Arquivo da Categoria ‘Cartas de Alice’



19 de janeiro de 2007

Da constatação


Das cartas de Alice

Só faltou você. Não que isso impedisse que estivesse aqui de alguma forma, pois em meus pensamentos você sempre está. Mas senti falta de sua presença mesmo assim: de seu toque e desse seu riso fácil que te deixa com essa cara irritante de comercial de gente feliz na tevê.

Mas são coisas bobas e impossíveis de dividir com qualquer outro na face da Terra é que me dão um aperto no peito danado. Com quem é afinal que posso falar sobre teorias mundanas tão ridículas sem que me julguem como seu eu fosse uma maluca fugida do hospício? E me diga o que eu faço quando em meio a minhas 24 horas do dia não tenho você comigo nem para me dizer que tudo sempre fica bem no final? É verdade, fica. Aprendi com você.

Aliás, você me ensinou bem mais do que pode imaginar, mas jamais tive coragem de te dizer isso afinal. Talvez a única coisa que não tenha conseguido me colocar na cabeça foi o acento dos porquês e o momento certo de separá-los nas frases. Meus porquês são todos unidos pela falta das respostas que me pedem.

Eu sou confusa, sei disso. Lembro de quanto se esforçava para entender coisas a meu respeito que eu mesma não conseguiria explicar nem que vivesse outra vida a seu lado. E no final de tudo, meu bem, você não está mais perto e tampouco tudo existe para ser compreendido – eu sou uma dessas coisas.

E realmente: faltou você…

***
And I made my bed
So I can sleep on it
So I can weep on it
Now I’m wondering why
I made this bed

( I Sleep On It – Angela McCluskey)


21 de novembro de 2006

A despedida do amor não correspondido


(Das cartas de Alice)

Então suma de uma vez por todas – eu lhe peço – pois já não sou mais capaz de muitas coisas, tantas que nem sei se posso enumerá-las. Tantas, que nem sei se algum dia você saberá de todas. Tantas coisas que já nem cabem em mim: vazam de meu corpo, transbordam de meu peito, escorrem até meus pés.


Não é exagero, é verdade. Tão verdade como agora é dia e logo será noite. Tão real como o fato de que não posso tê-lo comigo agora e nem nunca poderei. E que você, tão mais do que eu, sabe que o amor de um não é suficiente no mundo em que reinam juras mútuas de sentimentos eternos. Sim, este mesmo mundo que possui um espaço quase imperceptível entre o “te amo” e o “já te esqueci”, e que, ironicamente, é o mesmo mundo no qual você insiste em não me amar. E eu não quero amar sozinha como uma pessoa que clama discursos aos quais ninguém ouve. Não mais.

Sei que não sou capaz de tê-lo apenas em uma tarde chuvosa de sábado, dentro de algum lugar lotado – ou mesmo em algum lugar apenas com nós dois, pois você não estaria ali a meu lado. Sei que não sou capaz de controlar meu desejo por você a ponto de me contentar em beijá-lo enquanto sobra um tempo qualquer entre o que precisa fazer e o que quer fazer de verdade. Sei que não sou capaz de ter paciência para esperar que decida ver-me quando não resta absolutamente mais nada. Sei que não sou capaz de fingir não notar que seus pensamentos voam longe. Sei que não sou capaz de não ferir-me ao imaginar que não é meu corpo que anseia em seus braços.

Não quero mais o que já aprendi a amar como se tivesse amado por toda a minha vida. E estou abrindo mão do frio na barriga, de minhas fantasias, de meus desejos de ter você a meu lado, da vontade que sinto de ser sua, das conversas ao pé do ouvido que sequer ouviu, da cumplicidade de um olhar que sempre quis com você, das canções que quis que conhecesse, das poesias rabiscadas ao lembrar de seu rosto.

Abdico, e me despeço, do seu corpo, do seu olhar, da sua boca, da sua voz, da espera por você, da palpitação em meu peito. Abdico e me despeço da minha história a seu lado, dos meus pêlos arrepiados ao tocar-me, do meu corpo tremendo de desejos. Abdico e me despeço do que ainda nem vivemos e nunca viveremos. Abdico e me despeço do suor de meu corpo colado ao seu, da felicidade desmedida a cada encontro – que só existiu em mim. Abdico e me despeço das lágrimas de seus olhos que eu não deixaria cair e do riso sem pudores que ingenuamente mostrei a você.

Abdico de você em função de mim – e de um amor maior que deve haver por aí em algum lugar.



5 de setembro de 2006

Só isso, mais nada…


(Pois Alice não é como mais ninguém)

E só ela sabe dela, afinal...Alice é daquele tipo de pessoa que quer apenas o suficiente. Nada além. Não tem desejos exorbitantes, a não ser, vez em quando uma bomba de chocolate recheada da padaria.

