Arquivo de agosto de 2005



30 de agosto de 2005

Who are you? Who? Who? Who? Who?


Qual é seu conceito de felicidade? Qual é seu sonho de consumo? Como seria o relacionamento dos seus sonhos? O que precisa para que você se sinta realizado profissionalmente?

Alguém há de falar que felicidade é poder gastar sem olhar o preço de nada, acordar às 10h todos os dias, viajar pra praia todo fim de semana… Ou ainda: ter o corpo da Jennifer Aniston, a boca e o namorado da Angelina Jolie e a grana das duas juntas.

Sobre o sonho de consumo podem responder que desejariam um carro importado de 150 mil reais, uma casa de três andares na cidade, um chalé em Gramado e uma beach house em Hamptons.

Quanto ao relacionamento perfeito alguém diria que é estar com um homem ou mulher de beleza invejável, fazer amor de manhã, no almoço e à noite, jamais brigar, não precisar dar satisfações, ouvir eu te amo a cada cinco minutos, receber presentinhos surpresa sem nenhuma data especial.

Já sobre realização profissional, um gritaria que seu sonho é ganhar O Aprendiz e gerenciar uma empresa de Justus, fazer doutorado em Harvard ou Yale, escrever um livro contando o segredo de seu sucesso ou ter uma edição do The E True Hollywood History.

***
Há quem queira pouco ou quase nada…

Há os que seguem com a maré e passam seus dias sem grandes perspectivas.

Há quem saiba exatamente o que quer e também o que precisa fazer para conseguir.

Há os que não sabem muito bem que caminho seguir, mas vão em frente, vão tentando.

Há os que são felizes sem muito esforço e não perdem tempo filosofando demais sobre quereres.

Há os infelizes compulsivos, que a vida sempre é uma merda, que nada está bom, que se tem sol está triste, se chove quase morre de tristeza.

E você? Que tipo de pessoa é? Que tipo de pessoa escolheu ser?



29 de agosto de 2005

O ir eterno


Ela iria, queria ir, mas tinha medo. Ninguém disse que seria tão difícil ir embora. Ninguém a tinha avisado que doeria tanto deixar parte de sua existência ali atrás. Porque será que é tão difícil virar as páginas de nossas vidas? Ir é sempre tão cheio de medos, de dúvidas… Porque será que vivemos constantemente atrelados ao que conhecemos?

Parecia que junto com suas coisas tivesse que colocar muito mais naquelas caixas: todos os sentimentos acumulados em anos ali naquela casa, ao lado das pessoas que mais amava na vida.

Seus pais, seus irmãos, os cachorros, aquele quintal, a bagunça de sempre, o barulho familiar, a vizinhança, até o carteiro que era o mesmo há anos – com algum esforço lembra-se do tempo em que ainda não tinha cabelos brancos.

Era tanta coisa que sequer imaginava do que podia sentir mais falta. Como de seu quarto, o mesmo em que passou anos e anos. Ali de noite e com as luzes apagadas, era possível enxergar uma sombra esquisita que fica perto do guarda-roupa. Teve medo dessa sombra por muito tempo, agora a amava e sabia que ela fazia parte de sua história.

A gritaria que achava ser insuportável. O cheiro de café que nem gostava muito. A voz melodiosa de sua mãe que sempre a chamava gritando para tomar café da manhã. O cuidado excessivo do pai ciumento. O grude da irmã quando ela queria estar sozinha. O latido estridente do cachorro mimado. O barulho da chuva batendo naquele quintal. A briga pela televisão da sala. Um universo inteiro de coisas que só existiam ali e apenas pra ela. Uma imensidão de tudo que jamais existiria em outro lugar do mundo.

Mesmo assim ela iria. Sabia que estava na hora de ir e iria. Deixaria o quarto, a casa, o bairro, a cidade. A cidade! Estava assim também pela cidade. Um aperto no peito se instalara e não dava sinais de que partiria tão cedo.

Começou a olhar aquelas ruas de modo diferente, e se odiava por isso. Quantas vezes se viu perdida em meio à mesmice de seus dias por aqueles caminhos? Quantas vezes quis estar longe e conhecer outros lugares? Milhares. Mas não agora.

Agora queria decorar o número de árvores na rua em que passava e desejava que tudo permanecesse exatamente do modo em que enxerga nesse momento. Até mesmo aquele tom de cinza no céu, do qual reclamara tantas vezes, pensando bem até que era bonito. Um dia, quando voltasse queria tudo igual.

