Arquivo de outubro de 2004



29 de outubro de 2004



Estou em Curitiba desde segunda-feira. Logo que cheguei a primeira coisa que quis foi ir embora, e correndo. Um tédio absurdo tomou conta de mim e tive momentos catatônicos olhando para a parede branca enquanto minha irmã conversava comigo.

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Depois de passado o impacto inicial, e com a ajuda dos meus fiéis escudeiros Rafa e Du, as coisas foram melhorando. Afinal, aqui não tem trânsito, nem filas imensas no mercado, nem atropelo de pessoas nas ruas… Curitiba é legal, eu é que me entedio fácil…

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Acabei de voltar de outro dermatologista. Nada tem adiantado para essa droga de pereba que apareceu em minha pele. Daqui a pouco vou apelar e marcar hora com um pai de santo que uma amiga conhece – vai que resolve?

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Daqui a pouco estou de partida para a minha casa na terra da garoa – saudades…

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Ouvindo Requiem For a Dream Soundtrack.



25 de outubro de 2004



Mana e André aqui em São Paulo no final de semana. Marido trabalhando de madrugada. O tempo voando. Nem vi chegar segunda feira…

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Novas aquisições no Soulseek: trilhas de “O fabuloso Destino de Amelie Poulain” e “Frida” – lindas demais as músicas… Para ouvir e esquecer da vida.

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Quarta-feira devo mesmo ir a Curitiba – sem vontade, mas se é necessário eu vou…

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Semana que vem? Férias com o maridão e três estados estão nos planos. Na verdade não sabemos ainda se não ficarão apenas nos planos.



21 de outubro de 2004



Já faz tempo que o tempo passa e eu não me dou conta. Na verdade nem lembro do tempo tantas vezes, quando vi já foi. E com ele se foi também tanta coisa…

As vezes me engano e me deixo acreditar que a felicidade plena existe. Não existe eu sei… Mas de vez em quando ainda me permito acreditar…



20 de outubro de 2004

Hoje estou me sentindo um pouco Veronika


E então Veronika de 24 anos decidiu que era melhor morrer do que estar condenada a viver dias iguais, dias comuns – resolveu fugir da vida que não lhe daria a menor possibilidade de mudança..

Limpou cuidadosamente seu quarto alugado num convento de freiras, desligou a calefação, escovou os dentes e deitou-se. Na mesa de cabeceira, pegou as quatro caixas de comprimidos para dormir. Ao invés de amassá-los e misturar com água, resolveu tomá-los um a um, já que existe uma grande distância entre a intenção e o ato, e ela queria estar livre para arrepender-se no meio do caminho. Entretanto, a cada comprimido que engolia, sentia-se mais convencida: no final de cinco minutos, as caixas estavam vazias.

Villete então passou a ser o purgatório. O lugar onde estava esperando o momento em que seu coração pararia de bater. O lugar em que, ironicamente aprendeu a desejar a vida, em que se apaixonou.

Quando é que a vida passa a valer tanto que só nos damos conta se estamos diante de seu fim? Todo mundo é um pouco Veronika, eu sou. Mas não quero me sentir em Villete para me dar conta de que as coisas que deixei passar são mais importantes do que eu sabia.

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“Veronika Decide Morrer” é o único livro de Paulo Coelho que tive paciência de ler até o final. Valeu cada página.



19 de outubro de 2004



Prós de Curitiba:
* Minha irmã e meu sobrinho;
* Eduardo, Kellinha, Rafa, Gustavo e Carlão;
* O Jardim Botânico pertinho de casa;
* Trânsito tolerável;
* Liberdade para sair sem tanto medo de ter até meu útero roubado;
* Colegas de faculdade;
* A feirinha do Largo;
* O festival de teatro;

Os contras de Curitiba:

* Cidade provinciana;
* Nada para fazer;
* O tédio reina aos finais de semana;
* Risco de encontrar a todo instante pessoas que você não quer ver nem em foto;
* Ex namorados malas;
* Frio excessivo;
* Tudo fecha cedo;
* É longe de São Paulo;
* É em São Paulo que está quase tudo o que eu quero;
* Saudades de São Paulo;

Ô mapa da minha vida!



