Arquivo de outubro de 2005



27 de outubro de 2005

Léo e Bia


E todas as frases que nos dissemos neste domingo. Ficaram em minha mente badalando como se fossem um sino logo que aquela porta de elevador se fechou. Ouvi seu choro abafado… Entrei, fechei a porta e sentei no chão – chorei mais…

Tudo o que eu queria era que você voltasse dizendo que ficaria… Lembrei-me de repente que se eu corresse ainda poderia vê-lo da janela do apartamento. Poderia vê-lo pelo menos por mais um segundo. O vi, gritei seu nome, mas minha voz saiu fraca, baixa, tremida – mas ainda suficiente para que me ouvisse. Fiquei feliz com um último olhar – não queria que fosse o último…

Eu queria tanto que você ficasse…

***
tears

***
O elevador se fechou e apesar dos andares que desciam depressa, ainda a escutei chorar. Não agüentei e caí em prantos também. Eu que deveria ser o homem forte, o que não chora, o que ampara… Me senti como um garotinho perdido. O que farei de meus dias sem você comigo?

De repente eis que escuto uma voz baixinha gritando meu nome. Não uma voz qualquer, mas a sua voz é que gritava por mim. Olhei pra cima e vi seu rosto, o mesmo que eu já estava carregando comigo em pensamento pra tão longe. Seu olhar doído lá de cima – queria tanto aquele sorriso que tanto me encanta.

E queria tanto que você fosse comigo.

***
PS: I´m pushing an elephant up the stairs

I´m tossing up punchlines that were never there
Over my shoulder a piano
falls
Crashing to the ground

And all this talk of time
Talk is
fine
And I don´t want to stay around
Why can´t we pantomime, just close
our eyes
And sleep sweet dreams
Being here with wings on our feet

(The Great Beyond – REM)



26 de outubro de 2005

Nossos arquivos em desuso


Estávamos eu e uma amiga querida conversando dia desses sobre os “arquivos em desuso” de nossas memórias. É dentro desta “pasta” que ficam as coisas e pessoas que deixamos pra lá, pois já que não mais nos fazem nada de bom que fiquem mesmo em um cantinho em que não entramos nem para tirar o pó. Acontece que nem tudo que está ali esquecido foi necessariamente porque condenamos ao esquecimento. Ali tem o gosto do beijo de um ex namorado que jamais nos esforçamos para esquecer, entrou para o arquivo apenas porque deixou de ser importante faz muito tempo. Tem também a dor de não ter visto o nome na lista dos aprovados em um vestibular qualquer. E a choradeira por causa de muitas besteiras, mas que só agora sabemos que foram realmente besteiras.

São coisas que vivemos, sabemos que vivemos, mas que não mexem mais conosco. Não significam mais a mesma coisa. Claro, o passado ninguém apaga, mas determinadas coisas, sentimentos, emoções e pessoas simplesmente passam por nós e nada mais. Muitas delas nem nos ensinam nada, simplesmente surgem, acontecem e se vão. Tanto é assim, que existem outras que sequer conhecemos há tanto tempo e que são infinitamente mais importantes do que várias que conviveram conosco por tanto tempo.

Em compensação existe aquilo que nos acontece, que além de ficar pra sempre no lugar mais nobre da memória, será eternamente parâmetro para tudo e todos que ainda estão por vir.

Estranha essa vida, não? Lembranças eternas de simples fragmentos de tudo o que passamos a cada dia.



24 de outubro de 2005

A frase imperdoável de Vinícius de Moraes


Qualé, Vinícius! Acho que a única polêmica que Vinícius causou durante toda sua vida, foi criar a inesquecível frase da poesia “Receita de Mulher”: “As muito feias que me perdoem, mas beleza é fundamental”. De resto, ele e o público (mesmo que composto por zilhões de feias) seguiram em perfeita harmônia lendo seus sonetos de separação, paixão, aproximação, desencanto (etc…) e cantando suas bossas eternas em parceria com Tom que falam de barquinhos, vento, mar, mulheres (claro) e blábláblá. Como a bossa é tediosa, meu Deus! Nem uma musiquinha de protesto, nem nada! Não é à toa que o “senhor ouvido absoluto” João Gilberto é tão chato.