Seus amigos? Não existirão outros melhores em outro lugar. A saudade, a falta, o vazio – isso duraria pra sempre? Ela não sabia. Sentiriam sua falta? Se esqueceriam dela? Ela não sabia. Conheceria novas pessoas, outras preencheriam o espaço dos que ficariam longe? Ela não sabia…

Apenas o que sabia é que iria. Queria ir, então iria. Em busca de seus sonhos, planos, perspectivas – em busca de sua vida. O que ficaria ali de certa forma também seguiria com ela, pois a pertenciam.

O que estará para acontecer, o que ela ainda nem sabe, o novo que a aguarda, aquilo que não poderá mais viver sem, tudo o que não faz nem idéia, o fundamental para seus dias que ainda não chegaram, o insubstituível para o que nunca sentiu antes. Tudo o que vai querer mais do que qualquer outra coisa – e que ainda não sabe o que é…

Porque a vida é assim mesmo: ir, vir e recomeçar é só parte do caminho…

***

Este post é pra você Gi, que está indo querendo ficar, mas indo assim mesmo. Pra você que fez a escolha que considera a melhor, portanto a melhor. Pra você que não nega o medo, mas o enfrenta de peito aberto. Pra você que se entristece pelo o que fica, mas que sabe que ainda tem muito a conquistar.

Pra você amiga querida que vai deixar saudade em cada um que teve o privilégio de fazer parte de sua vida. Pra você que é inesquecível em cada um que te ama e que por mais longe que vá não se distanciará jamais em alma nem em coração.



26 de agosto de 2005

Qual o caminho certo a seguir?


Nessa vida como podemos ter certeza de que caminho seguir? Que garantias temos de que escolhendo A a B seremos felizes? Como saber se o que parece o certo é realmente o certo?

Todos já foram testemunhas ou protagonistas de muitas besteiras cometidas em tentativas desesperadas de acertar. Voltar para um casamento infeliz por ser cômodo. Ficar com alguém que não ama por já conhecer suas qualidades e defeitos. Persistir em querer ficar com quem dá claros sinais de que não corresponde a seus sentimentos. Tudo por achar que é destino? Por ser cômodo? Por preguiça de arriscar?

Dia desses ouvi a história de um amigo que estava realmente apaixonado por uma moça que conheceu na faculdade. Me contou o quão maravilhosa era a menina, o como ela estava cada vez mais se tornando importante em sua vida, a forma simples em que ela solucionava todo e qualquer problema, como ela era centrada, comedida em suas decisões. Passou seis meses e ele decidiu que iria terminar com ela. Por quê? Foi o que perguntei sem entender nada. Porque resolvera voltar para a ex. Por quê? Perguntei novamente. Porque já conhecia bem a ex e sabia em que território estava pisando. E também porque tinha medo de se decepcionar mais adiante com a nova. Mas você não ama a ex! Falei quase batendo nele. E ele disse que o desconhecido assusta, portanto não arriscaria.

Embora tenha ficado extremamente chateada com a decisão torta que meu amigo tomou, não posso condená-lo, afinal cada um sabe onde aperta seu calo. No entanto admito que o chamei de burro, mas que reconheci a situação em que se encontra. Também já tive um medo gigantesco de me livrar de um namoro morno para me entregar de corpo e alma a alguém que me tirou dos eixos. Resultado: nunca vou saber se teria dado certo, pois o namoro morno não deu mesmo – essa foi a conseqüência da minha escolha.

Escolhas… Costumo dizer que toda e qualquer escolha tem uma conseqüência na vida, desde as mais bobas às mais complexas. O simples fato de escolhermos atravessar em uma calçada e não em outra pode significar pisar em um buraco e torcer o pé… A escolha para ir a um determinado lugar pode significar voltar pra casa sem o carro, mas pode ser que você volte com o carro e com o homem dos seus sonhos. Escolher ir comer no Habib’s justo hoje pode ter como conseqüência conhecer sua melhor amiga na fila do caixa.

O acaso unido ao livre arbítrio conspiram por nós o tempo todo. Não somos objetos de destino e sim de tudo o que nós mesmos fazemos de nossas vidas. Escolher o certo ao duvidoso não é garantia de felicidade nem aqui e nem na China, pois não há garantia do que seja realmente certo. Mas a escolha é e sempre será só sua.



24 de agosto de 2005

Que tipo de leitor você é?