Tem um carrinho legal que terminou de pagar faz dois meses – o lava a cada 15 dias. Carrega nele seus CDs preferidos e dança enquanto dirige. Nunca quis Ferraris nem nenhum absurdo que sempre soube que não teria. Quando vê desses carros de cinema nas ruas, abaixa o vidro do seu e sorri, admira. Segue a vida enquanto dança seus lá-lá-lás.

Sua casa é na medida do que precisa – nem mansão nem casebre – e o que mais gosta é a parede lilás que ela mesma pintou. Ali tem um universo inteiro de coisas que lhe pertencem porque fazem parte do que é. As lembranças que carrega desde sempre, as pessoas que por ali passaram, as fotos espalhadas em porta-retratos e álbuns, sua coleção de coisas que nunca se dá conta de que coleciona. Tudo o que faz Alice ser Alice se guarda dentro de sua casa – em cada canto dela.

De amores, jamais esperou o impossível: não buscou a beleza absoluta, nem alguém tão inteligente a ponto de ser capaz de lhe explicar física quântica, ou a mais segura e indefectível das pessoas. Não. O amor que escolheu pra ela é uma pessoa normal, com marcas, cicatrizes, com capacidades e qualidades admiráveis, alguém passível de erros – exatamente como ela.

Trabalha com o que ama e jamais, jamais, faz hora extra – tampouco deixa algo por fazer. Mas ela acha que das 9h00 às 18h00 já é tempo demais para se dedicar a coisas que não vão mudar o mundo. Ela sabe que o curso da Terra também não será alterado se for embora pra casa no horário. Prazos, metas, planilhas existirão sempre e ela é muito responsável, no entanto seu maior comprometimento, antes de tudo, é consigo mesma. Fora isso, ela sempre quer ver o sol lá fora antes de escurecer. Acha muito justo.

As más línguas dizem que Alice quer muito pouco da vida. Ela ri. Dizem que é infeliz. Que mentira! Bradam aos quatro cantos que é uma pessoa sem muitos objetivos. Muito se enganam!

Alice quer da vida exatamente aquilo que precisa. Seus objetivos não consistem em “ter” mais do que “ser”. Ela fez um filho, escreveu um livro e plantou mais de uma dúzia de árvores. Ela é feliz exatamente porque sabe o que quer e o que não quer – não trava batalhas consigo mesma jamais.



17 de abril de 2006

Das cartas esquecidas na gaveta


Ou: De Alice para ninguém

… … é por isso e por tantas outras coisas que mesmo com o coração apertado, que mesmo sem eu conseguir pronunciar as palavras direito (por isso as escrevo) que digo que lamento. Lamento ter estado a seu lado por tanto tempo e ter te amado tanto, e ter me entregado por inteiro sem nem pestanejar e em troca ter recebido apenas um “não te amo mais” colocando um ponto final em tudo.

Lembro que tivemos momentos felizes, momentos de dúvidas, de medos – mas quando eu me perguntava se era mesmo a seu lado que eu gostaria de ficar até o último minuto de minha vida, a resposta era sim – sempre foi sim. O nosso beijo era sempre como se fosse o primeiro, o amor que fazíamos era sempre perfeito, as declarações de amor eram feitas olhando nos olhos um do outro… Lembro que tive medo em vários momentos, pensei em desistir, em poupar um sofrimento futuro… E tudo acabou mesmo afinal. Tudo o que tivemos virou lembrança, saudade, anotações em um diário, cartas que nunca serão enviadas.

Eu errei, você errou e hoje me acostumo a seguir apenas comigo. Eu sei que é tarde demais, mas agora tenho certeza de que todos os medos, todas as dúvidas, todos os momentos em que pensamos que o amor não era tanto, poderiam ter sido superados se tivéssemos tentado ao menos mais uma vez. Tarde demais eu sei. Agora sim o amor já não é tanto – eu me pergunto se ainda gostaria que fosse. Tenho mais uma certeza: você nunca mais será tão amado por outra pessoa como foi por mim – e acho que você sabe disso. Sei também que nunca mais vou querer amar alguém como amei você – eu não quero mais amar tanto.

Ontem eu quis te ligar, mas era tarde. Houve um tempo em que nunca era tarde, em que nunca eu precisaria me conter para pegar o telefone e ouvir sua voz. Houve um tempo em que você era tão meu que eu não sabia ao certo em que momento eu e você éramos mais do que um.

Às vezes acho que perdi meu amor por pura preguiça de continuar. Você teve preguiça de tentar enfrentar o que de errado estava acontecendo e o deixando distante de mim, teve preguiça de afastar uma pessoa que começava a se aproximar – a vontade de experimentar o novo foi mais forte do que tudo que tivemos durante tantos anos. Isso me fez sentir pequena, traída, me fez sentir que você nunca me amou de verdade, que só esteve comigo por estar, simplesmente por que não aparecia ninguém mais interessante, ninguém que pudesse oferecer coisas além daquilo tudo que eu já havia te dado. Você não me deu chances de tentar provar que o amor que havia, valia a pena qualquer tentativa, ou pelo menos mais uma.

