Arquivo de dezembro de 2004



30 de dezembro de 2004

Repromessas de ano novo


Faltam pouco mais de 24 horas para 2005. Há pouco o noticiário mostrou a situação das estradas do país e no momento o trânsito não está complicado. No entanto a previsão para o tráfego à partir das 18 horas é de um congestionamento de até 100Km. As cidades praianas aguardam um número de turistas pelo menos cinco vezes maior do que o de habitantes. As prefeituras já disponibilizaram um batalhão de funcionários para manter as cidades limpas. O policiamento nas ruas também é pelo menos o triplo do normal. Panfletos de alerta aos turistas serão distribuídos – os assaltos e furtos aumentam espantosamente nessa época.

Alheia a isso tudo ela apenas observa a televisão. Já conhece essas histórias de trás pra frente, todo ano é a mesma coisa. E também se repetem as mesmas histórias nos noticiários após a euforia das festas: acidentes, assaltos, mortes, bêbados. Ela dizia se sentir cansada disso tudo e não conseguia entender o motivo pelo qual as pessoas, ano após ano, dizem que “neste ano” será diferente. E nada muda, nunca muda…

Pegou um livro e riu com o título da crônica na página que acabara de abrir aleatoriamente: “Feliz ano novo”. Começou a ler e se deparou com uma história comum, exatamente como as que gostava de ler e assistir. Gostava de se identificar com o que via, por isso preferia histórias possíveis às surreais. O conto falava da contagem regressiva de duas pessoas que se amavam e que estavam separadas. Em dez segundos eles reviveram todas a expectativas que criaram, as promessas não cumpridas, o amor idealizado e ali se encontravam novamente em um ponto de partida. Parou de ler. Por que as pessoas vêem um ano que começa como um ponto de partida? Por que o “marcador” zera e começa de novo a correr?

Porque era preciso só por isso. Caso contrário a continuação seria insuportável. Ela sabia disso. Zerar, recomeçar, se dar nova chance – “reprometer”… Será então que a “repromessa” é o que nos faz ter vontade de acordar no dia seguinte? Ela achava que sim. Nos últimos anos vinha trazendo com ela coisas que nem sabe se serão concretizadas, mas que sempre fazem parte daquilo que a faz bem, já que pode ao menos sonhar com o que anseia.

E ela sabia que sua lista de repromessas aumentava com o passar dos anos. Mas agora ela reprometeria ser menos crítica com si mesma, tentar fazer mais coisas que a deixassem cem por cento feliz, não pensar demais e… Nunca mais de se desejar “feliz ano velho” revivendo coisas que não importam mais.

Quanto às repromessas ela deseja que estas sejam as últimas já que espera realmente conseguir cumprir suas promessas.

Feliz ano novo? Não, definitivamente não… “Feliz todo dia” – é o que ela gosta de dizer.

Feliz todo dia para todos.



27 de dezembro de 2004

Querido Papai do Céu…


Este ano não foi dos mais fáceis, no entanto também não posso reclamar demais, afinal o senhor me conhece de outros carnavais e sabe melhor do que ninguém que já passei por poucas e boas nesta vida. 2004 foi um ano peculiar, posso dizer assim. Oficializei algo que espero ser definitivo em minha vida e estou feliz, muito feliz, aliás.

Não posso dizer que fui exatamente uma boa menina, mas também não fui tão má assim. Mandei à merda muita gente, o senhor viu né? Mas também não foi ninguém importante. Do mesmo jeito que entraram em minha vida, sumiram dela. Foi como uma boa limpada na agenda de telefones, tirando aqueles nomes para quem nunca mais vamos ligar enquanto vivermos e só estão lá ocupando espaço e confundindo.

Fiquei meio de saco cheio de ser eu várias vezes. Olhar para esses mesmos olhões no espelho há mais de duas décadas, para esse cabelo sem graça, todos esses quilos indesejáveis e agora ainda esse aparelho medonho em minha boca… Ai, não foi fácil muitas vezes… Mas como o senhor me conhece melhor do que ninguém, também sabe, que durante a maior parte do tempo me acho linda como realmente sou – e modesta, claro…

Bem, a metade das baboseiras do fim de ano passou. O Natal se foi – que bom! Definitivamente não sou uma mulher de festejos comerciais. Gosto da simplicidade dos dias comuns. Daqui a alguns dias o reveillon também passa e com ele se vai essa incompreensível mania que as pessoas têm de acharem que tudo será diferente só porque o dia 31 de dezembro vira 1º de janeiro. Porque Deus? Porque?

