Arquivo da Categoria ‘Amor e desamor’



6 de abril de 2010

Um novo capítulo


Eu, meu marido, Gato Lolô e Nina, nos mudamos no dia 20 de março após sete felizes anos vivendo num apartamento charmoso, porém minúsculo, no delicioso bairro da Bela Vista em São Paulo.

Fomos para perto. A cerca de uns 50 metros para a esquerda, no mesmo lado da calçada, fica nossa nova morada.

Fizemos a mudança com a colaboração de dois homens que carregaram nossas coisas em carrinhos de transporte já que não valia a pena um carreto para tão perto. Impressionante como de um espaço tão diminuto, saíram quase 30 caixas de papelão abarrotadas de coisas. E isso porque nos livramos de roupas que já não usávamos, sapatos surrados, papeladas – inutilidades variadas que as pessoas acumulam com o passar dos anos.

San acompanhava os homens a cada “viagem”, enquanto eu seguia enfiando nossas vidas naquelas caixas de mudança. E lá se foi caixa após caixa, eletrodomésticos, badulaques… No chão muita sujeira e apenas vestígios da vida que ali vivemos.

Quando enfim acabou, pegamos os gatos, os colocamos numa enorme caixa de transporte. Eu bati a porta à nossa frente, San a trancou e andamos de mãos dadas até o elevador. Olhei para trás e veio uma sensação inexplicável, que eu jamais poderia prever até aquele momento. Caí em lágrimas. Ali ficaram sete anos de muita felicidade, compreensão, amizade… San me abraçou, sorriu, limpou minhas lágrimas e disse: “A parte mais importante desta mudança está indo agora”.

Entramos toda família naquele elevador do 13º andar pela última vez e fomos ali, para 50 metros de distância à esquerda. Chegando ao prédio, apertamos o 13º no elevador (mantivemos a rua e também o andar do antigo endereço) e entramos em nosso apartamento novo. Prontos para continuar a história: eu, San, Gato Lolô, Nina e quem mais chegar…



12 de junho de 2007

Bodas de flores


Ontem eu e meu marido comemoramos quatro anos de casados. E é natural que eu sorria quietinha toda vez que me lembro do dia em que cheguei para ficar.

Ele me carregou em seus braços porta adentro naquela noite gelada que iniciava em 11 de junho de 2003. Nossas coisas espalhadas por todos os cantos da casa, acrescentavam à bagunça de tudo o que devia estar se passando em sua cabeça e de tudo o que vagava pela minha. Pra onde é que minha vida iria caminhar dali em diante? Eu não tinha a menor idéia.

E então lá se foram dias e dias em que sem percebermos, fomos nos tornando cúmplices, companheiros, videntes, irmãos mais velhos, amantes latinos, pai e mãe, melhores amigos, confidentes… Fomos nos tornando qualquer coisa que o outro pudesse precisar em algum determinado momento e quando menos nos demos conta, já éramos mais do que marido e mulher, éramos tudo, éramos o suficiente.

Já se passaram quatro anos e eu posso responder sem balbuciar como visualizo os próximos anos de minha vida. Eu realmente quero estar ao lado desse homem maravilhoso e fazer ao lado dele tudo mais o que seja possível para que sejamos mais e mais felizes.

***

Obrigada pelos melhores 1460 dias de todos, amor.