Tá, mas voltando a polêmica frase de Vinícius. Porque raios um velho boêmio, beberrão, feio e poeta (diziam as mães das casadoiras meninas: “poesia não dá dinheiro minha filha, procure um bom partido de verdade”) se achava no direito de exigir beleza? Claro que de nada adiantou os versos que prosseguiam e tentaram amenizar a frase de impacto do poema: “é preciso que haja qualquer coisa de dança, qualquer coisa de haute couture (…)”.

Ah Vinícius! Qual é?

Por que o mundo desde que é mundo é tão exigente com os seres do sexo feminino? No início do século passado, as mocinhas ganharam o carimbo de sexo frágil porque usavam apertadíssimos espartilhos e somente conseguiam vesti-los com a ajuda de outras duas pessoas que as espremiam até que as cinturas das mesmas parecessem um pilão. Deste jeito, o ar faltava, óbvio, e as pobres viviam a desmaiar pelos cantos. Daí vem a lenda do sexo frágil. Blé – que sexo frágil! Eu não usaria uma daquelas coisas nem sob a mira de um canhão (é, acho que canhão é uma arma letal apropriada para a época), já que me rebelo até mesmo com os sutiãs.

Mulher faz botox, peeling, bronzeamento artificial, depilação com cera quente, tira cutícula toda semana, usa cremes para o dia e para a noite, coloca litros de silicone nos seios, faz lipoaspiração, cirurgia na papada, nos olhos para não usar óculos, tira a sobrancelha, faz maquiagens que irritam a pele, gastam fortunas em roupas e sapatos todos os meses… E pra quê? Porque a maioria dos homens, assim como Vinicius, quer a seu lado uma mulher maravilhosa que nem precisa abrir a boca desde que seja realmente apresentável.

Homem pode tudo. Pode ser feio, careca, velho, barrigudo, cuspir no chão, tocar violão em boteco até tarde, mas a mulher que estiver com ele tem que ser apresentável. Claro, homem não é do tipo de “raça” que se garante. Precisa de troféus para carregar como prova de sua competência (mesmo que fajuta). Como se dissessem: “Tá vendo? Sou feio mas tenho uma gostosa comigo”. Logo taxam a coitada: “Ih, esse cara deve ter grana para ter uma mulher dessas”. Ou pior: “É, ele é um Zé ninguém, deve meter bem”. Mundinho machista não? Pois é.

Beleza é fundamental? Será que é mesmo? Veja por você. Você se acha bonita, atraente, interessante? O que você busca em outra pessoa? Beleza, atração, algo interessante? Se o que você quiser de outra pessoa se resumir à beleza, espero que vocês dois sejam realmente belos. Nada mais justo do que se exigir beleza quando se tem de sobra.

Mas se o que você busca em outra pessoa é algo além da aparência, ponto pra você. Seja belo, seja feio, seja mediano (sim, existem as pessoas medianas, e não me critiquem por isso, é verdade), se o que você busca são braços gostosos em que possa se aconchegar durante a noite, olhar sincero que tente compreender todas as suas incompreensões (que não são poucas em nós humanos) e alguém a quem você possa falar: “E aí, tá a fim de um pastel e um caldo de cana na esquina?”. Se você achar essa pessoa e a mesma conseguir também ver em você algo além de seus lindos lábios, além de suas pernas torneadas, ou até mesmo além de sua roupa (esquisita muitas vezes) – é ela a pessoa certa.

Ignore Vinícius, ele de nada sabia além de seus sonetos e de belas palavras. Ouso contestar o poeta e parodiá-lo: “Me perdoem os velhos bêbados e boêmios, mas existem coisas fundamentais além da beleza. Integridade e capacidade de formular frases com mais consistência, são algumas delas”.

Tudo bem, admito Vinícius, usei você como bode expiatório para um texto feminista. Não, melhor, te usei para um texto que fale de mulheres além de lipos, silicones e de ginásticas para afinar a cintura. Você era “o cara” – mas pisou na bola com esta frase. Se te perdôo? Claro. Te achei burro apenas da primeira vez que li este poema, e eu devia ter uns 5 aninhos. Depois fiz de tudo para que esta impressão sumisse. Obriguei minha mãe (exímia professora de português) a me trazer alguns dos seus livros para que eu pudesse enfim constatar que você valia à pena. E mesmo sendo velho, feio e barrigudo, você escrevia como ninguém e se recuperou da asneira que escreveu em 1959. E sim, você valia a pena e era muito além da beleza inexistente. Ah, o que seriam de vocês homens se nós mulheres não fôssemos maravilhosas assim.