Abaixo segue um simbólico aperitivo de alguns e-mails que recebi nesses anos de casa. Têm mensagens antigas e recentes misturadas e foram publicados da mesma maneira que recebi, se possuem erros são originais de fábrica, não foram editados. Tem mais, mas não publicarei todos agora. A partir desse post mais uma vez peço a participação de vocês lá na COMUNIDADE DA CASA NO ORKUT: http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=2096106 no tópico “que tipo de leitor você é”. E mais uma coisa: problemas técnicos aqui na Casa, as imagens estão pifadas, logo volta tudo ao normal.

“Bom faz mais ou menos um mês que descobri o blog, mas já fucei em tudo quanto é arquivo antigo. Sou curioso pra caramba e, se não entendo alguma coisa, vou correndo atrás. E não entendi várias. Quer dizer entender do ponto de vista técnico, eu entendi, mas do racional (droga, tenho para de ser racional!) não. Ahhh, droga de novo, vou invadir sua privacidade! Se não quiser resposder não responda, mas tb. não se irrite, ok? Por exemplo, começando por coisas mais diretas:você tem mais de 20 e menos de 30. Mas quanto? Fala, fala. Você é jornalista. Você trabalha na área? Agora a mais chata: você é casada de verdade? Judicialmente? E como aconteceu tudo? Me vem na cabeça: ela parece gostar tanto dele. E acho que, por tudo que já passei (não sou experiente não, viu?), começo a duvidar de algumas coisas. Não que eu duvide no seu caso, mas sou cético quanto às minhas experiências. E pelo o que eu sei, ele namorava alguém, terminou e depois de “uma semana” estava contigo. De repente parece que acontece como num conto de fadas. Tudo perfeito. Aí me pergunto: será que eu é que sou diferente? Ou a perfeição existe? Ou o marketing existe?”.

“Oi Tuka, tudo bem? Leio sua casa desde 2002. Acompanhei muitas das suas aventuras e torço por você e por seus projetos. Acho que você tem logo que publicar o livro. Tem muita gente que não lê blog e que adoraria ter acesso a textos seus. Boa sorte!”

“Tuka eu fui ver os coments no as a normais e vi seu email. Não resisti. Tinha que mandar um email pra você pra dizer que vc tem mesmo muito talento moça. Um dia ganho sua confiança e a gente acaba conversando também por msn. Qualquer coisa… Abraços”.

“Tuka, só estou escrevendo este e-mail para agradecer por você ter escrito textos que me ajudaram muito. Passei por uma séria desilusão e achei que realmente nunca mais fosse sair do fundo do poço. Não sei como, um dia vim parar aqui e dei de cara com um texto espetacular que parecia ter sido escrito pra mim. Daí não consegui parar mais de te ler. E quer saber? Superei a dor, a crise e aprendi. Você me ajudou muito. Obrigada mesmo”.

“Eu sou uma pessoa muito crítica. Adoro ler blogs para achar os defeitos, adoro me divertir com as filosofias estapafúrdias que tantos defendem, adoro imaginar que seria legal ter o poder de deletar muitas porcarias que encontro por aí. Cheguei aqui com olhos de quem quer apenas dar de ombros e nunca mais voltar. Lia um texto, outro, mais um e pensava: “caramba, essa menina tem que me dar uma lacuna sequer para que eu possa acabar com a raça dela em um comentário”. Faz dois anos. Não achei nada e nunca comentei, por isso você não me conhece, no entanto resolvi te escrever e finalmente dar o braço a torcer: Caralho! Você escreve bem! Mas não pense que não continuarei a espera de um deslize”.

“Te acho esquisita, egocêntrica e te adoro. Ou melhor, adoro tudo o que você escreve. Morro de inveja dessa sua capacidade de colocar coisas em palavras de uma maneira que faz parecer tudo tão simples. Às vezes te odeio por isso também rs. Parabéns ta”.

“Não fique brava, mas vc me dá medo!!! Rsrsrsr não sei como mas vc escreve coisas que me reconheço quando leio. Isso é bom e ao mesmo tempo ruim pois vejo todas as minhas alegrias e frustrações estampadas no seu blog. Não leve a mal? Gosto muito dos seus textos. Publica logo esse livro aí!!!!!!”.

“É estranho escrever para alguém que não se conhece. Quer dizer, eu te conheço até que razoavelmente bem. Você que não. Os blogs produzem isso. Enquanto leio, estou conhecendo vários dos seus jeitos, reações, emoções, sua imagem pelas fotos, etc. E você não tem a mínima idéia de quem sou. Mas receber opiniões e desabafos alheios, mesmo que indiretamente, faz bem à alma – ainda mais os seus que passam muita sinceridade. Parabéns por isso tudo”.

