Ela acordou divagando que se simplesmente pudesse pensar apenas quando quisesse seria mais fácil. Ela não pensaria em muitas coisas. Seria como se tivesse um botãozinho de on e off e que os pensamentos só viessem à tona se ela assim quisesse. Ela sabia que existiam alguns que seriam para sempre esquecidos, ignorados. A vida seria mais fácil desse jeito.
Como não poderia escolher em que pensar, as coisas martelavam em sua cabeça. O que havia acontecido no dia anterior não lhe dava folga. Revivia aquilo tudo a todo momento e o aperto que sentia no peito a sufocava.
Ela dizia que tinha a mania boba de desejar voltar no tempo. Mas a pior de todas era a mania besta de desejar coisas impossÃveis.
Não gostava de ser previsÃvel também. Por conta disso nem ela mesma sabia o que realmente a deixava feliz e satisfeita. Outro dia experimentou um suco de mangaba com cupuaçu e passou dois dias com enjôo de estômago. Seria melhor ter pedido um de laranja mesmo.
Passava em frente à uma loja depois do almoço e gostou de uma saia pink. Ela não tinha nenhuma roupa pink. Só se vestia de preto ou cinza. Entrou na loja e a comprou. Perguntou à vendedora se poderia ir vestindo a saia e pediu que embrulhasse a que estava usando. Voltou para o escritório e ninguém conseguia não olhá-la. Sentiu-se radiante.
Já em casa, pintou suas unhas de azul turquesa. Jamais tinha ousado tanto antes. Pintá-las de azul para ela era como se tivesse enfim tomando coragem para fazer uma série de coisas que estavam estacionadas em sua vida. Por isso começaria ousando. O azul era um belo começo. Ela sorriu e saiu de casa com o pé esquerdo. Sim o esquerdo! As unhas do pé direito não haviam ficado tão boas…
Drumonnd dizia que cada vez que se ama é a primeira vez. Há quem pense que toda vez que se ama é a última. Já fiz parte deste grupo. Um amor que se perde parece que nos torna para sempre incapazes de sentir tudo novamente. Aquele friozinho na barriga? Nunca mais. Aquela necessidade até tola de ficar linda quando o horário de encontrar a pessoa está chegando. Credo, pra quê? Agora só jeans, camiseta e tênis. Brilho no olhar? Só se pingar colÃrio… E por aà vai.
CaÃ. Sim caÃ. De quatro, despenquei em plena Avenida Paulista. Mas caà muito chique, assim como merecia a nobre avenida da capital de São Paulo. Caà de salto alto, óculos escuros e calça risca de giz. O máximo, não?
Acredito em acaso. Acredito em lugar certo na hora certa. Acredito em coincidências que mudam de uma vez por todas a nossa vida…
Ela me disse que tem medo de começar de novo. Ela não sabe que recomeça todos os dias.
Fica? Você aà e eu e aqui e cada um em seu lugar. Distantes, claro. Mas a distância as vezes é até tamanha entre nós e nós mesmos, que então já não estranho.
“Me pergunte se esta é uma carta de amor e talvez eu diga que sim. Que as palavras que desprendi para escrever todas estas linhas, sejam palavras de amor… Talvez sejam… Só que não sei te dizer ao certo, assim como não sei dizer nem para mim mesma o que sinto ainda a respeito de tudo.