18 de outubro de 2005

Nico


Nico De todos que tive companhia durante minha vida, ontem te perdi: um dos meus melhores companheiros. De todos que tive o prazer de estar perto durante vários momentos, ontem você se foi: um dos meus principais amigos.

Foi embora.

Na minha tristeza foi cúmplice. Da minha alegria compartilhou. E cada segundo me acompanhou com o mais sincero olhar que já vi na vida. Tantos anos a meu lado e agora terei que me acostumar a viver sem você. Dói.

Obrigada amigo. Obrigada Nico. Obrigada meu Nicolau por durante esses 11 anos (tão pouco) ter me feito tão feliz, ter me amado incondicionalmente e ter pedido em retribuição apenas que eu deixasse você deitar sua cabeça em meus pés ou pernas e que eu acarinhasse sua orelhinha.

***

Estou realmente muito triste. Quem não ama os bichos jamais entenderá a dor que estou sentindo. Mas quem ama, sabe que isso independe de qualquer coisa e ter perdido o meu cão é algo que está me consumindo. Vai passar, vai doer menos, vou parar de chorar. Mas agora não.

O texto abaixo foi lido pela atriz Bruna Lombardi em um programa de tevê há muito tempo. Emocionada ao ler, chorou, e eu jamais esqueci. Infelizmente não sei o nome do autor do texto.

A velhice de um cão

Seu cachorrinho já lhe terá proporcionado muitas alegrias.
Cuide para que ele tenha um final de vida feliz.
Sempre que for possível deixe que ele permaneça ao seu lado,
pois este será, realmente, um dos poucos prazeres que lhe restarão na velhice.
A grande despedida está próxima,
e ele por instinto sabe disto.
É natural que deseje a companhia daquele que aprendeu a amar
e respeitar durante sua vida.
Não o abandone agora.
Ele já não será aquele animal bonito de antes.
Seu pêlo começa a cair,
seu caminhar perdeu a elegância e sua cabeça penderá, cansada, sobre suas patas.
Somente seu olhar acompanhará os passos do seu dono.
Lembre-se que,
dentro do peito, ele ainda possui aquele coração
que vibrará com o som da sua voz, do seu mestre.
E, chegando ao fim, não se envergonhe, chore.
Você acaba de perder o mais dedicados dos amigos…
o Cão



17 de outubro de 2005

Tic Tac, Tic Tac, Tic Tac…


Amanhã sempre vira hoje. Mês que vem já chegou. Próximo ano já é esse. Daqui dez anos já é agora.

Tudo nessa vida acontece com uma velocidade absurda. O tempo passa sem nos darmos conta e quando menos se espera lá se foram anos de nossas vidas torcendo para o fim de semana chegar, clamando pelo feriado de Carnaval ou esperando novembro.

Sempre estamos ansiando pelo dia que nunca é o de hoje, deixando passar despercebido tanta coisa que poderia ser mais do que minutos correndo no relógio. O mesmo relógio que quase fica estático e não chega nunca às 18 horas do dia chato de trabalho. O mesmo também que corre descaradamente quando enfim é sexta-feira à noite e só pára novamente na segunda de manhã.

Ora idealizando o que não temos ainda, ora idealizando o que já tivemos e ficou lá atrás. Trabalhando, correndo, acordando cedo, dormindo tarde, pagando contas, cumprindo prazos, atingindo metas, otimizando o tempo, resolvendo problemas…

Nada pára até o momento que arranjemos tempo para fazer algo que realmente gostamos. Não é à toa que dizem que a vida é exatamente o que acontece enquanto estamos preocupados fazendo planos. Vou além. Digo que a vida é justamente o que acontece enquanto estamos pensando que assim que terminarmos todas as tarefas chatas que temos, daí sim é que iremos viver.

A vida abrange um pacote fechado, sem direito a reembolso do que não for utilizado. Se não viver agora, meu bem, não terá atestado, tampouco circunstância que sirva de desculpa para tudo o que você deixou passar.