Querido Deus, prometo que serei uma menina ainda pior no ano que vem. Porque como a diz célebre frase de Mae West: “quando sou boa, sou ótima… Mas quando sou má, sou MELHOR AINDA”.



19 de dezembro de 2004



Fim de semana bom, apesar de tudo. Perdi meu avô, mas acredito que ele está melhor agora, havia tempos que já não estava bem. Realmente fiquei mais triste pelo meu pai que perdeu o pai, do que pela morte em si.

***

E eu? Aqui. Viajo amanhã ou depois. Uma boa dose de família para fechar o ano.

***

Volto logo.



16 de dezembro de 2004

Antes e depois…


Sabe aquelas dúvidas quase sempre inúteis que todo ser humano carrega? Aquelas com as quais nos questionamos se teríamos sido mais felizes caso as nossas vidas tivessem tomado um outro rumo, se tivéssemos nos casado com aquela grande paixão que hoje em dia nem temos mais notícias? É exatamente sobre isso que fala o filme que assisti ontem. “Antes do Pôr-do-Sol” mostra o reencontro de Jesse e Celine. No filme anterior, “Antes do Amanhecer”, os dois jovens se conhecem em uma viagem de trem e se apaixonam intensamente durante apenas um dia em que estiveram juntos na cidade de Viena.

Como todos os filmes de amor, aquele também fala dos inevitáveis clichês que acercam este sentimento. No entanto, como uma história que pode acontecer com qualquer um, o filme não faz questão de terminar de maneira “viveram felizes para sempre” – não tem um final receitinha pronta em que os mocinhos ficam juntos apesar de qualquer conseqüência. Não. Celine mora na Europa, Jesse mora nos Estados Unidos – existe uma distância tamanha entre eles, mas também existe uma paixão inegável. Então eles se despedem na mesma estação de trem em que tudo começa.

Na hora do adeus eles concordam que os relacionamentos se arruínam pelas pretensões, expectativas ou certezas pré-concebidas que o momento parece decretar (“te amarei pra sempre!”). Ao contrário de telefone ou de endereços, eles apenas trocam a promessa de voltarem naquela estação seis meses depois e, só então, decidir como suas vidas continuarão.

Se “Antes do Amanhecer” tinha suas lentes voltadas para o momento mais intenso e delicioso de um relacionamento, sem cobranças com relação ao futuro, “Antes do Pôr-do-Sol” procura justamente o outro lado. O que perderam os dois jovens quando decidiram não trocarem telefone ou endereço? Eles cumpriram com a promessa de voltarem a se encontrar seis meses depois? Algo tão intenso poderia se acabar com o tempo, tornando-se apenas uma boa lembrança?

Nove anos se passaram desde então. Jesse escreveu um romance sobre a história daquela noite e, na última parada da turnê para divulgá-lo, em Paris, ele reencontra Celine. Agora, ela está morando naquela cidade, ele em Nova York e seu vôo de volta está marcado para aquela noite.

Filme singelo, repleto de belas paisagens e com diálogos que nos faz pensar a respeito de nós mesmos. Saí do cinema comovida com a alegria e calma com que Jesse, sentado no sofá da casa de Celine, a via imitar Nina Simone. Seus olhos a olhavam como se sua vida só tivesse feito sentido se ele tivesse ficado a seu lado desde aquele primeiro encontro, quando se perderam por tanto tempo. “Você vai perder seu avião” – “eu sei”…

Tem um pouquinho de qualquer pessoa nessa história. O modo em que os personagens amadurecem, a maneira como seu modo de encarar o mundo se modifica, os sonhos que ficaram para trás, as amarguras acumuladas pela realidade das coisas…

Me senti tão à vontade com as palavras daqueles dos dois amantes que às vezes me peguei lembrando momentos em que eu também disse as mesmas coisas.

Se você quer ir ao cinema ver a este filme, antes passe na locadora e alugue “Antes do Amanhecer”. Será mais interessante, pois poderá fazer uma ligação entre os personagens, no estilo “antes e depois”. Valerá a pena.



