneno para os cinco filhinhos nazistinhas e depois se mata covardemente com o ministro da propaganda, seu esposo??? A véia começa mais uma sessão de soluços (Vó!!!!! Seis milhões! Seis milhões!!!! Vá cortar cebola que o choro é mais justificado!).

O filme é bom viu? Mas assistam longe de pessoas idiotas que se comovem com a morte de alguém que fez as maiores barbaridades da história da humanidade. Mas se acontecer e vocês forem como eu, uma pessoa má, na hora em que a mulher mata os filhinhos dê uma risada satânica de satisfação e abafe os chororôs do inconsolável que está aos prantos. É bem legal!

A obra foi indicada ao Oscar por melhor filme estrangeiro e a história é contada a partir do ponto de vista da então jovem secretária do führer, Traudl Junge. A parte mais interessante é o final do filme quando mostra parte do depoimento dado por ela pouco antes de sua morte (a entrevista integra o documentário A Secretária de Hitler, de 2002).

Ela diz que por tempos tentou perdoar-se por ter trabalhado para Hitler responsabilizando a ingenuidade da juventude. Mas um dia, ela se deparou com uma placa em memória de Sophie Scholl. Ela foi assassinada pelo regime nazista em 1943, aos 22 anos por integrar um grupo opositor ao nazismo, a mesma idade que Traudl tinha quando trabalhou para o ditador.

Ela disse: “Naquele momento, eu me dei conta de que ser jovem não era desculpa, e que teria sido possível descobrir o que de fato acontecia”. E o filme acaba com as lágrimas nos olhos da secretária.



7 de março de 2005

Hotel esperança


Havia muito tempo que um filme não me deixava sem fôlego. E eu sou cinéfila. Assisto de tudo. Ok, quase tudo.

Mas este filme não necessita de grandes propagandas já que a história é digna de ser o “filme de cabeceira” de qualquer pessoa de bom gosto.

Hotel Rwanda de Terry George (roteirista de “O Lutador” e “Em Nome do Pai”) praticamente espanca a cara do ocidente quando conta a história real de Paul Rusesabagina, um gerente de Hotel que se vê no meio a uma guerra entre compatriotas separados em dois grupos: a maioria hutu e a minoria tutsi.

Um verdadeiro massacre começa em 1994, sem a menor interferência de forças internacionais. Ou seja, Tio Sam que tanto gosta de meter o bedelho nem tomou conhecimento (Ruanda não tem petróleo!) e todos os soldados das nações unidas, como ratos abandonando o navio, saíram correndo do país quando eles acharam que a coisa ficaria feia. E ficou com o assassinato do presidente pelos rebeldes hutus que colocaram a culpa nos tutsis para ter uma desculpa para começar a matança.

Para se ter noção de quanto foi desesperador para uma parcela da população encurralada em seu próprio país, a ONU se deu ao trabalho de apenas retirar os estrangeiros que ali estavam e dizer: “Olha, sinto muito tá? Mas você ficam aí a mercê da sorte e de Deus”. Foi exatamente isso. Se fizeram de surdos e cegos e foram embora com a consciência tranqüila.

No entanto, como nem todo ser humano é cocô de barata, Paul Rusesabagina colocou para dentro das portas do hotel cerca de 1200 refugiados tutsis e os protegeu da maneira que pôde: subornou alguns, mentiu para outros, pediu ajuda para outros mais. E ele era hutu! E segundo este grupo, pior ainda do que ser um tutsie é ser um hutu que protege tutsie.

Paul, casado com Tatiana uma tutsie, escolheu proteger aquelas pessoas por algo que vai muito além de uma causa ou um ideal. Ele simplesmente não entendia o que motivava um ser humano a assassinar outro a sangue frio – e um outro ser que ainda por cima é seu compatriota, mesmo que separado por uma ridícula divisão de grupos.

Diferente de Oskar Schindler com quem é comumente comparado, Paul Rusesabagina não teve motivações financeiras para salvar os tutsies. Não pertencia a alta classe de seu país, não tinha influência nem poder político. E também não possuía uma empresa na qual poderia empregar aquelas pessoas a salários baixíssimos para aumentar seus lucros, como fez o empresário alemão.

Protagonizado por Don Cheadle (“Traffic”, “Onze Homens e um Segredo”), o filme concorreu aos Oscar de melhor ator, atriz coadjuvante com Sophie Okonedo (divina interpretação!) e roteiro original. Não ganhou nenhum, claro. Pois não pertence ao hall de produções que caem nas graças da panelinha da academia. Bom para o público, ruim para Hollywood, que desde que criou a premiação se consagrou por agraciar clichês e por eleger como estrelas muitos atores de talento até mesmo duvidoso. E o dia em que um filme como esse receber a premiação máxima, a festa do Oscar acontecerá na selva amazônica, ou seja, nunca.

Infelizmente, Hotel Rwanda não tem sequer previsão de estréia no Brasil. Parece que “O Massacre da Serra Elétrica” tem mais saída. E depois, quem quiser assistir ao filme sem ficar imerso a tantas dúvidas sobre o motivo da rivalidade entre os dois grupos é fácil encontrar informações na Internet.


Leia antes de usar
Desde 15 de janeiro de 2002 uma jornalista nonsense escreve desembestada no blog que chama carinhosamente de sua Casa.

Aqui têm besteiras demais, coisas inúteis demais, enfim, tudo o que nem precisava ser dito, muito menos escrito.

Obviamente, qualquer semelhança com a realidade é única e exclusivamente uma opção da autora.

Assim como o direito de escrever
o que bem entender, claro!


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