Tuka! O texto “amor perfeito nada” é uma das coisas mais lindas que eu já li sobre o amor… Parabéns! Porque vc faz isso hein? Rs… Bjs”.

“Sou leitora recente, mas adorei. Parabéns pelos posts e pela linguagem ácida sem perder o charme”.

“Tuka, vc é alguém que eu conheço apenas pelo blog e pelo pouco que sei sobre vc é o que leio lá. Então uma pessoa que escreve tão sinceramente sobre amizade, amor… uma pessoa que tem amigos e que sabe ver o bom da vida… só pode ser alguém muito linda, alguém que vale a pena conhecer”.



23 de agosto de 2005

No elevador


Acordou cedo como em todas as manhãs, ajeitou o que precisava ser ajeitado, tomou seu banho e foi trabalhar. Era vendedora em uma loja de shopping e atendia centenas de pessoas todos os dias. Hoje realmente ela estava exausta, queria apenas chegar em casa e tomar um banho demorado.

(O elevador está no térreo, posso ver daqui. Tomara que eu consiga chegar antes que ele suba).

Ela odiava quando o elevador subia justamente quando estava prestes a abrir a porta.

(Merda, tem um mala no hall do elevador com um monte de sacola).

Sorriu um sorrisinho bege.

- Boa noite.
- Flanflan.
- Né?
- Flan.

(Putaquepariu, essa tralha está parada no 25º).

O homem começou a cantar.

(Affe… Só o que me falta!).

(Ai, que vontade de soltar um pum).

(Eu bem que podia soltar um pum, aí queria ver ele continuar cantando).

Elevador chegando.

- Enfim né? Nunca vi elevador demorar tanto quanto neste prédio.
- Flanflanflanflanflanflanflanflanflanflanflanflanflanflan.

(Nunca mais nessa vida esse homem vai calar a boca, meu pai?).

O homem seguia falando.

(Ai que vontade de peidar. Será que levarei uma multa por isso? Não lembro de ter lido nada dizendo que peidar em elevador é proibido).


Os dois se olham.

- Flanflanflanflanflanflanflanflanflanflanflanflanflanflanflan…
- Não moço, não estou sentindo nada.

(Falar que está sentindo um cheiro estranho, isso sim é falta de educação).

- Flanflanflanflanflanflanflan!!!!!!!!!!!!!
- Né moço? Tem muita gente sem noção que flatula em elevador, coisa feia né?

(Maldito, foi só um punzinho de nada. Ai que vergonha, meu Deus!).

Ela desceria no 25º, ele no 23º.

(Vai elevador! Vai elevador!).

Parou no 6º. O cheiro “estranho” permanecia. O homem a olhava com cara abismada.

(Nunca passei tanta vergonha na vida! Esse mala vai contar pro prédio todo!).

A porta abriu, entrou uma adolescente mascando chiclete e apertou o 24º. Fez cara feia e tapou o nariz.

- Flanflanflanflanflan? Disse a pirralha.
- Será que estou com o nariz entupido? Pois não sinto nadinha.
- Flanlanflanflanflanflaaaaaaaaaaaaaaaaaaaan. Disse o homem.
- Verdade moço, esse prédio deve estar com problema no sistema de esgoto.

(Ai!!! Que mico! Que mico! Vai elevador! Vai elevador!)

23º, finalmente o mala desceria.

- Flaflanflanflan…
- Ah… Boa noite pra você também, moço.

(Nunca mais peido em elevador na vida! Nunca mais!).

O cheiro continuava e pela cara que a menina a olhava, já havia descoberto a responsável.

24º.

(Vai piralha dos infernos, deeeeeeeeeesce!)

- Flanflaflanflan.
- É menina… Coitado, deve ter problema, ainda bem que ele já desceu. Boa noite!

O elevador fechou, segundos depois parou novamente, dessa vez no andar em que morava. Chegar ao 25º nunca tinha sido melhor antes. A primeira coisa que fez ao entrar em casa foi tomar um Luftal.



22 de agosto de 2005

Por que, meu Deus, por quê?


