Arquivo de 2006



26 de dezembro de 2006

Nelson Rodrigues e um certo blablablá de fim de ano


...Sempre tive fascinação por Nelson Rodrigues. Desde muito novinha admirei a capacidade do escritor de chocar as pessoas com assuntos tão banais e ainda assim polêmicos como a inveja, a traição, o sexo e a mentira.

Ainda tão incríveis quanto seus escritos foram as inúmeras frases que sua ferina boca proferiram. Ele era o cara. Por isso mesmo é que quando vi que relançaram o livro A Vida Como Ela É que tem cem contos do escritor, decidi na hora o queria ganhar de presente do marido. E ontem quando chegamos de viagem o livro estava esperando por mim. Se existe algo que me deixa feliz é livro novo prontinho para ser lido. Depois escrevo sobre o que achei dele.

***

Eu sei que por esses dias todos falam de festas de Natal e de fim de ano, mas quem conhece esta Casa sabe que eu não me insiro em certas euforias. Simplesmente não tenho saco para escrever sobre ceias, roupas para passar a virada, e coisas do gênero – acho tudo isso extremamente sem graça, cada um é cada um e eu sou assim, fazer o quê? Óbvio que isso não impede que eu deseje a todos sempre o melhor e isso não é motivado por uma data específica no calendário. Portanto leitores, ano que vem tem mais Casa da Tuka: mais contos, críticas, crônicas e o besteirol habitual desta chata rabugenta que tanto ama escrever para todos vocês.



19 de dezembro de 2006

Depois de ter você


(Republicação – 17 de agosto de 2005)

...A tempestade – E te beijarei como se fosse o último beijo temendo que realmente o seja. Você me olhará de perto e enxergará mais do que meus olhos imensos te olhando, verá meus imensos olhos cheios de lágrimas – te olhando. Esquecerei todos os momentos maus e lembrarei apenas do que acho que não posso viver sem, como te ver dormir encolhido a meu lado, sempre com frio, apesar do calor do verão lá fora. Pensarei nas viagens que fizemos juntos e terei certeza de que todos aqueles lugares sairão do mapa porque nunca mais os veremos juntos. Olharei os amigos que fizemos e vou desejar que se afastem para não me trazerem lembranças do que não tenho mais. Tomarei meu café da manhã amargo, pois saberei que sem você comigo, todos os cafés da manhã serão amargos. Chutarei uma pedra no chão e me sentirei a própria pedra. Escreverei textos tristes e que façam sentido apenas para mim, pois nada mais fará muito sentido. Assistirei aos meus programas de tevê favoritos (que eram nossos) e por segundos me pegarei sorrindo e comentando sozinha um pedaço engraçado, desejando que você estivesse ouvindo. Falarei com os gatos e eles não me responderão como antes, ficarão mais calados depois de sua ida. Atenderei ao telefone com o coração aos pulos e xingarei a plenos pulmões a garota do telemarketing – coitada – ela só não era você. Verei as horas passando e simplesmente não farão diferença todos os segundos que correm, o tempo parecerá ter parado. Temerei como sempre as tempestades com seus raios e trovões e não terei você para me acalmar. Imaginarei onde você está em algum exato momento e me angustiarei pelo pensamento de que esteja em outros braços. Ouvirei todas as músicas sem mais balançar a cabeça devagarinho e acompanhar as letras que nem sei com meus nãnãnãs. Sonharei como o último dia em que o vi e acordarei aos prantos, pois só em meus sonhos você ainda está perto.

A negação – Direi a todos que te odeio e só eu saberei que ainda o amo como nunca. Fingirei que desejo nunca mais vê-lo na vida, mas em segredo (até de mim mesma) me arrumarei todas as vezes do jeito que sei que gosta e me prepararei para um eventual encontro. Beijarei outras bocas e o gosto de todas elas não serão como o seu. Farei sexo com centenas de pessoas e entregarei a todas o meu corpo, jamais o meu espírito como fazia com você. Verei filmes novos e o amaldiçoarei, pois saberei que jamais gostaria de vê-los. Rasgarei suas fotos praguejando e reparando em todos os seus defeitos, como aquela pinta feia que eu amava… Picarei todas as suas cartas, mas antes a lerei novamente e sorrirei toda vez que encontrar um erro de português. Flertarei com todos os homens que você sentia ciúmes e me divertirei imaginando sua cara. Perguntarei a todos sobre você e morrerei quando me contarem que está namorando. Quererei ver a cara da nova escolhida e a acharei medonha, gorda e burra quando a vir. Me apaixonarei novamente e terei certeza de que nunca será como o que eu senti por você. Me apaixonarei de verdade mas ainda assim pensarei que não será a mesma coisa. Me apaixonarei como nunca e não estarei convencida de que é maior do que era com você.

