Arquivo de novembro de 2005



18 de novembro de 2005

Monossilabando


Eu sou uma pessoa que “monossilabisa” certas nomes (ou monossilabiza? Também sou neologista já que nenhuma das duas palavras existe). Mas deixo bem claro que não sou monossilábica, apenas “monossilabática”. “Loqueou Tuka? Do que você está falando, mulé?”. Eu explico, caros. Alguns que me conhecem extra-casa, sabem que tenho a incorrigível mania de encurtar nomes. É verdade. Transformo todos em nominhos de uma única e singela sílaba – ok, talvez duas.
Óbvio, tal “meiguice” fica reservada a pessoas que gosto. Mas os donos dos nomes em questão não são simplesmente Patis, Tatis, Lus e Gus. É uma lista muito mais extensa contendo coisas como Puti (esse é de coração!), Raks, Kacs, Nani, Ni, Rafa, Rib, Sheb, Jubs, Juli, Cá, Mã, Bi, Cami, Cu (esse só para os que amo!), Rô, Lê, Bru, Bé, Caci – e por aí vai…
Mas quanto a mim que sou Tuka… Poucos têm coragem de simplesmente chamar-me de Tu. Talvez por que Tuka já seja um apelido curto, talvez por que eu meta medo nas pessoas, talvez por que achem que é íntimo demais (e é) ou talvez por que achem que seja ridículo – e na boca de certas pessoas realmente o é.
Vejam só o que aconteceu dia desses. Entrei em uma loja de grife chatinha, cheia de atendentes tão ou mais chatinhas quanto. Uma fulana veio toda solícita falar comigo e pergunta meu nome. Não sei por que raios essa gente pergunta nosso nome. Será que pensam que nos sentiremos familiarizados, próximos, amigos de infância e gastaremos todo o salário do mês por lá? Sei lá, mas voltando… A mocinha perguntou meu nome e como eu estava de bom humor respondi o verdadeiro – Tuka, claro. Geralmente digo que me chamo ou Jenifer, ou Brenda, ou Nicole ou Bárbara Carolina – pois Bárbara Carolina é um nome muito do legal mesmo. Mas continuando: provo uma blusinha aqui, provo outra ali e lá pelas tantas ela vira e me fala “Ô Tu, você quer provar aquela sainha também?”. Confesso que achei engraçado e não disfarcei, caí na gargalhada mesmo. A tadinha, não entendendo nada, pergunta o que foi. Eu, já voltando ao meu estado normal, respondo: “Nada não, só achei engraçado você me chamar de Tu”. E ela: “Por que, você não gosta?” – Eu: “Hum-rum”. Ela: “Tu fica bonitinho, né? Lembra Tuiuiú, Tucano, Tudo de bom!”. Eu: Hahahahhahahahahahhahahahahahhaha!
Saí da loja rindo, não comprei nada e continuei minha caminhada. Mais adiante parei em uma outra lojeca e ao perguntarem meu nome fui rápida como um raio: “BÁRBARA CAROLINA”!


15 de novembro de 2005

A cidade


Meia-noite – meio-dia. Todos os barulhos da cidade que não pára. Não pára nunca para nada.

Duas horas da manhã – 14 horas. Ambulâncias, viaturas, carros de bombeiro. Daqui de cima aprendi a diferenciar as onomatopéias que gritam enquanto minha vida passa. Da mesma forma que diferencio a voz de minha cantora favorita: Essa é Aimee, essa não”. “Essa é outra, essa é ela”.

Cinco da manhã – 17 horas. Pessoas sempre falam por mais tarde da noite que seja. Riem, choram, chamam. Pode ser a bebida tomando voz? Pode ser a coragem tomada pela cumplicidade de sua própria sombra?

Daqui de cima eu apenas ouço os barulhos da cidade que nunca pára. Pára para nada. Pra nada. Nada. Nunca. E onde será que você está agora?

Talvez em um desses carros que buzinam esperando que o sinal vermelho fique verde automaticamente. Talvez seja sua uma dessas tantas vozes que daqui de cima consigo ouvir. Talvez esteja entre todos os barulhos e luzes que enxergo de longe. Sim, talvez em um desses apartamentos que também insones mantém suas luzes acesas. Assistem a um filme chato. Falam com algum desconhecido pela Internet. Olham fotos antigas. Onde você está agora, afinal?

A cidade que nunca pára seus barulhos. Nunca pára suas vozes. Nunca pára de rir nem de chorar. Meia-noite, meio dia, 15 horas, 3 da manhã, 19 horas, sete da noite… Onde é que você está que não aqui também na cidade que não pára nunca?



11 de novembro de 2005

Bagunça, confusão e eu


Ingredientes:

Um apartamentinho, duas latas de tinta e apetrechos para pintar a parede, móveis velhos desmontados, caixas espalhadas pelo chão, troca de piso com duas toneladas de serragem em todos os cantos e em todos os meus poros, dois gatos assustados loqueando pelo recinto, móveis novos chegando e uma mulher à beira de um ataque de nervos.

Modo de preparo:

Vista uma roupa velha, ligue o som e espere os homens do piso irem embora. Limpe o chão milhares de vezes e perceba depois de tudo que ainda tem pó em todos os cantos. Pinte as paredes e note que assim que estiver tudo lindo terá um pedaço que precisa de uma demão de massa corrida. Grite com os gatos loqueados que estarão correndo espalhando marcas de tinta com as patinhas pelo chão novo. Implore para o zelador do prédio subir e pegar uns móveis que você quer despachar. Ligue para a loja que comprou os novos móveis e dê chilique porque estão atrasados com a entrega e você está dormindo no chão há uma semana. Fique com o pulso deslocado e use aquela faixa horrorosa de farmácia. Desloque a coluna de tanto carregar peso. Delete sua vida sexual por uma semana por não se agüentar de cansaço e de tanta dor no corpo. Não durma direito por dias e fique olhando o teto para ver se num piscar de olhos a casa fica linda sem que você mexa mais nenhum músculo.

Espere duas semanas ao todo…

E depois terá um apartamento lindo.

PS: Agora tudo está voltando ao normal.


Leia antes de usar
Desde 15 de janeiro de 2002 uma jornalista nonsense escreve desembestada no blog que chama carinhosamente de sua Casa.

Aqui têm besteiras demais, coisas inúteis demais, enfim, tudo o que nem precisava ser dito, muito menos escrito.

Obviamente, qualquer semelhança com a realidade é única e exclusivamente uma opção da autora.

Assim como o direito de escrever
o que bem entender, claro!


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