Arquivo de março de 2006



8 de março de 2006

Por onde andei enquanto você me procurava


Nem tão cega para se achar feia e nem tão suficiente para se sentir linda. Nem tão seca para ser a magra que gostaria e nem tão untuosa para ser gorda. Nem preta – nem branca. Nem isso e nem aquilo. Ela é ela, sem maiores definições.

Ao se olhar no espelho enxerga os olhos envoltos pelas olheiras que, assim como física quântica, não consegue compreender jamais. Só que assim como vários, não faz questão de entender certas coisas, já o motivo das olheiras… Se dorme bem, estão lá, se não: seguem ali.

Seus cabelos ondulados e compridos que nunca eram mais curtos do que a altura dos ombros. Sua boca de lábios finos que definitivamente não faziam jus ao tamanho de seu sorriso. O nariz pequeno e meio pontudo demais que já foi seu grande complexo. As orelhas, sempre com brincos imensos, que obrigatoriamente sempre combinavam com a cor da blusa.

Nua, observa seu corpo como a um grande amigo, o que esteve com ela em tantas batalhas. Um aliado, que, se deixou-se cair, levantou tão logo pôde e mesmo assim manteve-se firme sempre que possível.

Aquela cicatriz no pé direito da queda do balanço aos dez. A eterna mancha da espinha cutucada perto do olho aos dezesseis. O joelho que ainda dói do tropeço na escada aos vinte e quatro. Eternas companhias uns dos outros: ela, seus erros e acertos e todas as marcas, físicas ou não, ganhas pelo caminho.

Muitas vezes segura, em outras medrosa, alguns momentos de mulher, outros de menina, possui dias em que dá colo, outros em que pede, tem horas em que em ri, inclusive de si mesma, e outras em que chora, tem momentos de ser ela e outros de se deixar ser qualquer coisa.

Existem horas que não sei pra onde ir. Existem horas que é o caminho que não sabe pra onde nos levar.

Por isso ela segue mesmo quando não sabe aonde ir. Segue com todos os poréns e incertezas acolhidos a cada passo. Segue sendo ela, mesmo muitas vezes desejando ser outra. Segue como eu, como você e até mesmo como o próprio caminho que de vez em quando também se perde de nós.



7 de março de 2006

I hate you so much rigth now / ou…


… No dia seguinte ninguém morreu

Quando termino de ler um livro me sinto meio aliviada e muitas vezes com saudades. Parece coisa de louco, mas vez em quando, desejaria que ainda não tivesse lido determinado livro só pra ter aquela sensação de êxtase que só a primeira é capaz. Aquela em que nos sentimos tolos diante de algum gênio que transforma coisas complicadas em simples, ou explica as banalidades que jamais conseguiríamos expressar, em palavras muito menos.

É por isso que ontem me senti meio boba quando terminei de ler As Intermitências da Morte, pois esperava muito. (Nota mental: lembrar de falar sobre o dia que encontrei no elevador uma mulher com este livro nas mãos toda metida por estar autografado – a odeio). Saramago é genial e esse título não serei eu a tirar. Só que Intermitências não deu pra engolir. Sinto Saramago, mas você sabe fazer melhor.

Claro que o livro não foi de todo mal. Me diverti com as possibilidades levantadas pelo autor do que seria um país em que a morte não mais matasse ninguém. Ri muito com o desespero da igreja, do governo e das indústrias da morte (funerárias e companhias de seguro) diante do fuá que tudo poderia se transformar com as pessoas vivendo eternamente. Gargalhei com a inveja que os países vizinhos sentiram pela sorte dos imortais. Sem morte não tem reino dos céus, nem medo de ir para o inferno, nem necessidade de seguir regras e não se enterra mais ninguém. O que seria então se ninguém mais morresse? Uma benção ou uma maldição?

Diante desse tema e com o que foi levantado logo no início do livro, fiquei feliz achando que seria mais um para a lista dos meus Top Ten Puta Livros (sim, tenho várias categorias), mas me dei mal.