A bonança – Um belo dia, quando eu menos esperar… tentarei com todas as minhas forças relembrar que raio era aquilo tudo que senti por alguém que nem sei mais direito quem tenha sido.



14 de dezembro de 2006

Insatisfeitas com seus cabelos?


Seus problemas acabaram! Chega de chapinhas, escovas progressivas, cortes estilosos e afins! Que tal aderir à nova moda de Hollywood?

Angelina JolieParis HiltonSandra BullockScarlett JohansonNicole KidmanSharon Stone

Calma meninas, é só mais uma competição de photoshop deste site aqui.



12 de dezembro de 2006

À primeira vista


!!! Se naquele dia, apesar de tudo o que aconteceu, ela soubesse o que ainda estava por vir não teria reclamado tanto nem estado à beira de um ataque de nervos.

Acordou atrasada porque a droga do despertador a deixou na mão. Levantou correndo, deu uma topada com o dedão, xingou tudo o que pode, entrou no banho e, ainda, com a cabeça cheia de shampoo para cabelos oleosos, a água ficou gelada. Saiu chorando e terminou de enxaguá-los na pia – que belo jeito de se começar o dia. No armário procurou a saia preta nova e linda que havia comprado uma semana antes. Colocou também uma blusa branca sem graça, o sapato de verniz com o qual gastara quase o salário do mês todo e a bolsa preferida – aquela do forro furado.

Engoliu um café preto horroroso acompanhado de uma bolacha murcha, pois era a única coisa na despensa dentro do prazo de validade – definitivamente precisava ir ao mercado. Ao sair de casa a saia ficou presa na porta do apartamento e rasgou ao primeiro passo em direção ao elevador. Voltou gritando de raiva e bem neste momento o vizinho abriu a porta – não respondeu ao bom dia que ele lhe disse. Colocou outra saia e só depois notou que estava manchada de chocolate. Não tinha mais tempo de procurar outra coisa. Iria assim mesmo.

O elevador, justo hoje, quebrado. O de serviço com uma mudança gigante do 509. Raios! 21 andares escada abaixo. E lá foi ela.

Na rua, greve dos metroviários – como chegaria? Maldita cidade caótica! Chegou: quatro horas atrasada e com uma pilha de pepinos para resolver. O telefone tocando a cada dois segundos e o chefe a lembrando da reunião com o representante estrangeiro. Onde estava sua agenda com todas as anotações do que tinha que ser discutido na tal reunião?? Onde? Acabara de lembrar que a deixara em cima da televisão, um lugar estratégico para que justamente não esquecesse de levá-la. Era uma retardada mesmo!

Foi ao banheiro porque sentiu algo estranho. Não podia ser! A menstruação resolveu aparecer duas semanas antes? Não tinha absorvente. Sempre tão precavida era a que emprestava às amigas em casos de emergência, desta vez não tinha um sequer.

Tinha que dar uma fugida para ir a farmácia. No caminho notou que sua meia desfiou em um lugar impossível de esconder. Desequilibrou-se ao olhar o estrago e deu um mau jeito no pé direito, aquele mesmo que não ficava uma semana ileso – quando não eram os calos, eram as torções.

Na prateleira, não encontrou o super-abas-ultra-seco, mini-blaster-plus que era o seu preferido. Tudo bem, levaria o mega-fino-dry-multi-abas mesmo. Pagou com uma nota de cinqüenta. Devolveram o troco em notas de um real: 47, 34 – tudo em notas de um real (fora as moedas dos centavos). Saiu puta da vida.

Esperando para atravessar a rua no sinal que estava fechado para pedestres, uma criança no colo da mãe desembestou a mostrar-lhe a língua. Que dia maravilhoso!

