Eu, meu marido, Gato Lolô e Nina, nos mudamos no dia 20 de março após sete felizes anos vivendo num apartamento charmoso, porém minúsculo, no delicioso bairro da Bela Vista em São Paulo.
Fomos para perto. A cerca de uns 50 metros para a esquerda, no mesmo lado da calçada, fica nossa nova morada.
Fizemos a mudança com a colaboração de dois homens que carregaram nossas coisas em carrinhos de transporte já que não valia a pena um carreto para tão perto. Impressionante como de um espaço tão diminuto, saíram quase 30 caixas de papelão abarrotadas de coisas. E isso porque nos livramos de roupas que já não usávamos, sapatos surrados, papeladas – inutilidades variadas que as pessoas acumulam com o passar dos anos.
San acompanhava os homens a cada “viagem”, enquanto eu seguia enfiando nossas vidas naquelas caixas de mudança. E lá se foi caixa após caixa, eletrodomésticos, badulaques… No chão muita sujeira e apenas vestígios da vida que ali vivemos.
Quando enfim acabou, pegamos os gatos, os colocamos numa enorme caixa de transporte. Eu bati a porta à nossa frente, San a trancou e andamos de mãos dadas até o elevador. Olhei para trás e veio uma sensação inexplicável, que eu jamais poderia prever até aquele momento. Caí em lágrimas. Ali ficaram sete anos de muita felicidade, compreensão, amizade… San me abraçou, sorriu, limpou minhas lágrimas e disse: “A parte mais importante desta mudança está indo agora”.
Entramos toda família naquele elevador do 13º andar pela última vez e fomos ali, para 50 metros de distância à esquerda. Chegando ao prédio, apertamos o 13º no elevador (mantivemos a rua e também o andar do antigo endereço) e entramos em nosso apartamento novo. Prontos para continuar a história: eu, San, Gato Lolô, Nina e quem mais chegar…
Ontem eu e meu marido comemoramos quatro anos de casados. E é natural que eu sorria quietinha toda vez que me lembro do dia em que cheguei para ficar.
Daí, como naqueles enredos bobos e previsíveis em que vemos uma série de mal entendidos que acontecem para separar os mocinhos, ele começou suas explicações. Não, ele jamais tivera outra intenção desde o dia em que nos falamos ao telefone a não ser ficar comigo. Não, ele não estava protelando o término do namoro. Não, ele não mentira quando falou sobre o amor à primeira vista. E que naquele dia em que eu havia ligado ele não pôde falar, pois a então namorada estava ali ao lado dele – durante dias esperou que eu ligasse e quando isso aconteceu, ela estava ali.
Ah! Quer saber de uma coisa? Que se dane tudo! Era exatamente o que pensava. Eu é que não iria ficar choramingando por um babaca que acabara de conhecer. Era realmente só o que me faltava. Desapaixonaria tão rapidamente quando apaixonei – era o que ficava me repetindo como um mantra.
Alô – ele disse. Oi, tudo bem? – eu disse. Sim – ele respondeu.
Naquela praia, em companhia do meu sobrinho de então quatro anos, tive as maiores e, no entanto, mais sensatas divagações a respeito de minhas mazelas. Que besteirada esse negócio de amor que acaba e nos consome. Quanta lágrima desperdiçada enquanto pensamos que a última chance de ser feliz se esvaiu por entre nossos dedos…
Continuamos a conversar e posso garantir que esses dias pareceram meses devido a tudo que aconteceu. Entre tantas coisas de natureza bastante distintas estavam incluídos, de um lado, o meu ex inconformado, e de outro, a namorada do moço que parecia perceber que havia algo estranho no ar. O namoro dos dois nunca foi o que ele gostaria, sempre foi claro que o amor pendia apenas de um lado da balança e era apenas no que dizia respeito ao sentimento dela por ele. Ele não a amava.
Algumas horas mais tarde, depois da longa e assustadora (sim eu estava assustada) conversa por telefone terminei o namoro (também por telefone) com o moço do começo desta história. Se eu fui canalha com o namorado terminando assim? Talvez, mas só quem sabe de toda história sou eu. Portanto, se você aí desse lado está pensando na possibilidade de julgar o que fiz quero que saiba que pouco me interessa e “vatecatá” antes que eu me esqueça.
Parênteses: Por falar em algo engraçado, ou ao menos curioso, foi a maneira como ele descreveu o instante em que me avistara naquela festa. Estava com a namorada quando ela o cutucou para olhar para uma figura sentada no saguão do hotel. A figura era eu. Segundo ele, as palavras dela foram algo como: olha lá aquela menina esquisita com um a roupa que parece a do Chapolin! E deu risada. Só que ela não notou que ele nunca mais deixou de me olhar. Sem querer ela foi a respo
nsável por tudo. Isso foi ele quem disse também.
Não sei bem o porquê, mas achei o fato do rapaz estar interessado em mim engraçado. Incrível como certas coisas acontecem em nossas vidas nos piores momentos. Exatamente em momentos como esse em que muitas vezes deixamos escapar algo ou alguém que nos faria extremamente feliz por conta de uma descrença momentânea.