13 de março de 2007

Porque sim…


(Republicação – 08 de janeiro de 2005)
Te amo porque sim. Porque um belo dia o destino resolveu que você tinha que me roubar de uma outra pessoa e é claro, que eu tinha que me deixar ser roubada. Porque seus olhos enxergam minha alma e eu não tenho receios de mostra-la a você. Porque seu beijo me faz esquecer quase tudo e eu te beijo como se nunca tivesse beijado outra pessoa antes. Porque você não esquece do dia em que nos conhecemos e me conta ainda cada detalhe – que eu adoro escutar. Porque identifico o que somos nas músicas de amor que ouço e quero que você também perceba isso. Porque você me protege e aperta a minha mão com firmeza e eu me sinto a pessoa mais segura do mundo. Porque eu adoro o seu sorriso que faz com seus olhos fiquem menores ainda e isso me encanta todas as vezes. Porque eu sei que você não se arrepende de nada do que fez para estarmos juntos agora e isso me faz sentir feliz. Porque eu sinto que você realmente está fazendo o que pode e o que não pode para ficarmos perto e ficar perto de você é a coisa que mais desejo no mundo. Porque eu te admiro como marido e como amigo e sei que ser amigo de quem se ama é fundamental. Porque quando estamos juntos qualquer coisa é o suficiente para que estejamos felizes, até partidas infindas de Master ou musiquinhas que cantamos. Porque adoro te olhar nos olhos e ver que seu olhar não é de mais ninguém além de meu. Porque adoro ficar te enchendo dizendo que não entendi aquela parte do filme e te ver explicando tudo pacientemente. Porque amo te ouvir dizer que está com saudade e que me quer perto para nunca mais ficarmos longe. Porque sai do trabalho correndo para ficar comigo e fica feliz quando me vê sorrindo te esperando ansiosa. Porque você se adaptou ao meu jeito de amar como se me conhecesse a vida inteira e eu te amo cada vez mais por isso. Porque você adora meus mimos e os apelidinhos que te dou. Porque você escuta as músicas que canto em seu ouvido sempre com um sorriso lindo nos lábios. Porque sei que se entregou pra mim de corpo e alma e que nunca fingiu sentir o que não sentiu realmente. Porque o amor que fazemos é safado, sem pudores, com muito desejo e que é assim somente porque o amor é real. Porque os sonhos que temos serão sim realizados e seremos felizes pela vida toda. Porque sei que você estará comigo independentemente das minhas lágrimas ou do meu riso. Porque você é a melhor pessoa que já tive em minha vida e porque agradeço a Deus todos os dias por ter me dado este presente.


15 de fevereiro de 2007

As antíteses e os paradoxos de um amor


Estreando a antítese de Alice: Marília
Das cartas de Marília

Não, eu nem era tão moderna e descolada quanto você e todas as pessoas a nossa volta pensavam que eu fosse. Era um tanto de disfarce para não mostrar que por baixo daquela cara de “tô nem aí” estava justamente uma menina boba à espera de um amor fulminante e eterno. Um amor que fosse qualquer coisa de espetacular com tanto que fosse você ali comigo – e você bem lembra que quando estávamos juntos era mesmo assim: espetacular.

Você e eu éramos uma antítese descarada. Eu sempre de esquerda, revolucionária e você um ingênuo extrema direita. Tudo te chocava, qualquer coisa que não seguisse os padrões te apavorava. Certinho você. Tresloucada eu. Tão fácil nossas idéias discordarem assim como era também normal que ninguém jamais entendesse porque é que uma mulher como eu queria estar ao lado de alguém como você. Tão irritantemente comum. Sim, comum.

Tentei me convencer de que as diferenças eram bobos detalhes e você foi ótimo quando passou a ter meus filmes preferidos como os seus preferidos, a ouvir minhas canções preferidas como sendo também as suas. Do meu lado eu fingia divinamente que você tinha opinião própria e não estava se tornando uma daquelas pessoas que repetem o que sequer compreendem. Do seu, você fingia que aquele mundo novo era compatível à sua vida e a tudo o que você queria.

E no mais, também meus jeans rasgados não combinavam com suas calças com vinco. Minhas botas altíssimas te deixavam menor do que eu. Meus cabelos armados e vermelhos contrastavam com seu castanho-liso-tedioso. Meus olhos castanhos maquiados em um preto assustador apagavam o verde delicado dos seus. Éramos antítese sim, mas agíamos como meros paradoxos tentando entender e justificar as diferenças com o que tínhamos de melhor. Só que sequer sabíamos direito o que tínhamos de melhor.