Desviou o olhar do infante terrível e se deparou com uma pessoa., e, eis que, pela primeira vez em sua vida, apaixonou-se à primeira vista. Esse negócio não era lenda então – amores à primeira vista existiam de verdade! Ela ainda não sabia, mas ali do outro lado, a pessoa que observava também se apaixonava por ela naquele mesmo instante.

Sorriram um para o outro.

Que dia perfeito!



7 de dezembro de 2006

Yes, i did?


O genro que toda sogra gostaria de ter!Eu acho tão engraçadas determinadas coisas que acontecem. Não sei vocês, mas eu realmente acho. Vejam por exemplo o mais recente fuá que está rolando nos Estados Unidos envolvendo O.J. Simpson, ex-astro de futebol americano. O cara escreveu um livro chamado If I Dit It (Se eu tivesse feito) em que conta a história detalhada de como teria praticado os assassinatos de sua ex-esposa Nicole Brown, e do “amigo” dela, Ronald Goodman “caso” fosse o responsável pelos crimes. Dizem por aí que o livro é praticamente uma confissão, mas segundo declarou o próprio O.J., ele não tem nada a confessar – portanto, minha gente, é sim só um livro de ficção – humrum, e Papai Noel existe mesmo. Não é realmente engraçado?

Para quem não se lembra da história, o “julgamento do século” – como foi chamado o caso Simpson – parou os EUA há 11 anos e além de se transformar em um circo da mídia, foi uma verdadeira guerra inter-racial: a maior parte dos americanos de raça branca achava que Simpson era culpado dos assassinatos, enquanto a maioria dos negros acreditava na sua inocência. Após um processo que demorou um ano, um júri de maioria negra o eximiu de responsabilidade criminal. No entanto, um ano e meio depois, outro júri de maioria branca condenou o ex-jogador a pagar um total de US$ 33,5 milhões pelos danos e prejuízos causados aos familiares de sua ex-mulher e do amigo desta.

Acontece que após enfrentar intensa pressão dentro e fora da empresa, grupo News Corporation cancelou o lançamento do tal livro que iria acontecer no fim de novembro. Também foi cancelada a entrevista promocional do livro à cadeia de televisão Fox que já havia sido gravada e seria transmitida nos dias 27 e 29. Setenta mil cópias do livro que já tinham sido entregues a livrarias nos EUA foram recolhidas.
Yale Galanter, advogado de OJ Simpson, sublinhou que o seu cliente mostrou-se totalmente indiferente aos cancelamentos do livro e da entrevista. Eu também teria ficado, sabem? Ainda mais com o suculento adiantamento de alguns milhões que o bonitão recebeu pelo livro – ele afinal só queria mesmo “esclarecer algumas coisas”.

***
Quanto tempo vocês acham que vai demorar para o livro aparecer por ? Quanto tempo as entrevistas que foram gravadas demorarão para cair na Internet? Confesso que estou morrendo de curiosidade.


1 de dezembro de 2006

Paraíso perigoso?


O filme Turistas que estréia hoje nos Estados Unidos (a previsão de estréia no Brasil é fevereiro) está causando uma grande polêmica por aqui por fazer o maior rebosteio com a imagem já tão desgastada do nosso país.

Para quem ainda não sabe, o filme de terror conta a história de um grupo de mochileiros norte-americanos que viaja para o Brasil. Os jovens sofrem um acidente de ônibus e se perdem em uma floresta. A princípio pensam estar em um verdadeiro paraíso, onde podem jogar futebol, dançar com mulatas e beber caipirinha. Mas após uma festa, acordam atordoados em uma praia e percebem que foram roubados. Eis que começa o pesadelo dos “pobres desavisados” que ousaram se enveredar em terras brasileiras.

O filme é dirigido por John Stockwell (Mergulho Radical), e traz no elenco Josh Duhamel (Las Vegas), Melissa George (Alias, Horror em Amityville), Olívia Wilde (The O.C.) e Desmond Askewm (Viagem Maldita).

A Embratur está enlouquecida de preocupação com a repercussão internacional que este longa-metragem pode causar, e por isso irá monitorar a reação dos expectadores no exterior e lançar uma campanha mundial positiva sobre o turismo no Brasil.