As escolhas amorosas são um capítulo à parte em todos os destemperos que uma pessoa pode cometer na vida. Todos devem ter dezenas de relatos de milênios atrás e que ainda se envergonham quando pensam. Exatamente por isso é que resolvi aqui deixar o meu testemunho nesta Casa exorcizando de vez as assombrações guardadas em diários. Acreditem, não foi a vida inteira que minhas escolhas foram precisas como com o senhor meu marido. Que isso sirva de incentivo pra vocês aí, pois afinal de contas não é de graça que se perde a dignidade assim em público. E dignidade é coisa que tenho, mesmo que algumas passagens de minha existência insistam em provar o contrário, como os manés por quem já me apaixonei. Abaixo parágrafos reveladores. E sim, vou citar nomes!

Um dia me apaixonei por um piá chamado Amilton. Eu cursava o primário e na minha inocência comecei a achar o máximo um menino que gostasse de brincar de casinha tanto quanto eu. Achava fofo que ele tivesse álbuns de figurinhas da Moranguinho e que sempre trocasse comigo as repetidas. Adorava as canetinhas coloridas que ele usava para enfeitar o caderno de educação artística, ele sempre me emprestava. Um dia o menino me chamou de feiosa porque eu tinha começado a brincadeira do recreio sem ele e em seguida me empurrou escada abaixo. Eram uns 15 degraus. Desmaiei e desamei o tal Amilton. Soube anos depois que ele virou dançarino na Rússia e casou com o coreógrafo.

No ginásio me apaixonei por meu professor. Eu o achava sensível e romântico, tinha paixão em ensinar. E eu era uma CDF desgraçada que jamais se conformava em tirar um “A-”, sim naquele tempo tinha dessas coisas de A-, B-, então o professor me adorava. Um dia eu fui com uma sandalinha nova – pink – eu já gostava de sapatos – e o professor passou a aula inteira olhando para os meus pés. Do meu lado eu feliz achando que se ele estava olhando pra mim, mesmo que para meus pés, era porque me amava. No final da aula ele veio me perguntar onde eu tinha comprado o sapato. Por instantes me lembrei do tal Amilton do primário. Daí desapaixonei do professor. Hoje ele mora em outro país e dá notícias vez ou outra, parece que casou na Holanda.

Teve uma vez que gamei em um moleque chamado Kenzo. Eu já estava mais crescidinha, naquela fase de ter vergonha dos peitinhos que estavam crescendo. Enfim, o tal Kenzo era uma graça. Eu jogava queimada na rua com ele que nunca jogava a bola em mim. Ele jogava vôlei comigo na rua e nunca cortava em cima de mim. Ele correspondia aos meus sorrisos bobos, aos meus olhares tortos, a minha cara de bunda quando estava perto dele. Um dia me mandou um bilhetinho convidando pra beijar na boca. Mandei outro dizendo que meu pai não ia deixar. Respondeu falando que eu não precisava contar. Não respondi mais. Kenzo se encheu, no fim do dia, após ter me mandado 16 bilhetes, vi quando ele cochichou algo com a Maria, uma menina mais velha que diziam que já havia beijado uns dois! Era uma putinha, onde já se viu já ter beijado dois?? E lá se foi o Kenzo. Ouvi depois a tal Maria dizer que o aparelho dele machucou a boca dela. Bem feito.

Logo depois me encantei por um Robson. Bonito demais, querido demais, tudo demais. Eu já era uma “mulher” de 12 anos. Íamos eu e o Robinho juntos para a biblioteca, juntos fazer trabalhos, juntos para a educação física, juntos para a casa dos colegas de sala. Foi meu primeiro amor de verdade. Eu tinha sonhos calientes com Robinho em que ele me escolhia para dançar em meio a todas as outras meninas da escola. Robinho sabia de seu charme: me sorria faceiro, me pedia cola com jeitinho, pegava meu apontador emprestado, meu caderno. Eu? Me derretia. Foram anos e nunca disse nada a ele. Muito, muito tempo depois (uns dez anos) o encontrei na rua e ele me perguntou se poderia confessar algo. Disse que sim, claro. O moço, que coisa, estava ainda mais lindo que antes. Daí ele disse que sempre foi apaixonadinho por mim. Segundos depois ouvi uma criança chamando pelo pai. Era o Robinho. Mandei tomar no cu e segui meu caminho. Ele estragou tudo.

Daí, dos 15 aos 17 me apaixonei por mais algumas pérolas. Um maloqueiro que morava na vila sapo, calçava kichute e camiseta regata. Era feio que é o diabo e me chamava de princesa quando eu passava. Teve também um outro guri que se chamava Francisco e estudava na minha sala – tão lindo. O máximo pra ele era jogar bolas imensas de papel – foi pra diretoria umas cinco vezes por essa mania. Teve um japonês muito burro que dizia que se chamava “Frávio”, que estudava na minha “crasse”, que gostava de “prantas” e que tinha certeza que peixe era anfíbio. Tadinho, tão burro.