Ainda, depois de um bom tempo depois daquele telefonema, eu sofro com as lembranças da decisiva conversa que tivemos. Lembro que eu estava triste, procurando uma alternativa para um recomeço profissional quando recebi sua ligação. Eu não estava bem naquela manhã, estava precisando de palavras de consolo, de apoio, um “volta, a gente recomeça mais uma vez aqui”, e o que ouvi foi o comunicado de que o amor acabou através de um aparelho de telefone. Chorei, implorei, fiquei desesperada. Não acreditava no que estava acontecendo, aquela pessoa que esteve a meu lado por anos estava terminando tudo como se cancelasse um pedido num restaurante, como se mudasse de idéia em relação ao sabor do suco que acabara de pedir.

Falar com você pessoalmente foi ainda pior. Você pôs fim a tudo que eu sonhei em questão de segundos – destruiu uma vida de planos e sonhos em questão de segundos. Deixou que eu saísse de sua vida tão facilmente quanto permitiu que outra pessoa entrasse. Estou triste até agora e acho que isso nunca vai sair de dentro de mim, eu quero esquecer e ao mesmo tempo não tenho coragem de apagar a história que tivemos. Apagar os beijos, os olhares, a amizade, os momentos. Não, não sei se quero apagar isso. Acho que eu tenho medo de esquecer coisas que talvez nunca mais em minha vida eu viva novamente.

Eu sei que o que estou sentindo agora vai passar mesmo que pareça que não. Mas me engano achando que talvez, bem no fundo, você ainda sinta minha falta e ainda troque os nomes das pessoas com quem conversa pelo meu. Que talvez, quando sozinho, admita que fez uma cagada enorme ao me deixar sair da sua vida assim. Que carregue com você a ilusão de que um dia ainda nos reencontraremos por esses caminhos que a vida esconde. E eu, aqui do meu lado, quietinha, espero. Espero que pare de doer, e que no dia em que você me ver novamente eu possa simplesmente sorrir e dizer: “obrigada por ter saído da minha vida”.



8 de março de 2006

Por onde andei enquanto você me procurava


Nem tão cega para se achar feia e nem tão suficiente para se sentir linda. Nem tão seca para ser a magra que gostaria e nem tão untuosa para ser gorda. Nem preta – nem branca. Nem isso e nem aquilo. Ela é ela, sem maiores definições.

Ao se olhar no espelho enxerga os olhos envoltos pelas olheiras que, assim como física quântica, não consegue compreender jamais. Só que assim como vários, não faz questão de entender certas coisas, já o motivo das olheiras… Se dorme bem, estão lá, se não: seguem ali.

Seus cabelos ondulados e compridos que nunca eram mais curtos do que a altura dos ombros. Sua boca de lábios finos que definitivamente não faziam jus ao tamanho de seu sorriso. O nariz pequeno e meio pontudo demais que já foi seu grande complexo. As orelhas, sempre com brincos imensos, que obrigatoriamente sempre combinavam com a cor da blusa.

Nua, observa seu corpo como a um grande amigo, o que esteve com ela em tantas batalhas. Um aliado, que, se deixou-se cair, levantou tão logo pôde e mesmo assim manteve-se firme sempre que possível.

Aquela cicatriz no pé direito da queda do balanço aos dez. A eterna mancha da espinha cutucada perto do olho aos dezesseis. O joelho que ainda dói do tropeço na escada aos vinte e quatro. Eternas companhias uns dos outros: ela, seus erros e acertos e todas as marcas, físicas ou não, ganhas pelo caminho.

Muitas vezes segura, em outras medrosa, alguns momentos de mulher, outros de menina, possui dias em que dá colo, outros em que pede, tem horas em que em ri, inclusive de si mesma, e outras em que chora, tem momentos de ser ela e outros de se deixar ser qualquer coisa.

Existem horas que não sei pra onde ir. Existem horas que é o caminho que não sabe pra onde nos levar.

Por isso ela segue mesmo quando não sabe aonde ir. Segue com todos os poréns e incertezas acolhidos a cada passo. Segue sendo ela, mesmo muitas vezes desejando ser outra. Segue como eu, como você e até mesmo como o próprio caminho que de vez em quando também se perde de nós.


Leia antes de usar
Desde 15 de janeiro de 2002 uma jornalista nonsense escreve desembestada no blog que chama carinhosamente de sua Casa.

Aqui têm besteiras demais, coisas inúteis demais, enfim, tudo o que nem precisava ser dito, muito menos escrito.

Obviamente, qualquer semelhança com a realidade é única e exclusivamente uma opção da autora.

Assim como o direito de escrever
o que bem entender, claro!


Procure aqui



Observados