Esta não é a primeira vez (e provavelmente nem será a última) que a imagem do Brasil é avacalhada. Na série Os Simpsons, a família visita um Rio de Janeiro que tem macacos, ratos e cobras na rua e ninfomaníacos por todos os lados.

***
Eu não vou gastar dinheiro para ver no cinema a interpretação do Brasil por um babaca de um americano. Um povo que não sabe localizar seu próprio país em um mapa (vocês viram essa pesquisa?) vai saber sobre o Brasil? Eu sei que estamos longe de ser um país maravilhoso e livre de problemas, mas daí a vir aqui e transformar a todos em putas e bandidos, não né? Vá pro diabo.



28 de novembro de 2006

Somente ela


(Republicação – 17 de outubro de 2004)
Teve medo de não saber mais se portar sem tê-lo a seu lado. Mas em contrapartida pensou que foram tantas as vezes que recomeçou, que bem ou mal faria isso de novo – e da maneira certa, porque todo fim implicava um recomeço, então recomeçaria. Lembrou-se mais uma vez de um filme francês estrelado por Juliette Binoche em que ela dizia: “Cuidado com aqueles que já sofreram porque eles sabem que podem sobreviver apesar de qualquer coisa”. Foram tantos os obstáculos em seu caminho que prometeu a si mesma que se houvesse uma próxima vez não mais sucumbiria, não se entregaria.
E lembrou das manias, dos pequenos detalhes que iam desde o jeito em que ele dormia quando estava exausto, até a forma metódica em que comia: mexendo bem, pegando aos pouquinhos e comendo devagar para apreciar o sabor da comida. Chora ao pensar disso. E nunca achou que sentiria falta de coisas que nem sabia que prestara atenção no meio de tanta correria dos dias que passavam. Os dias que passavam e levavam com eles a história de duas vidas, seus medos, suas conquistas e cumplicidades – suas vitórias e derrotas superadas, suas tantas coisas que estavam tão repletas deles dois. Só dos dois.
Pensou que em meio de tanta alegria compartilhada, de tanta vida dividida, a tristeza e a mágoa prevaleceram mais do que deveriam e foram várias as vezes. E se perguntou porque as pessoas se punem dessa forma. Pensou em Chico naquela canção que agora insistia em pular em sua memória – há tanto não lembrava dela: “na fotografia estamos felizes… Meus olhos molhados, insanos, dezembros, mas quando eu me lembro são anos dourados – ainda te quero…”. Olhou mais uma vez para todos os momentos eternizados nos porta-retratos: sorrisos, beijos, abraços, olhares… Onde estavam todos aqueles momentos que ficaram esquecidos em meio a tanto choro e dizeres desnecessários? Sentia falta de quando podiam gritar, brigar e extravasar os demônios e ainda procurarem um pelos pés do outro durante a noite, e se isso acontecesse significava que o perdão vencera mais uma vez. Já naquela noite ela temia que ele permanecesse distante. Mais lágrimas desciam contornando as linhas de seu rosto.
Tinha que aprender a calar, falara demais. Tinha que aprender a chorar para dentro, lágrimas demais afogam o amor. Tinha que aprender a se perdoar, se exigia muito.
Fez as malas, mas no fundo esperava um abraço. Se a abraçasse abraçaria de volta. Olhava as coisas espalhadas a seu redor, mas tudo o que desejava era um pedido de desculpas. Se pedisse desculpas, desculparia. Apesar do silêncio, ainda ouvia palavras ditas com raiva, e tudo o que queria ouvir era para que ficasse – e ela ficaria.
Sentiu-se tão frágil e desprotegida quando uma flor caída no chão em que milhares de pés pisam todo o tempo. Sentiu-se como estivesse prestes a ser esmagada e nada pudesse fazer a não ser esperar que o vento mudasse sua direção e a levasse para um lugar seguro. E nem o vento veio a seu favor – ela mesma teria que se proteger nem que para isso precisasse arranjar forças e arrastar-se para longe. Longe do único lugar e da única pessoa no mundo que queria estar perto.
Deitou na cama e pensava sobre o que faria da vida. Sentiu um braço a laçando – abraçou em resposta. Ficou em silêncio e teve certeza de que poderia ouvir o bater de seu coração desesperado dentro de seu peito – parecia que queria falar por ela. Ouviu o pedido de desculpas. Fez o mesmo e desculpou. As palavras raivosas foram aos poucos se dissipando em sua mente, embora ainda a machucassem. “Fica”. E ela ficou.
“Me vejo a teu lado, te amo? Não lembro… Parece dezembro de um ano dourado, parece bolero. Te quero, te quero… Dizer que não quero, teus beijos nunca mais, teus beijos nunca mais.”