A partir dos meus 18 aninhos minhas paixões passaram a ser mais sérias. Só que este outro capítulo fica pra outro dia. Até mesmo porque as escolhas foram muitas vezes bem mais desastrosas.

Tuka, porque você é assim? Não sei… Não sei!!!



19 de agosto de 2005

Geléia Geral – informativo Casa da Tuka (Primeira Edição)


Hoje é sexta-feira e eu geralmente fico feliz apenas por ser sexta-feira. Acontece que à pouco, a caminho do trabalho, tive um piripaque no meio da rua e precisei, literalmente, sentar na sarjeta e esperar passar. Me assustei. Mas se vocês achavam que um mísero chiliquinho seria páreo pra mim e me impediria de comparecer por aqui hoje, tsc, tsc, tsc… Cá estou, caros leitores, firme, forte e “pós-ziquizira”. E não, não estou grávida, antes que me perguntem. Pois mulher quando passa mal sempre é porque está grávida.

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Apenas hoje estréia no Brasil Hotel Ruanda. Leitores dessa Casa, como sempre, leram com meses de antecedência a crítica desse filme. Quem perdeu pode ler o texto que intitulei “Hotel Esperança” no dia 7 de março e depois, por favor, corram para o cinema, pois trata-se de um puta filme. Caso se deparem nas andanças internéticas com uma crítica de Rubens Ewald Filho a respeito, nem percam tempo. O cara, como sempre, só dá foras e escreve um monte de informações erradas. Coisa feia, viu?

***

Recebi um e-mail curto e direto de uma nova leitora desta Casa que me deixou feliz. Aliás, nesses anos já recebi centenas de e-mails de leitores que gostei muito, guardo todos. Acho que vou fazer um post com fragmentos desses e-mail dia desses. Agora faz favor: quem quiser participar mais ativamente desse barraco, entrem na Comunidade da Casa da Tuka no Orkut e dêem uma mãozinha para esta escritora aqui deixando sugestões de textos. Só entra descalço, como em casa de japonês, mas deixo abrir a geladeira.

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Quero informar aqui que dentro em breve esta Casa será abandonada. Mas novidades vêm por aí. Querem saber? Aguardeeeeeeeem!



17 de agosto de 2005

Depois de ter você


A tempestade - E te beijarei como se fosse o último beijo temendo que realmente o seja. Você me olhará de perto e enxergará mais do que meus olhos imensos te olhando, verá meus imensos olhos cheios de lágrimas – te olhando. Esquecerei todos os momentos maus e lembrarei apenas do que acho que não posso viver sem, como te ver dormir encolhido a meu lado, sempre com frio, apesar do calor do verão lá fora. Pensarei nas viagens que fizemos juntos e terei certeza de que todos aqueles lugares sairão do mapa porque nunca mais os veremos juntos. Olharei os amigos que fizemos e vou desejar que se afastem para não me trazerem lembranças do que não tenho mais. Tomarei meu café da manhã amargo, pois saberei que sem você comigo, todos os cafés da manhã serão amargos. Chutarei uma pedra no chão e me sentirei a própria pedra. Escreverei textos tristes e que façam sentido apenas para mim, pois nada mais fará muito sentido. Assistirei aos meus programas de tevê favoritos (que eram nossos) e por segundos me pegarei sorrindo e comentando sozinha um pedaço engraçado, desejando que você estivesse ouvindo. Falarei com os gatos e eles não me responderão como antes, ficarão mais calados depois de sua ida. Atenderei ao telefone com o coração aos pulos e xingarei a plenos pulmões a garota do telemarketing – coitada – ela só não era você. Verei as horas passando e simplesmente não farão diferença todos os segundos que correm, o tempo parecerá ter parado. Temerei como sempre as tempestades com seus raios e trovões e não terei você para me acalmar. Imaginarei onde você está em algum exato momento e me angustiarei pelo pensamento de que esteja em outros braços. Ouvirei todas as músicas sem mais balançar a cabeça devagarinho e acompanhar as letras que nem sei com meus nãnãnãs. Sonharei com sua imagem no último dia em que o vi e acordarei aos prantos, pois só em meus sonhos você ainda está perto.