Eu te mordia e você alucinado, sequer desconfiava que aquilo era o equivalente a um singelo beijo de olhos fechados. Eu arrancava suas roupas em um piscar de olhos e você, encantado, se deixava guiar em um ritmo que em nenhum romance seria visto como um mero “fazer amor” – mas era.

Eu te comia. Eu te enfiava em mim até que seus olhos não focassem mais meus movimentos ali em cima de você. Aquele encaixe perfeito que no final era apenas compreendido como a mágica de uma química perfeita. Mas era mais: era raro. E eu pegava suas mãos e fazia delas as minhas próprias quando fechava meus olhos e as esfregava em mim. Você gostava, ficava em um transe absurdamente delicioso. Eu sei, realmente eu era a fêmea que qualquer homem gostaria de ter, exatamente como você dizia. Mas acontece, que eu não queria pertencer a nenhum outro, só a você. Me come! Vem dentro de mim! E você obedecia sem desconfiar que aquilo tudo era a mais profunda prova de amor que eu poderia oferecer a alguém. E eu te amava.

No final das contas o incomum era você que possuía alguém tão livre e diferente. E eu? Eu havia me tornado justamente o clichê ao qual todos julgavam que eu jamais sucumbiria: aquele de esperar a reciprocidade de um amor, mesmo um tão cheio de lacunas quanto o que você me ofereceu.



29 de janeiro de 2007

O sujeitinho composto


Não era muito fácil se chamar Mirtes Matilde. Fosse uma pessoa qualquer teria vergonha, mas ela não. Quando questionada sobre qual seria sua graça, abria a boca com orgulho e dizia toda prosa em alto e bom som: “Me chamo Mirtes Matilde”. E de quebra, mesmo que ninguém jamais houvesse ansiado em saber, ela completava: “Mirtes significa triunfo e Matilde quer dizer poderosa guerreira. Portanto meu nome é o TRIUNFO DE UMA PODEROSA GUERREIRA”. Não se continha esperando as reações que jamais eram de acordo com suas expectativas.

O pré-requisito para uma pessoa encantá-la era ter um nome grandioso como o dela. Não se interessava em absoluto por pessoas com nomes comuns como Anas Carolinas, Marias Heloísas, Joões Pedros ou Carlos Eduardos. Mas, sobretudo desprezava pessoas com apenas um nome como Julianas, Andréas, Marcos e Rodrigos. Pensava com seus botões: “Nome comum é igual a uma pessoa comum. Nome simples é igual a uma pessoa simples”. E ela não tinha afinidade nem interesse no comum nem no simples. Queria conhecer os raros e compostos e foi exatamente essa mania a responsável por uma série de corações partidos na vida de Mirtes Matilde. Pencas de Antônios, Paulos, Jefersons e Ronaldos se apaixonaram por ela, que fria como uma pedra, dispensava a todos, um a um.

Até que um belo dia na repartição em que trabalhava, começaram a surgir rumores de um certo novo funcionário que acabara de ser contratado. Cara comum, magrelinho comum, roupas comuns, sapatos comuns, sorriso comum. De diferente e o único responsável pelos comentários de todos era seu nome. E foi assim que tudo mudou na vida de Mirtes Matilde:

- Prazer em conhecê-la. Sou Argemiro Egídio. Meu nome significa guerreiro ilustre que protege.

Apaixonaram-se perdidamente e nem a política da empresa que não permitia nenhum envolvimento amoroso entre os funcionários foi obstáculo. Dois anos depois ela engravidou e desde então começaram as apostas sobre o nome que o casal daria àquela pobre criança.



19 de janeiro de 2007

Da constatação


Das cartas de Alice

Só faltou você. Não que isso impedisse que estivesse aqui de alguma forma, pois em meus pensamentos você sempre está. Mas senti falta de sua presença mesmo assim: de seu toque e desse seu riso fácil que te deixa com essa cara irritante de comercial de gente feliz na tevê.