24 de novembro de 2006

Ubaldão do meu coração


Faz um tempo que terminei de ler o mais novo livro incluído em minha “Top List Puta Livros”: O Diário do Farol de João Ubaldo Ribeiro, lançado em 2002. Falar que o bahiano arretado é um escritor fenomenal pode ser pra lá de batido, mas que se foda: João Ubaldo Ribeiro é FENOMENAL!

O livro é o relato de um padre inescrupuloso, que, isolado em uma ilha com um farol batizado de Lúcifer, narra os mais absurdos atos cometidos por ele durante sua vida motivado primeiramente sob a desculpa de vingar-se dos maus-tratos do pai e depois da mulher que o desprezara. É absolutamente um manual da falta de caráter e dissimulação que conta em detalhes todas as artimanhas da pessoa que acredita que o bem e o mal são exatamente uma coisa só. Ou seja: a mesma pessoa que comete o bem neste mesmo ato pode estar cometendo o mal por diversas razões.

Seu maior argumento é o de que todos nós somos iguais e a partir disso o leitor se vê envolvido em uma série de manipulações, mentiras e crimes, e, assustadoramente, se percebe identificado com todas as maldades milimetricamente calculadas citadas na obra. Somos nós realmente apaixonados pela maldade do mundo como decreta a história? Somos realmente seres em quem jamais se deve confiar como diz a epígrafe do livro? Como é que secretamente carregamos a incrível capacidade de cometer as maiores aberrações em função de nós mesmos sem que sejamos verdadeiramente maus?

A narrativa do padre, acompanhada do início ao fim do mais absoluto cinismo, ofende o leitor chamando-o de burro e incapaz a todo instante e tenta com todas as forças dissuadi-lo a abandonar qualquer noção de moralidade. Ele joga por terra o que chama de “pseudoverdades insustentáveis” e despreza a todos aqueles que acredita dependerem das mesmas.

João Ubaldo colocou em palavras a essência do que somos capazes mesmo que não saibamos? Não sei. Mas senão isso, tenho certeza de que ao menos desmistificou a maldade a ponto de que possamos acreditar que no mundo em que vivemos tudo é realmente possível por mais impressionante que possa parecer.



21 de novembro de 2006

A despedida do amor não correspondido


(Das cartas de Alice)

Então suma de uma vez por todas – eu lhe peço – pois já não sou mais capaz de muitas coisas, tantas que nem sei se posso enumerá-las. Tantas, que nem sei se algum dia você saberá de todas. Tantas coisas que já nem cabem em mim: vazam de meu corpo, transbordam de meu peito, escorrem até meus pés.


Não é exagero, é verdade. Tão verdade como agora é dia e logo será noite. Tão real como o fato de que não posso tê-lo comigo agora e nem nunca poderei. E que você, tão mais do que eu, sabe que o amor de um não é suficiente no mundo em que reinam juras mútuas de sentimentos eternos. Sim, este mesmo mundo que possui um espaço quase imperceptível entre o “te amo” e o “já te esqueci”, e que, ironicamente, é o mesmo mundo no qual você insiste em não me amar. E eu não quero amar sozinha como uma pessoa que clama discursos aos quais ninguém ouve. Não mais.

Sei que não sou capaz de tê-lo apenas em uma tarde chuvosa de sábado, dentro de algum lugar lotado – ou mesmo em algum lugar apenas com nós dois, pois você não estaria ali a meu lado. Sei que não sou capaz de controlar meu desejo por você a ponto de me contentar em beijá-lo enquanto sobra um tempo qualquer entre o que precisa fazer e o que quer fazer de verdade. Sei que não sou capaz de ter paciência para esperar que decida ver-me quando não resta absolutamente mais nada. Sei que não sou capaz de fingir não notar que seus pensamentos voam longe. Sei que não sou capaz de não ferir-me ao imaginar que não é meu corpo que anseia em seus braços.