A negação - Direi a todos que te odeio e só eu saberei que ainda o amo como nunca. Fingirei que desejo nunca mais vê-lo na vida, mas em segredo (até de mim mesma) me arrumarei todas as vezes do jeito que sei que gostava e me prepararei para um eventual encontro. Beijarei outras bocas e o gosto de todas elas não serão como o seu. Farei sexo com centenas de pessoas e entregarei a todas o meu corpo, jamais o meu espírito como fazia com você. Verei filmes novos e te amaldiçoarei, pois saberei que jamais gostaria de vê-los. Rasgarei suas fotos praguejando e reparando em todos os seus defeitos, como aquela pinta feia que eu amava… Picarei todas as suas cartas, mas antes a lerei novamente e sorrirei toda vez que encontrar um erro de português. Flertarei com todos os homens que você sentia ciúmes e me divertirei imaginando sua cara. Perguntarei a todos sobre você e morrerei quando me contarem que já tem outra pessoa. Quererei ver a cara da nova escolhida e a acharei medonha, gorda e burra quando a vir. Me apaixonarei novamente e terei certeza de que nunca será como o que eu senti por você. Me apaixonarei de verdade mas ainda assim pensarei que não será a mesma coisa. Me apaixonarei como nunca e não estarei convencida de que é maior do que era com você.

A bonança - Um belo dia, quando eu menos esperar… tentarei com todas as minhas forças relembrar que raio era aquilo tudo que senti por alguém que nem sei mais direito quem tenha sido.

Nota da autora – Se você se identificou ao ler este texto é porque em algum momento já sofreu pela perda de alguém – e você também sabe que o sofrimento passa. As palavras acima foram escritas para todos que me escreveram pedindo para falar sobre finais. Calma aí que a bonança chega.



16 de agosto de 2005

O último romântico


Tem tanta coisa errada acontecendo na nossa política. Ou melhor, tem tanta coisa errada sendo descoberta na nossa política que o povo brasileiro não se choca mais. Mas achar que isso tudo é novidade e que o governo FHC não fez o mesmo é muita ingenuidade. A diferença é que FHC e seu aliados tinham anos de experiência no poder (lê-se roubalheira), por isso sabiam milimetricamente todas as táticas de esconder a sujeira debaixo do tapete. Por isso nada apareceu na época.

Já o PT é um pobre coitado. Que nunca comeu melado e quando soube o que era se lambuzou inteiro e não lavou as mãos direito, deixando rastros para quem quisesse se voltar contra eles.

Não gosto de falar de política. Porque assuntos como esse sempre são controversos e tem “n” pontos de vista, “n” teorias, “n” flanflanflans. Mas não tem como deixar passar em branco o que aconteceu no último final de semana.

Em meio a todo o rebuliço na política nacional – lê-se lambança – a morte de Miguel Arraes, presidente nacional do Partido Socialista Brasileiro neste sábado (13 de agosto) aos 88 anos, comoveu multidões. Milhares de pessoas ficaram horas em uma fila para dar o último adeus ao deputado cearense que foi governador de Recife por três vezes. Controverso não? Coisas de Brasil.

De um lado Marcos Valério, Waldemar da Costa Neto, Zé “Desceu”, Delúbio Soares e afins e o povo lamentando mais uma decepção… De outro, Miguel Arraes, ícone da esquerda brasileira, deposto pelo governo militar, exilado na Argélia e o povo lamentando a perda de um exemplo, foram mais de 10 mil em seu velório. Dizem os entendidos que com ele encerra-se uma era e que as ideologias foram de vez por terra.

Coisas assim me deixam um tanto atônita. Eu sou boba, sabem? Ideologista, sonhadora, acredito em dias melhores, votei no Lula confiando em mudanças, não agüentava mais a tucanada pintando e bordando. Fui criada por pai e mãe politizados, militantes, filiados, tão sonhadores quanto eu. Me ensinaram a questionar, a não ir com a multidão, a não apedrejar apenas porque todos apedrejam e nem a amar porque todos amam. Fui a entender antes de meter o bedelho. Sou esquerda, mas não sou do contra (nem sempre).

Acontece que agora não sei nada. E parece que muita gente além de mim também está na mesma situação. E quando se decreta que o último político realmente ético já está a sete palmos, pessoas como eu ficam um tanto sem chão.

“Minha vida todo mundo pode saber, pois nunca gostei de dinheiro pra ter muito dinheiro. Gosto de dinheiro pra gastar. Pra gastar, todo mundo gosta. Mas, pra ter dinheiro… Dinheiro é uma coisa perigosa. Na mão de uma homem público é um desastre”. Miguel Arraes – (1998)



15 de agosto de 2005

Mais uma série


Depois de alguns e-mails insistentes me pedindo para expor as mais irritantes manias masculinas, eis aqui o primeiro texto da série. Em homenagens a todas a mulheres que assim como eu, não suportam certas coisas.