15 de dezembro de 2004

O primeiro e o último


Assim como Xavier e Martine, nós também tivemos muita coisa entre o primeiro e o último beijo que nos demos. Quando o primeiro aconteceu, eu tinha certeza absoluta de que ali começava a primeira linha de uma longa história que seria escrita, cheia de outras tantas histórias pelo caminho.

Sabia que quando senti sua respiração em meu rosto no momento em que se aproximou, não seria a última vez que isso aconteceria. Sabia que teríamos um ao outro ainda por um bom tempo. E nos tivemos. Fizemos juras de amor, nos beijamos, nos amamos, nos odiamos, desejamos que fosse eterno, pensamos na efemeridade das coisas, sentimos saudades, choramos, sorrimos…

Muita coisa acontece entre o primeiro e o último beijo. O tempo enche de névoa o que antes já teve uma aparência tão nítida, tão clara, tão simples.

E agora, quando relembrei tudo, ficou difícil imaginar que já houve um primeiro dia, outros, e tantos mais. Ficou tão difícil pensar em você como alguém que fez parte do que eu tive de melhor em mim, de alguém que foi a pessoa que mais amei, em quem mais confiei.

Do último beijo lembro das lágrimas, das mágoas, de não querer que fosse o último, de desejar que as coisas seguissem como esperamos um dia. Do primeiro lembro de quase ouvir nossos corações aos pulos, de sentir sua mão segurando a minha como se fosse o conforto de um abrigo quando sentimos frio. Do último lembro do barulho ensurdecedor do silêncio gritando, gritando… Do primeiro lembro de querermos que aquele momento durasse uma eternidade. Do último lembro de que nossas cabeças funcionaram como um clipe editado com os melhores e os piores momentos da nossa história. Com aquela música de fundo que já foi a trilha de tantas lembranças e que agora… É, agora não lembramos nem que música era aquela.

Alguém um dia me disse que a vida era exatamente aquilo que acontecia enquanto estávamos ocupados fazendo planos. Eu concordei.

***

No alarms and no surprises
Silent



14 de dezembro de 2004



Adorei Os Incríveis. Dêem uma lida na sinopse que surrupiei do Adoro Cinema e corram para assistir ao filme.

“Roberto Pêra (dublado por Craig T. Nelson) já foi o maior herói do planeta, salvando vidas e combatendo o mal todos os dias sob o codinome Sr. Incrível. Porém, após salvar um homem de se suicidar, ele é processado e condenado na Justiça. Uma série de processos seguintes faz com que o Governo tenha que desembolsar uma alta quantia para pagar as indenizações, o que faz com que a opinião pública se volte contra os super-heróis. Em reconhecimento aos serviços prestados, o Governo faz a eles uma oferta: que levem suas vidas como pessoas normais, sem demonstrar que possuem superpoderes, recebendo em troca uma pensão anual. Quinze anos depois, Roberto leva uma vida pacata ao lado de sua esposa Helen (dublada por Holly Hunter), que foi a super-heroína Mulher-Elástica, e seus três filhos. Roberto agora trabalha em uma seguradora e luta para combater o tédio da vida de casado e o peso extra. Com vontade de retomar a vida de herói, ele tem a grande chance quando surge um comunicado misterioso, que o convida para uma missão secreta em uma ilha remota.”

***

E agora se benzam e esperem passar a temporada de férias escolares e seus títulos “criativos e inteligentíssimos” nas telonas. Filmes contendo no nome “muito loucos”, “do barulho”, “da pesada”, “férias”, “galera”, “aventuras” e outras “novidades” vão me fazer ficar em casa e assistir filmes no DVD mesmo.



8 de dezembro de 2004



Há muito tempo, quando eu ainda mantinha ilusões a respeito de muitas e muitas coisas, o homem dos meus sonhos era aquele que se dignasse a dizer-me “eu te amo”. Para uma cabecinha adolescente, repleta de expectativas influenciadas por novelas, livros, letras de músicas e é claro, as revistas Carícia e Capricho, as bíblias das jovens da minha geração, ouvir a tal esperada frase era tudo o que eu queria. Meu primeiro namorado, no entanto, nunca me disse e também nunca ouviu em represália. Uma vez ele escreveu em um cartãozinho de Natal, mas não teve o mesmo efeito, eu queria que tivesse sido verbalizado. Ele não foi um homem ideal dentro daquele conceito que eu havia criado para a relação perfeita.