A morte pode ser um assunto romântico até mesmo. Assim como pode ser cômico e também pode ser reflexivo. Mas a “morte” de Saramago não me pareceu nada além de uma sucessão de parágrafos desesperados para o final do livro. Para isso eu assistiria mais contente ao filme do Brad Pitt (Meet Joe Black – Encontro Marcado) que é praticamente sobre o mesmo imbróglio. Só que com a diferença de que de Brad só espero um rostinho bonito, já de Saramago… Mas chega, não colocarei “spoillers” aqui.

Claro que sei que vocês não são de se abalar por uma crítica negativa e me decepcionariam muito se o fizessem. Portanto recomendo que leiam e depois me contem o que acharam. Mas antes, se quiserem ler um livro do autor português que realmente valha a pena cada página, sugiro O Ensaio Sobre a Cegueira.

***
E sim, agora odeio um pouco esse português, pois ninguém pode construir uma paixão assim e depois dar uma rasteira em todas as expectativas criadas (Hum… Tá). Mas passa, eu sei.

***
Queria encontrar novamente a mulher do elevador e dizer que nem o autógrafo valeria para que eu abrisse o livro novamente – huahuahuahuahua… (Tuka, por que você é assim?).

***
O livro que estou lendo agora (tá ali no ladinho) já sei que jamais entrará no meu Top Ten Puta Livros. Mas ler umas amenidades de vez em quando é bom, né não?


6 de março de 2006

And the Oscar goes to: Crash!


Contrariando todas as expectativas Crash levou o Oscar de melhor filme. Eu adorei o resultado. Minutos antes da cerimônia começar ainda comentei com meu marido o quanto seria ótimo se desse um revés e Crash levasse o prêmio e não Brokeback como o esperado. E arrematei dizendo: “Mas isso nunca vai acontecer, Hollywood é previsível”. Pois é, não é tão previsível quanto eu achava.

Quando assisti a este filme, em novembro do ano passado, saí do cinema tão extasiada que precisei de vários minutos para me recuperar. Quem me conhece, sabe que tenho uma certa tendência a gostar de filmes que não seguem aquela receitinha de mundo perfeito. Gosto do cinema que bate na cara, que não faz questão de máscaras, que tenta mostrar a realidade da melhor maneira possível. Não preciso de finais felizes. Não é à toa que meus filmes de cabeceira são Réquiem Para um Sonho, Magnólia, Fale com Ela, Dogville, A Vida é Bela e outros vários.

Claro, que algo leve de vez em quando também é legal. Vide filminhos bobinhos, mas adoráveis que vi nos últimos tempos como Tudo em Família e Dizem Por Aí (com duas das minhas top divas: Sarah Jessica Parker e Jennifer Aniston, respectivamente). Só que esse tipo de filme não é o que eu chamo de um “PUTA FILME” são apenas um passatempo divertido para um dia em que estou com preguiça de pensar muito.

Já Crash entra fácil em minha Top List Puta Filmes. Vale tanto a pena assistir que vi duas vezes. Depois baixei a trilha também, claro.

Pois bem, agora que o filme ganhou o Oscar fica mais fácil que acreditem em mim e o assistam – não preciso gastar muito assunto recomendando. Vão lá no cinema que ainda está em cartaz e deliciem-se.

PS: Agora agüentem as entidades gays dizendo que Brokeback não ganhou por preconceito.

Abaixo a lista completa dos vencedores e ao lado alguns comentários meus:

FILME

“Crash – No Limite” – (meu favorito disparado!)

DIRETOR

“O Segredo de Brokeback Mountain” – Ang Lee – (Uma pena Fernando Meirelles não ter concorrido)

ATOR

Philip Seymour Hoffman por “Capote” (Mais do que merecido!)

ATOR COADJUVANTE

George Clooney – “Syriana” (Nem foi isso tudo a atuação dele)

ATRIZ

Reese Witherspoon por “Johnny e June” (Preferia Felicity Hoffman)

ATRIZ COADJUVANTE

Rachel Weisz – “O Jardineiro Fiel” (Adorei!)