Da série Por que os homens são assim – O que eles pensam quando nos dizem gracinhas na rua?

Pois bem, ter nascido mulher significa, entre tantas coisas, ter que agüentar as mais variadas gracinhas vindas dos homens.

Como se já não bastasse termos jornada dupla de trabalho – às vezes tripla, como se já não bastasse menstruar todo mês, sentir cólicas, ter TPM, parir e tantas coisas mais. Temos também que ouvir “gracejos” nada graciosos na rua.

Mas meninas, o que se passa pela cabeça masculina ao olhar para uma mulher na rua e chamá-la de gostosa? Será que o moço acha que ela irá arrancar suas vestes imediatamente e dizer “me coma”? Será que ele pensa que ela ficará “molhadinha” ao ouvir tal coisa? Será que ele pensa que a mulher ganhará o dia, pois se trata de puta elogio? Não sei. O que sei é que um machismo ridículo.

Dia desses resolvi revidar todas as bizarrices que ouviria no caminho de volta para casa. Como estava com a TPM aflorada, saí do trabalho decidida a não deixar quieto nada do que me dissessem como sempre faço. Poucos passos depois escuto um “ô delícia”. De imediato e em bom tom (entenda-se: praticamente berrando) respondo: “em compensação você é medonho, né meu filho?”. Mais do que depressa o rapaz, feio como o capeta encarnado, abaixou a cabeça e apressou os passos. Acho que pelo menos naquele dia ele não ousou mais dizer coisa parecida a desconhecidas na rua.

Continuei minha caminhada bem feliz e provavelmente assustando as pessoas que vinham em direção contrária, pois não é muito normal andar sozinha por aí às gargalhadas. Mas tudo bem, nem liguei e prossegui.

Já tinha andado bastante quando avisto um café repleto de homens. Esse tipo de lugar é uma verdadeira desgraça para uma mulher que pretende sair sem ouvir indelicadezas. Quando eu estava ainda a alguns metros de distância da gangue – sim, pois mais de um junto homem já é uma gangue, tenho medo – eles pararam de conversar e todos se viraram para a rua.

O mais velho deles, provavelmente o líder, resolveu se incumbir da missão de apavorar mais uma mocinha que por ali passava. Mal sabia ele que não se tratava de uma mocinha qualquer, e sim de uma enfurecida por uma TPM galopante, pelo cansaço do longo dia de trabalho e por uma fome de cão. “Nossa, que tesão de mulher você é!”. Parei. Sorri. Olhei o velho. Finalmente disse: “Pois não vô, quer alguma informação? O consultório geriátrico é logo ali seguindo reto. Boa noite”. Se fez um silêncio mortal e a cara do homem mudou, achei que ele fosse chorar. Segui meu caminho e de longe ouvi as gozações com a cara do tal pelo fora tomado. Foi maravilhoso.

Continuei meu caminho.
Infelizmente naquele dia ninguém mais se aventurou a me dizer mais nada. Apenas mostrei a língua para um coitado que me encarou. Isso também foi bem divertido, pois ele jamais esperaria que uma louca fosse responder a seus olhares com uma cara de nojo mostrando a língua. Foi engraçado.

Eu já cansei de “galanteios” de desconhecidos. Pra ser sincera, nem em momentos de profunda baixa auto-estima me sinto melhor com coisas do gênero. Mas confesso que a única vez que realmente achei um barato ouvir besteiras na rua, foi em Curitiba, em um domingo de manhã a caminho da feirinha do Largo da Ordem. Estávamos eu e minha irmã e eis que ouvimos de um bêbado abismado com a nossa passagem: “Olha só! O crocodilo e o crocodilão”! Morremos de rir e não esquecemos isso até hoje e já faz uns 10 anos quase. Ninguém pode acusá-lo de falta de originalidade ao menos, não é?

Cada coisa, viu…


Leia antes de usar
Desde 15 de janeiro de 2002 uma jornalista nonsense escreve desembestada no blog que chama carinhosamente de sua Casa.

Aqui têm besteiras demais, coisas inúteis demais, enfim, tudo o que nem precisava ser dito, muito menos escrito.

Obviamente, qualquer semelhança com a realidade é única e exclusivamente uma opção da autora.

Assim como o direito de escrever
o que bem entender, claro!


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