17 de outubro de 2004

Somente ela…


Teve medo de não saber mais se portar sem tê-lo a seu lado. Mas em contrapartida pensou que foram tantas as vezes que recomeçou, que bem ou mal faria isso de novo – e da maneira certa, porque todo fim implicava um recomeço então recomeçaria. Lembrou-se mais uma vez de um filme francês estrelado por Juliette Binoche em que ela dizia: “Cuidado com aqueles que já sofreram porque eles sabem que podem sobreviver apesar de qualquer coisa”. Foram tantos os obstáculos em seu caminho que prometeu a si mesma que da próxima vez não mais sucumbiria, não se entregaria.

E lembrou das manias, dos pequenos detalhes que iam desde o jeito em que ele dormia quando estava exausto, até a forma metódica em que comia: mexendo bem, pegando aos pouquinhos e comendo devagar para apreciar o sabor da comida. Ela chora ao pensar nisso. E nunca pensou que sentiria falta de coisas que nem sabia que prestara atenção no meio de tanta correria dos dias que passavam. Os dias que passavam e levavam com eles a história de duas vidas, seus medos, suas conquistas e cumplicidades – suas vitórias e derrotas superadas, suas tantas coisas que estavam tão repletas deles dois. Só dos dois.

Pensou que em meio de tanta alegria compartilhada, de tanta vida dividida, a tristeza e a mágoa prevaleceram mais do que deveriam e foram várias as vezes. E se perguntou porque as pessoas se punem dessa forma. Pensou em Chico naquela canção que agora insistia em pular em sua memória – há tanto não lembrava dela: “na fotografia estamos felizes… Meus olhos molhados, insanos, dezembros, mas quando eu me lembro são anos dourados – ainda te quero…”. Olhou mais uma vez para todos os momentos eternizados nos porta-retratos: sorrisos, beijos, abraços, olhares… Onde estavam todos aqueles momentos que ficaram esquecidos em meio a tanto choro e dizeres desnecessários? Sentia falta de quando podiam gritar, brigar e extravasar os demônios e ainda procurarem um pelos pés do outro durante a noite, e se isso acontecesse significava que o perdão vencera mais uma vez. Já naquela noite ela temia que ele permanecesse distante. Mais lágrimas desciam contornando as linhas de seu rosto.

Tinha que aprender a calar, falara demais. Tinha que aprender a chorar para dentro, lágrimas demais afogam o amor. Tinha que aprender a se perdoar, se exigia muito.

Fez as malas, mas no fundo esperava um abraço. Se a abraçasse abraçaria de volta. Olhava as coisas espalhadas a seu redor, mas tudo o que desejava era um pedido de desculpas. Se pedisse desculpas, desculparia. Apesar do silêncio, ainda ouvia palavras ditas com raiva, e tudo o que queria ouvir era para que ficasse – e ela ficaria.

Sentiu-se tão frágil e desprotegida quando uma flor caída no chão em que milhares de pés pisam todo tempo. Sentiu-se como estivesse prestes a ser esmagada e nada pudesse fazer a não ser esperar que o vento mudasse sua direção e a levasse para um lugar seguro. E nem o vento veio a seu favor – ela mesma teria que se proteger nem que para isso precisasse arranjar forças e arrastar-se para longe. Longe do único lugar e da única pessoa no mundo que queria estar perto.

Deitou na cama e pensava sobre o que faria da vida. Sentiu um braço a laçando – abraçou em resposta. Ficou em silêncio e teve certeza de que poderia ouvir o bater de seu coração desesperado dentro de seu peito – parecia que queria falar por ela. Ouviu o pedido de desculpas. Fez o mesmo e desculpou. As palavras raivosas foram aos poucos se dissipando em sua mente, embora ainda a machucassem. “Fica”. E ela ficou. “Me vejo a teu lado, te amo? Não lembro… Parece dezembro de um ano dourado, parece bolero. Te quero, te quero… Dizer que não quero, teus beijos nunca mais, teus beijos nunca mais…”.