ROTEIRO ADAPTADO

“O Segredo de Brokeback Mountain” (Torci por O Jardineiro Fiel)

ROTEIRO ORIGINAL

“Crash – No Limite” (Nem preciso falar mais nada né?)

FILME DE ANIMAÇÃO

“Wallace & Gromit: A Batalha dos Vegetais” (A Noiva Cadáver me pareceu melhor)

FILME ESTRANGEIRO

“Tsotsi” (África do Sul) (Preferia Sophie Scholl ou Paradise Now)

DOCUMENTÁRIO

“A Marcha dos Pingüins” (Merecido)

DOCUMENTÁRIO DE CURTA-METRAGEM

“A Note of Triumph: the golden age of Normal Corwin” (Não assisti nenhum, infelizmente)

FILME DE ANIMAÇÃO – CURTA-METRAGEM

“The Moon and the Son: An Imagined Conversation”

MELHOR CURTA-METRAGEM

“Six Shooter”

TRILHA SONORA ORIGINAL

“O Segredo de Brokeback Mountain” – Gustavo Santaolalla

MELHOR CANÇÃO

“It’s Hard Out Here for a Pimp” – “Ritmo de um Sonho” (Torci por Bird York)

DIREÇÃO DE ARTE

“Memórias de uma Gueixa”

FOTOGRAFIA

“Memórias de uma Gueixa”

EDIÇÃO

“Crash – No Limite”

EFEITOS VISUAIS

“King Kong”

FIGURINO

“Memórias de uma Gueixa”

MAQUIAGEM

“As Crônicas de Nárnia: o Leão, a Feiticeira e o Guarda-roupa”

EDIÇÃO DE SOM

“King Kong”

MIXAGEM DE SOM

“King Kong”



2 de março de 2006

Só para confirmar


O filme realmente é bom. Muito válido para se conhecer um pouco mais da história. Principalmente para que as pessoas parem, pelo menos um pouco, de achar que todos os alemães foram responsáveis pelas atrocidades cometidas durante a guerra de Hitler.

A história de Sophie Scholl não é tão diferente da de milhares de pessoas que desapareceram na ditadura brasileira, e que também morreram lutando por seus ideais.

Ela não era criminosa e nada fez além de tentar mostrar às pessoas que o que estava acontecendo era errado, que a guerra mais cedo ou mais tarde acabaria e que o mundo apontaria os dedos para a Alemanha condenado-a por seus crimes. Ela não foi uma profeta, não foi visionária, ela foi apenas uma pessoa que pensou sem que seus olhos e mente estivessem envoltos, quis lutar pelo o que acreditava.

É incrível, toda vez que eu assisto a um filme que retrata o nazismo eu tenho uma leve e estranha impressão de que os alemães simpatizantes do nacional socialismo agiam segundo aquela fábula do fim do mundo. Aquela em que as pessoas fazem as maiores barbaridades porque o mundo está prestes a ir para as cucuias. Só que eis que nada acontece e todos ficam com cara de bunda depois, sem nada que justifique os absurdos que cometeram.

No caso dos nazistas, eles não contavam com o fim do mundo, óbvio, mas com a vitória na guerra. Afinal, como não ficar ao lado do Führer, aquele que prometera elevar a Alemanha e transformá-la em uma potência? Acabou que o resultado não foi o esperado e até hoje, e acredito que eternamente, a Alemanha mantém a mácula do nazismo.

E não adianta pedir desculpas, não adianta construir placas em homenagem aos que lutaram contra, como Sophie, de nada adianta e nada faz voltar o tempo.


Leia antes de usar
Desde 15 de janeiro de 2002 uma jornalista nonsense escreve desembestada no blog que chama carinhosamente de sua Casa.

Aqui têm besteiras demais, coisas inúteis demais, enfim, tudo o que nem precisava ser dito, muito menos escrito.

Obviamente, qualquer semelhança com a realidade é única e exclusivamente uma opção da autora.

Assim como o direito de escrever
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