Um pouco depois, o homem dos meus sonhos era aquele que além de dizer que me amava, me apresentasse a todos como namorada e ficasse comigo por mais de um ano. O segundo namorado, no entanto, ficou comigo apenas nove meses. Ela também não se encaixou no perfil de homem perfeito que eu elaborei.

Mais um tempo passou e o meu padrão ideal foi modificado novamente. Lei da evolução natural, claro. Ele deveria dizer que me amava, me apresentar a todos como namorada, ficar comigo por mais de um ano, não me trocar por outra e estar comigo em todas as situações, as boas, as más e as muito, muito ruins. No entanto, esse só estava a meu lado nas coisas boas, quando realmente precisei dele me trocou por outra. Nem de longe foi o namorado que se encaixava naquilo que sonhei.

Passado mais algum tempo e eu comecei a exigir um pouco mais. Afinal de contas, já estava com uma carga de experiência bem considerável, e caso não tivesse plena certeza do que realmente queria em um homem, sabia exatamente o que não queria. Então a fila andou e veio outro namorado, não percam as contas, foi o número quatro. Ele era um doce, me disse “eu te amo” quase que imediatamente, me apresentou aos pais, à família e aos amigos mais importantes, esteve a meu lado nas mais variadas situações. Pra ser sincera foram mais situações problemáticas do que o contrário, mas ele estava ali, firme e forte. E desta vez eu não fui a namorada ideal nem dentro dos meus próprios padrões! E sabem porque? Experiência demais que se transformou em medo. Medo de que tudo que vivi antes acontecesse de novo – então caí fora.

Lá estava eu calejada de tanta coisa, que extingui todos os padrões que eu havia criado até ali. Encontrei mais uma pessoa e desde o início fui vivendo dia após dia sem maiores preocupações a respeito de como deveria ser. Mas voltando um pouquinho só aos meus conceitos de perfeição: se me disse “eu te amo”? Disse. Se me apresentou como namorada? Sim. Se ficou comigo por mais de um ano? Ficou. Se esteve a meu lado durante situações boas e ruim? Inúmeras. E também não me trocou por outra, espero que continue assim.

Nós humanos… Tão complicados que seria mais fácil termos manual de instruções.



7 de dezembro de 2004



Sim, enfim voltei aqui para escrever meu primeiro post de dezembro (e talvez também o último). Não gosto muito de dezembro, embora também não possa dizer que o odeie. É o mês que te diz na cara, sem rodeios: “Olha mané, não dá mais tempo viu, agora só no ano que vem”. E eu fico um pouco constrangida com essas palavras escancaradas assim diante de mim e de tudo que eu “esqueci” de fazer durante o ano inteirinho.

Mas vendo pelo lado bom, já que estou faz algum tempo em “momentos Polliana”, tenho que admitir que o ano foi legal. Tá, meu time não ganhou o campeonato, eu não arrumei um trabalho realmente decente, a casa de Caraguá foi roubada e ganhei uma alergia incurável, mas fora isso foi bom… E eu estou realmente me esforçando para ser otimista

Em 2005 decidi que vou engravidar, pintar o cabelo de cor-de-rosa, desperdiçar nenhum tempo com quem não mereça, e ir ao Pacaembu assistir um Corinthians X Palmeiras – não necessariamente nessa ordem, acho que primeiro vou pintar o cabelo.

Decidi também de que antes de engravidar vou me dar o prazer de ficar magrinha para eu poder tirar fotos e mais fotos de biquíni. Afinal precisarei de uma motivação para depois voltar ao normal.

Natal e ano novo? Sei lá. Quem me conhece sabe que eu não sou de fazer planos, e esses que listei aí acima seriam totalmente ficção caso isso aqui não se tratasse da casa da Tuka e eu não fosse a própria Tuka.

Estou feliz, sabem?


Leia antes de usar
Desde 15 de janeiro de 2002 uma jornalista nonsense escreve desembestada no blog que chama carinhosamente de sua Casa.

Aqui têm besteiras demais, coisas inúteis demais, enfim, tudo o que nem precisava ser dito, muito menos escrito.

Obviamente, qualquer semelhança com a realidade é única e exclusivamente uma opção da autora.

Assim como o direito de escrever
o que bem entender, claro!


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