Não quero mais o que já aprendi a amar como se tivesse amado por toda a minha vida. E estou abrindo mão do frio na barriga, de minhas fantasias, de meus desejos de ter você a meu lado, da vontade que sinto de ser sua, das conversas ao pé do ouvido que sequer ouviu, da cumplicidade de um olhar que sempre quis com você, das canções que quis que conhecesse, das poesias rabiscadas ao lembrar de seu rosto.

Abdico, e me despeço, do seu corpo, do seu olhar, da sua boca, da sua voz, da espera por você, da palpitação em meu peito. Abdico e me despeço da minha história a seu lado, dos meus pêlos arrepiados ao tocar-me, do meu corpo tremendo de desejos. Abdico e me despeço do que ainda nem vivemos e nunca viveremos. Abdico e me despeço do suor de meu corpo colado ao seu, da felicidade desmedida a cada encontro – que só existiu em mim. Abdico e me despeço das lágrimas de seus olhos que eu não deixaria cair e do riso sem pudores que ingenuamente mostrei a você.

Abdico de você em função de mim – e de um amor maior que deve haver por aí em algum lugar.



17 de novembro de 2006

Da série: Coisas que me cansam a beleza


Ou: Você é um grandecíssimo filho da puta se:

Liga para aquele amigo com quem não fala há séculos, poucos segundos após abrir a boca para o tal “oi tudo bem?” vem o “será que você pode me fazer um favorzinho?”. Resposta que você provavelmente ouvirá: “Se estiver a meu alcance, claro que faço”. Resposta que você deveria ouvir: “Vá pro diabo! Não liga pra saber se estou vivo, mas lembra de mim pra favorzinho?”.

Tem um feriado chegando e bate aquela vontade de ir à praia, então você se aproxima repentinamente daquele amigo que tem casa em Ubatuba, com quem você só fala eventualmente por MSN. Assim, sem mais nem menos você começa a ligar, mandar e-mail, deixar testemunials no Orkut e coisas que façam com que você pareça uma pessoa legal. Resposta que você irá ouvir quando se convidar para a casa de veraneio do cara: “Claro que pode ir pra Ubatuba com a gente”. Resposta que você deveria ouvir: “Fulano, a casa vai estar lotada de amigos meus, não tem mais espaço”. Daí se você for inteligente, vai sacar que se a casa vai estar lotada de amigos e você não foi convidado é porque ele só te considera amigo da onça.

Uma amiga te pergunta o que você fará no fim de semana, você diz que irá a uma super balada em um lugar novo, mas nem se importa em convidá-la. Daí quando chega o dia e todas as outras pessoas com quem você combinou, dão pra trás, você liga em cima da hora e chama a coitada da amiga porque ela tem carro, e você precisa de carona (mas isso você não fala, óbvio). Resposta que você provavelmente irá ouvir: “Tá, vou me arrumar rapidinho e passo pra te pegar”. Resposta que você deveria ouvir: “Não vai dar, estou de saída com meus amigos para uma festa absurda que vai ter por causa da abertura daquele festival internacional de cinema”.

Você só sente saudades daquela pessoa no domingo e bem na hora do almoço, pois “coincidentemente” você nunca tem grana para almoçar fora e cozinhar não é seu forte. Isso significa que jamais ninguém comeu alguma coisa em sua casa. Daí faltando mais ou menos uma meia hora pra hora da comilança, você liga e pergunta se pode dar uma passadinha para dar um beijo no fulano. Resposta que você provavelmente irá ouvir: “Claro! Venha sim, será muito bem recebido!”. Resposta que você deveria ouvir: “Será que você pode passar lá pelas três da tarde? É que daqui a pouco vamos almoçar”.

***
Certas coisas não te cansam a beleza também?

Leia antes de usar
Desde 15 de janeiro de 2002 uma jornalista nonsense escreve desembestada no blog que chama carinhosamente de sua Casa.

Aqui têm besteiras demais, coisas inúteis demais, enfim, tudo o que nem precisava ser dito, muito menos escrito.

Obviamente, qualquer semelhança com a realidade é única e exclusivamente uma opção da autora.

Assim como o direito de escrever
o que bem entender, claro!


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Uma campanha Casa da Tuka contra o plágio
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