PS: Aviso aos leitores fiéis e ainda preocupados – Correndo, um pouco sumida, mas o bom filho à casa sempre torna.



11 de outubro de 2005

Fernando, a pessoa


Se sou alegre ou sou triste?…
Francamente, não o sei.
A tristeza em que consiste?
Da alegria o que farei?
Não sou alegre nem triste.
Verdade, não sou o que sou.
Sou qualquer alma que existe
E sente o que fadou.
Afinal, alegre ou triste?
Pensar nunca tem bom fim…
Minha tristeza consiste
Em não saber bem de mim…
Mas a alegria é assim…

(Fernando Pessoa)

Escritos surrupiados do Orkut de uma fofa que faz aniversário hoje – parabéns professorinha querida!

Respondendo aos leitores: correria aqui deste lado, mas tudo muito bem com a dona desta Casa.



4 de outubro de 2005

Eu tenho apenas de ser o que eu era quando queria ser o que sou agora


Já foi muito mais bonita do que é hoje. Também já foi mais magra do que está agora. Os cabelos já foram mais compridos e tinham cachos brilhantes. A miopia era menor. Sabia andar de patins quase tão bem quando anda descalça. Conseguia ler três livros por semana. Já esteve em dia com todos os lançamentos do cinema. Sabia o nome de todas as músicas legais que tocavam na rádio. Tinha pelo menos uma centena de amigos a mais do que tem hoje.

E queria ser o que é agora…

O que você é agora anula o que você já foi um dia? O fato de que alguém te conheça exatamente assim: com os cabelos pintados de loiro, com uns quilos a mais ou a menos, falando três línguas novas que aprendeu de uns anos pra cá – isso faz com que a morena, magrinha que só falava português (e olhe lá), não exista mais?

Já foi mais jovem. Os olhares todos já foram voltados para onde estava. Não tinha sardas de sol espalhadas pelo rosto. Conhecia apenas a cidade onde nasceu. Não entendia os filmes estrangeiros sem legenda. Seu senso crítico era discernente apenas para “gosto ou não gosto”. Seu conceito de beleza era definido em tudo o que não era.

Só queria ser o que é agora.

Por qual razão o presente nos tira o poder de percebermos que o que somos é quase sempre bom, que o que temos é quase sempre suficiente e que o que queremos nem sabemos o que é? Por que será que aos 12 achamos que quando tivermos 18 tudo vai ser melhor? Que quando temos vinte temos certeza de que aos trinta teremos o carro dos sonhos, a família perfeita e o apartamento quitado? Porque será que pensamos que aos quarenta seremos sábios e nunca mais teremos dívidas nem dúvidas em relação a nada? Por que achamos que aos cinqüenta estaremos curtindo a aposentadoria com a maior tranqüilidade do mundo?

Por que sempre queremos ser o que não somos agora? Por que sempre queremos ter algo que nunca está ao alcance de nossas mãos neste momento?

Por que será que por mais que eu me esforce sempre me vêm as frases mágicas do vídeo “Wear Sunscreen” à mente me fazendo ter certeza de que todos somos grandes idiotas passando por este mundo?

“Desfrute do poder e da beleza da sua juventude. Oh, esqueça… Você só vai compreender o poder e a beleza quando ela já tiver desaparecido. Mas acredite em mim. Dentro de vinte anos você olhará suas fotos e compreenderá de um jeito que você não pode compreender agora quantas possibilidades se abriram para você e o quão fabuloso você era”.

“Não tenha sentimento de culpa por não saber o que você quer fazer da sua vida. As pessoas mais interessantes que eu conheço não tinham, aos 22 anos, nenhuma idéia do que fariam na vida. Algumas das pessoas interessantes de 40 anos que eu conheço ainda não têm”.


Leia antes de usar
Desde 15 de janeiro de 2002 uma jornalista nonsense escreve desembestada no blog que chama carinhosamente de sua Casa.

Aqui têm besteiras demais, coisas inúteis demais, enfim, tudo o que nem precisava ser dito, muito menos escrito.

Obviamente, qualquer semelhança com a realidade é única e exclusivamente uma opção da autora.

Assim como o direito de escrever
o que bem entender, claro!


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