Mas são coisas bobas e impossíveis de dividir com qualquer outro na face da Terra é que me dão um aperto no peito danado. Com quem é afinal que posso falar sobre teorias mundanas tão ridículas sem que me julguem como seu eu fosse uma maluca fugida do hospício? E me diga o que eu faço quando em meio a minhas 24 horas do dia não tenho você comigo nem para me dizer que tudo sempre fica bem no final? É verdade, fica. Aprendi com você.

Aliás, você me ensinou bem mais do que pode imaginar, mas jamais tive coragem de te dizer isso afinal. Talvez a única coisa que não tenha conseguido me colocar na cabeça foi o acento dos porquês e o momento certo de separá-los nas frases. Meus porquês são todos unidos pela falta das respostas que me pedem.

Eu sou confusa, sei disso. Lembro de quanto se esforçava para entender coisas a meu respeito que eu mesma não conseguiria explicar nem que vivesse outra vida a seu lado. E no final de tudo, meu bem, você não está mais perto e tampouco tudo existe para ser compreendido – eu sou uma dessas coisas.

E realmente: faltou você…

***
And I made my bed
So I can sleep on it
So I can weep on it
Now I’m wondering why
I made this bed

( I Sleep On It – Angela McCluskey)


19 de dezembro de 2006

Depois de ter você


(Republicação – 17 de agosto de 2005)

...A tempestade – E te beijarei como se fosse o último beijo temendo que realmente o seja. Você me olhará de perto e enxergará mais do que meus olhos imensos te olhando, verá meus imensos olhos cheios de lágrimas – te olhando. Esquecerei todos os momentos maus e lembrarei apenas do que acho que não posso viver sem, como te ver dormir encolhido a meu lado, sempre com frio, apesar do calor do verão lá fora. Pensarei nas viagens que fizemos juntos e terei certeza de que todos aqueles lugares sairão do mapa porque nunca mais os veremos juntos. Olharei os amigos que fizemos e vou desejar que se afastem para não me trazerem lembranças do que não tenho mais. Tomarei meu café da manhã amargo, pois saberei que sem você comigo, todos os cafés da manhã serão amargos. Chutarei uma pedra no chão e me sentirei a própria pedra. Escreverei textos tristes e que façam sentido apenas para mim, pois nada mais fará muito sentido. Assistirei aos meus programas de tevê favoritos (que eram nossos) e por segundos me pegarei sorrindo e comentando sozinha um pedaço engraçado, desejando que você estivesse ouvindo. Falarei com os gatos e eles não me responderão como antes, ficarão mais calados depois de sua ida. Atenderei ao telefone com o coração aos pulos e xingarei a plenos pulmões a garota do telemarketing – coitada – ela só não era você. Verei as horas passando e simplesmente não farão diferença todos os segundos que correm, o tempo parecerá ter parado. Temerei como sempre as tempestades com seus raios e trovões e não terei você para me acalmar. Imaginarei onde você está em algum exato momento e me angustiarei pelo pensamento de que esteja em outros braços. Ouvirei todas as músicas sem mais balançar a cabeça devagarinho e acompanhar as letras que nem sei com meus nãnãnãs. Sonharei como o último dia em que o vi e acordarei aos prantos, pois só em meus sonhos você ainda está perto.