14 de outubro de 2004



De novo ela se sentiu acuada e de novo se viu diante de uma situação em que não sabia o que fazer. Seus olhos que eram enormes, refletiam todo o medo que estava sentindo agora. Ela estava confusa, não sabia o que deveria sentir. Se feliz, se triste, se nada… O que sentir? Era preciso sentir algo? “Estarei a seu lado” – ela ouviu…

***
Trilha da minha vida hoje é “Here With Me” da Dido:

I won’t go, I won’t sleep, I can’t breathe,
until you’re resting here with me,
I won’t leave, I can’t hide, I cannot be, until
you’re resting here with me

***

I am what I am



10 de outubro de 2004

Gosto de plásticos bolha


Credo, como eu gosto. Hoje de manhã meu marido saiu para ir ao mercado e voltou cheio de pacotes – entre eles estava o famigerado plástico. Quem foi que inventou essa desgraça, me digam por favor? Ele não sabia que estaria criando milhares de viciados pelo mundo afora. “Oi, meu nome é Tuka e não paro até a última bolha”…

Oh céus… É domingo…



10 de outubro de 2004

Baladas


Lembram daquelas festinhas que íamos aos domingos quando éramos adolescentes? Aquelas que começavam de dia ainda e acabavam lá pelas 23h00? Então, acabo de chegar de uma. O público – thank’s God – tinha a minha idade e a “balada” era de música eletrônica. Uma duplinha de DJs da moda fez a discotecagem, que diga-se de passagem foi uma merda. Mas tudo para ver os amigos – já que tenho pisado na bola com a senhorita Lenore por umas 432 vezes, como ela diria.

Definitivamente não tenho mais saco para sair de casa depois de não achar nunca uma roupa que fique legal. Ter que arrumar um lugar para estacionar. Gastar uma grana absurda em uma água e uma cerveja. Ficar fedendo a cigarro. E ver a cara de fútil daquela gente. Gente que acha que quem não sabe a diferença entre EBM, synth, industrial, house, techno e outras merdas, está por fora. Eu não sei e estou me lixando.

E agora deixa eu ir ver o “Cansástico” que meu marido está me esperando.



8 de outubro de 2004

Falando em amizade…


Fazendo um balanço geral de minhas aquisições no quesito amizade desde que cheguei na cidade de São Paulo, concluí que quase ninguém foi acrescentado em minha lista. Sim, a minha minúscula lista. Conheci milhares de pessoas que se eu somar as qualidades não consigo formar uma! Que coisa triste…

Mas o problema não está em São Paulo ou em qualquer que seja o lugar, está em mim. Sou chata, seletiva, observadora e não faço questão de agradar a quem eu sei que não vai ficar na minha vida mais tempo que durar o telefonema para me pedir o VIP para alguma festa.

Minhas amizades são as mesmas de anos. De tempos em que eu nem sabia o que queria da vida, dos tempos do cursinho, dos tempos que eu brincava de bonecas, dos tempos que eu morava longe… Não acredito em amizades instantâneas, essas são convenientes mas não verdadeiras. Não acredito em amizades só nas horas boas, assim é fácil. Amizades mesmo vem com o tempo, com carinho, atenção, com “oi, você está bem?”…

A Cris, minha amiga mais leal e que sabe todos os capítulos de minha vida, vive a me dizer que espera meses (moramos em cidades diferentes) para poder conversar comigo coisas que ela não confia a mais ninguém. Tenho o maior orgulho disso. Espero que ela realmente saiba o quanto é importante pra mim, o quanto sinto sua falta, o quanto sinto saudades dos tempos em que bastava andar alguns passos que eu estava com ela. “Amizade assim não tem pra comprar em loja” – não é mesmo?

Incrível, não me espanto que todas as milhares de pessoas que conheci durante um ano aqui não valham uma “Cris”.

E lá se vão 18 anos de amizade – que venham os próximos…


Leia antes de usar
Desde 15 de janeiro de 2002 uma jornalista nonsense escreve desembestada no blog que chama carinhosamente de sua Casa.

Aqui têm besteiras demais, coisas inúteis demais, enfim, tudo o que nem precisava ser dito, muito menos escrito.

Obviamente, qualquer semelhança com a realidade é única e exclusivamente uma opção da autora.

Assim como o direito de escrever
o que bem entender, claro!


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