A negação – Direi a todos que te odeio e só eu saberei que ainda o amo como nunca. Fingirei que desejo nunca mais vê-lo na vida, mas em segredo (até de mim mesma) me arrumarei todas as vezes do jeito que sei que gosta e me prepararei para um eventual encontro. Beijarei outras bocas e o gosto de todas elas não serão como o seu. Farei sexo com centenas de pessoas e entregarei a todas o meu corpo, jamais o meu espírito como fazia com você. Verei filmes novos e o amaldiçoarei, pois saberei que jamais gostaria de vê-los. Rasgarei suas fotos praguejando e reparando em todos os seus defeitos, como aquela pinta feia que eu amava… Picarei todas as suas cartas, mas antes a lerei novamente e sorrirei toda vez que encontrar um erro de português. Flertarei com todos os homens que você sentia ciúmes e me divertirei imaginando sua cara. Perguntarei a todos sobre você e morrerei quando me contarem que está namorando. Quererei ver a cara da nova escolhida e a acharei medonha, gorda e burra quando a vir. Me apaixonarei novamente e terei certeza de que nunca será como o que eu senti por você. Me apaixonarei de verdade mas ainda assim pensarei que não será a mesma coisa. Me apaixonarei como nunca e não estarei convencida de que é maior do que era com você.

A bonança – Um belo dia, quando eu menos esperar… tentarei com todas as minhas forças relembrar que raio era aquilo tudo que senti por alguém que nem sei mais direito quem tenha sido.



12 de dezembro de 2006

À primeira vista


!!! Se naquele dia, apesar de tudo o que aconteceu, ela soubesse o que ainda estava por vir não teria reclamado tanto nem estado à beira de um ataque de nervos.

Acordou atrasada porque a droga do despertador a deixou na mão. Levantou correndo, deu uma topada com o dedão, xingou tudo o que pode, entrou no banho e, ainda, com a cabeça cheia de shampoo para cabelos oleosos, a água ficou gelada. Saiu chorando e terminou de enxaguá-los na pia – que belo jeito de se começar o dia. No armário procurou a saia preta nova e linda que havia comprado uma semana antes. Colocou também uma blusa branca sem graça, o sapato de verniz com o qual gastara quase o salário do mês todo e a bolsa preferida – aquela do forro furado.

Engoliu um café preto horroroso acompanhado de uma bolacha murcha, pois era a única coisa na despensa dentro do prazo de validade – definitivamente precisava ir ao mercado. Ao sair de casa a saia ficou presa na porta do apartamento e rasgou ao primeiro passo em direção ao elevador. Voltou gritando de raiva e bem neste momento o vizinho abriu a porta – não respondeu ao bom dia que ele lhe disse. Colocou outra saia e só depois notou que estava manchada de chocolate. Não tinha mais tempo de procurar outra coisa. Iria assim mesmo.

O elevador, justo hoje, quebrado. O de serviço com uma mudança gigante do 509. Raios! 21 andares escada abaixo. E lá foi ela.

Na rua, greve dos metroviários – como chegaria? Maldita cidade caótica! Chegou: quatro horas atrasada e com uma pilha de pepinos para resolver. O telefone tocando a cada dois segundos e o chefe a lembrando da reunião com o representante estrangeiro. Onde estava sua agenda com todas as anotações do que tinha que ser discutido na tal reunião?? Onde? Acabara de lembrar que a deixara em cima da televisão, um lugar estratégico para que justamente não esquecesse de levá-la. Era uma retardada mesmo!

Foi ao banheiro porque sentiu algo estranho. Não podia ser! A menstruação resolveu aparecer duas semanas antes? Não tinha absorvente. Sempre tão precavida era a que emprestava às amigas em casos de emergência, desta vez não tinha um sequer.

Tinha que dar uma fugida para ir a farmácia. No caminho notou que sua meia desfiou em um lugar impossível de esconder. Desequilibrou-se ao olhar o estrago e deu um mau jeito no pé direito, aquele mesmo que não ficava uma semana ileso – quando não eram os calos, eram as torções.

Na prateleira, não encontrou o super-abas-ultra-seco, mini-blaster-plus que era o seu preferido. Tudo bem, levaria o mega-fino-dry-multi-abas mesmo. Pagou com uma nota de cinqüenta. Devolveram o troco em notas de um real: 47, 34 – tudo em notas de um real (fora as moedas dos centavos). Saiu puta da vida.

Esperando para atravessar a rua no sinal que estava fechado para pedestres, uma criança no colo da mãe desembestou a mostrar-lhe a língua. Que dia maravilhoso!

Desviou o olhar do infante terrível e se deparou com uma pessoa., e, eis que, pela primeira vez em sua vida, apaixonou-se à primeira vista. Esse negócio não era lenda então – amores à primeira vista existiam de verdade! Ela ainda não sabia, mas ali do outro lado, a pessoa que observava também se apaixonava por ela naquele mesmo instante.

Sorriram um para o outro.

Que dia perfeito!



28 de novembro de 2006

Somente ela


(Republicação – 17 de outubro de 2004)
Teve medo de não saber mais se portar sem tê-lo a seu lado. Mas em contrapartida pensou que foram tantas as vezes que recomeçou, que bem ou mal faria isso de novo – e da maneira certa, porque todo fim implicava um recomeço, então recomeçaria. Lembrou-se mais uma vez de um filme francês estrelado por Juliette Binoche em que ela dizia: “Cuidado com aqueles que já sofreram porque eles sabem que podem sobreviver apesar de qualquer coisa”. Foram tantos os obstáculos em seu caminho que prometeu a si mesma que se houvesse uma próxima vez não mais sucumbiria, não se entregaria.
E lembrou das manias, dos pequenos detalhes que iam desde o jeito em que ele dormia quando estava exausto, até a forma metódica em que comia: mexendo bem, pegando aos pouquinhos e comendo devagar para apreciar o sabor da comida. Chora ao pensar disso. E nunca achou que sentiria falta de coisas que nem sabia que prestara atenção no meio de tanta correria dos dias que passavam. Os dias que passavam e levavam com eles a história de duas vidas, seus medos, suas conquistas e cumplicidades – suas vitórias e derrotas superadas, suas tantas coisas que estavam tão repletas deles dois. Só dos dois.
Pensou que em meio de tanta alegria compartilhada, de tanta vida dividida, a tristeza e a mágoa prevaleceram mais do que deveriam e foram várias as vezes. E se perguntou porque as pessoas se punem dessa forma. Pensou em Chico naquela canção que agora insistia em pular em sua memória – há tanto não lembrava dela: “na fotografia estamos felizes… Meus olhos molhados, insanos, dezembros, mas quando eu me lembro são anos dourados – ainda te quero…”. Olhou mais uma vez para todos os momentos eternizados nos porta-retratos: sorrisos, beijos, abraços, olhares… Onde estavam todos aqueles momentos que ficaram esquecidos em meio a tanto choro e dizeres desnecessários? Sentia falta de quando podiam gritar, brigar e extravasar os demônios e ainda procurarem um pelos pés do outro durante a noite, e se isso acontecesse significava que o perdão vencera mais uma vez. Já naquela noite ela temia que ele permanecesse distante. Mais lágrimas desciam contornando as linhas de seu rosto.
Tinha que aprender a calar, falara demais. Tinha que aprender a chorar para dentro, lágrimas demais afogam o amor. Tinha que aprender a se perdoar, se exigia muito.
Fez as malas, mas no fundo esperava um abraço. Se a abraçasse abraçaria de volta. Olhava as coisas espalhadas a seu redor, mas tudo o que desejava era um pedido de desculpas. Se pedisse desculpas, desculparia. Apesar do silêncio, ainda ouvia palavras ditas com raiva, e tudo o que queria ouvir era para que ficasse – e ela ficaria.
Sentiu-se tão frágil e desprotegida quando uma flor caída no chão em que milhares de pés pisam todo o tempo. Sentiu-se como estivesse prestes a ser esmagada e nada pudesse fazer a não ser esperar que o vento mudasse sua direção e a levasse para um lugar seguro. E nem o vento veio a seu favor – ela mesma teria que se proteger nem que para isso precisasse arranjar forças e arrastar-se para longe. Longe do único lugar e da única pessoa no mundo que queria estar perto.
Deitou na cama e pensava sobre o que faria da vida. Sentiu um braço a laçando – abraçou em resposta. Ficou em silêncio e teve certeza de que poderia ouvir o bater de seu coração desesperado dentro de seu peito – parecia que queria falar por ela. Ouviu o pedido de desculpas. Fez o mesmo e desculpou. As palavras raivosas foram aos poucos se dissipando em sua mente, embora ainda a machucassem. “Fica”. E ela ficou.
“Me vejo a teu lado, te amo? Não lembro… Parece dezembro de um ano dourado, parece bolero. Te quero, te quero… Dizer que não quero, teus beijos nunca mais, teus beijos nunca mais.”


21 de novembro de 2006

A despedida do amor não correspondido


(Das cartas de Alice)

Então suma de uma vez por todas – eu lhe peço – pois já não sou mais capaz de muitas coisas, tantas que nem sei se posso enumerá-las. Tantas, que nem sei se algum dia você saberá de todas. Tantas coisas que já nem cabem em mim: vazam de meu corpo, transbordam de meu peito, escorrem até meus pés.


Não é exagero, é verdade. Tão verdade como agora é dia e logo será noite. Tão real como o fato de que não posso tê-lo comigo agora e nem nunca poderei. E que você, tão mais do que eu, sabe que o amor de um não é suficiente no mundo em que reinam juras mútuas de sentimentos eternos. Sim, este mesmo mundo que possui um espaço quase imperceptível entre o “te amo” e o “já te esqueci”, e que, ironicamente, é o mesmo mundo no qual você insiste em não me amar. E eu não quero amar sozinha como uma pessoa que clama discursos aos quais ninguém ouve. Não mais.

Sei que não sou capaz de tê-lo apenas em uma tarde chuvosa de sábado, dentro de algum lugar lotado – ou mesmo em algum lugar apenas com nós dois, pois você não estaria ali a meu lado. Sei que não sou capaz de controlar meu desejo por você a ponto de me contentar em beijá-lo enquanto sobra um tempo qualquer entre o que precisa fazer e o que quer fazer de verdade. Sei que não sou capaz de ter paciência para esperar que decida ver-me quando não resta absolutamente mais nada. Sei que não sou capaz de fingir não notar que seus pensamentos voam longe. Sei que não sou capaz de não ferir-me ao imaginar que não é meu corpo que anseia em seus braços.

Não quero mais o que já aprendi a amar como se tivesse amado por toda a minha vida. E estou abrindo mão do frio na barriga, de minhas fantasias, de meus desejos de ter você a meu lado, da vontade que sinto de ser sua, das conversas ao pé do ouvido que sequer ouviu, da cumplicidade de um olhar que sempre quis com você, das canções que quis que conhecesse, das poesias rabiscadas ao lembrar de seu rosto.

Abdico, e me despeço, do seu corpo, do seu olhar, da sua boca, da sua voz, da espera por você, da palpitação em meu peito. Abdico e me despeço da minha história a seu lado, dos meus pêlos arrepiados ao tocar-me, do meu corpo tremendo de desejos. Abdico e me despeço do que ainda nem vivemos e nunca viveremos. Abdico e me despeço do suor de meu corpo colado ao seu, da felicidade desmedida a cada encontro – que só existiu em mim. Abdico e me despeço das lágrimas de seus olhos que eu não deixaria cair e do riso sem pudores que ingenuamente mostrei a você.

Abdico de você em função de mim – e de um amor maior que deve haver por aí em algum lugar.


Leia antes de usar
Desde 15 de janeiro de 2002 uma jornalista nonsense escreve desembestada no blog que chama carinhosamente de sua Casa.

Aqui têm besteiras demais, coisas inúteis demais, enfim, tudo o que nem precisava ser dito, muito menos escrito.

Obviamente, qualquer semelhança com a realidade é única e exclusivamente uma opção da autora.

Assim como o direito de escrever
o que bem entender, claro!


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