Arquivo de agosto de 2004



31 de agosto de 2004



Ela foi ao cemitério umas duas vezes na vida. Em uma delas foi ao enterro da tia do namorado de uma amiga. Na outra, queria cortar caminho para chegar mais rápido a uma loja de sapatos que ficava na rua de trás e que iria fechar em poucos minutos.

Nessas duas vezes, prestou atenção nos epitáfios dos túmulos, chegou até a parar diante de alguns: “João da Silva, 1915-1992, bom pai e marido, fez da sua vida o melhor que pode e morreu em paz, deixou saudades e uma história para ser contada e relembrada por seus entes queridos”.

Leu e pensou que se morresse agora não teria feito nem o suficiente para escrever em seu túmulo. Poderia ser algo como: “Alice Ferreira, 1974-2004, não casou nem muito menos teve filhos, tradicional: sempre tomava sorvete de chocolate, não arriscou demais, nem na cor de suas roupas, sempre pretas e sem graça, gostou de um moço por anos e nunca teve coragem de se declarar, ia ao cinema ver filmes antigos e estava quase sempre sozinha, dizia que a solidão tocava a alma, gostava de liquidações e morreu atropelada a caminho de uma”



27 de agosto de 2004



Pintou suas unhas de azul turquesa… Jamais tinha ousado tanto antes. Pintá-las de azul para ela era como se tivesse enfim tomando coragem para fazer uma série de coisas que estavam estacionadas em sua vida. Por isso começaria ousando. O azul era um belo começo. Ela sorriu e saiu de casa com o pé esquerdo. Sim o esquerdo! As unhas do pé direito não haviam ficado tão boas…


24 de agosto de 2004

"Nunca mais é muito tempo…"


Foi isso o que lhe disseram quando ela respondeu que nunca mais. Mas ela não ligou para a resposta. Ignorou e continuou com seus pensamentos.

Passava de tudo em sua cabeça naquele momento. Tudo o que viveu até ali foi coisa demais para simplesmente fazer de conta que nada houve.

Mas ela sabia que o pior de tudo seria ter que esperar de novo. E ela odiava ter que esperar. Falava que passara tempo demais esperando em sua vida e que estava cansada. A vida toda esperou a hora certa de falar, a hora certa de calar, a hora certa de agir e agora teria que esperar de novo. Desta vez, a hora certa de compreender que aquilo que queria não seria possível. Mas no momento ela não entendia. Apenas desejava ter novamente o que todos sabiam que era uma página virada.

Menina insistente, pensavam as pessoas. Pobre garota, pensavam outras. Ela não sabia a opinião de ninguém a seu respeito e se soubesse não se importaria. Estava decidida. Mais tarde lembraria o quanto foi ingênua e tudo o que fez em vão.

Ela de novo se viu em um beco sem saída e tinha dois caminhos a seguir. Um seria como escalar um muro sem fim para tentar ver o que estava do outro lado. O outro seria como acordar de um sonho bom. Entre o possível e o inalcançável ela optou por estar com seus pés no chão. Por mais que isso lhe custasse uma dor absurda sem hora para acabar.

Foi então que ela aprendeu o quanto é triste a decisão do “nunca mais”. Nunca mais para ela significava aprender a esquecer de uma vez por todas, mesmo que ela também estivesse sendo um pouco apagada no processo. Mas foi o que fez. E se reinventou melhor. Reinventou-se um dia após o outro e de novo aprendeu que não é possível que sejamos a mesma pessoa com o passar dos tempos. Ela aprendeu a ser todo dia uma pessoa melhor.



19 de agosto de 2004



Sim eu sei que estou sumida. Mas a situação está grave, caros… Tudo que consigo comer é banana amassada e sopa. O bom disso tudo é que não posso reclamar de calorias extras. Mas que está complicado, isso está mesmo…

***

Eu sempre sofri de uma mania besta de dar importância a quem não merece nem ao menos que alguém respire perto dele. Pois é, eu sou assim. Mas estou aprendendo a lidar com isso a cada dia e se você não tem recebido notícias minhas ultimamente é pq te risquei do caderninho.

***

Incrível como as coisas mudam…

***

Vou ali. Volto sim.



10 de agosto de 2004

Desligue a televisão


Cada vez mais odeio a tevê aberta. Existem coisas que invadem a nossa casa que são dignas de um filme de terror. Posso escrever até cansar aqui, mas acho que se eu enumerar alguns desses desastres já dá para ter uma bela idéia.

Para começar o inigualável Clodovil. Ele precisa de um tratamento psiquiátrico isso é óbvio. Um ser totalmente descontrolado que ofende as pessoas e usa um espaço que poderia ter sido dado a alguém competente, para falar de seus desafetos pessoais. Triste.

O início da noite na televisão brasileira é o começo de um pesadelo. Pelo menos três programas sensacionalistas entram no ar ao mesmo tempo e cobrem matérias que consideram dar audiência. E o pior é que realmente dá. O pai que matou o filho, tio que estupro sobrinha, marido que bateu em mulher. Deprimente.

Programas de fofocas são outra coqueluche na nossa televisão. Existem atualmente umas cinco pérolas do gênero. Angélica e Luana Piovani estão grávidas, a atriz tal se separou do empresário, o fulano foi visto beijando uma desconhecida. E eu com isso?

Telejornal apresentado por “atrizes e manequins”. Duas coitadas lêem um TP com um desespero absurdo – e olha que o programa é gravado! Gente de dentro do SBT me disse que é uma canseira trabalhar com as tais apresentadoras. Gravam mil vezes uma mesma frase e não há Cristo que faça com que o programa tenha alguma credibilidade. E tanto jornalista bom por aí sem emprego!

Eu acho que a televisão brasileira nunca teve qualidade. Eu me lembro que desde criança assistia sem muito discernimento a programas que eu não tinha idéia do quão terríveis eram. Porém hoje em dia, as coisas estão chegando ao exagero da má qualidade. Programas com brigas de família, reality shows apelativos, humorísticos com pegadinhas combinadas, apresentadores surreais e por aí vai. Que bom e que alívio que ainda existe a TV Cultura – UFA!



6 de agosto de 2004

Eternal Sunshine of the Spotless Mind


Pela terceira vez fiquei surpresa com Jim Carey. A primeira foi com O Mundo de Andy e depois com O Show de Truman. Em Brilho Eterno (para os íntimos) ele sequer faz uma única careta ridícula, e nem absolutamente nada de todas as bizarrices que o caracterizam como um atorzinho medíocre de um personagem só.

Ele interpreta uma “pessoa normal” e me deixou bem envolvida com o filme – coisa que não acontece quando ele está em um dos papéis. Mas desta vez foi uma das poucas que realmente foi válido ter pago o ingresso para assistir a um filme em que ele estivesse no elenco.

A história do filme é algo que já desejei e muito: esquecer uma etapa da minha vida, mas precisamente, esquecer um amor que acabou. Joel, o personagem de Carey, vai a um especialista para apagar as memórias referentes à namorada Clementine (Kate Wisnlet). Para não estragar a história não falarei mais, mas já aviso que é bem óbvio, afinal de contas é a conclusão que todos chegariam na mesma situação.

***
Também vi Mulheres Perfeitas com Nicole Kidman, Bette Midler e Glenn Close. Gostei, foi bom para passar a tarde de domingo com algo para distrair. Recomendo na falta de coisa melhor.

E o último: Fahrenheit 11 de Setembro de Michael Moore. Eu não gosto de Michael Moore, acho que ele possui um método sensacionalista forçado para conseguir público para seus documentários. Embora eu seja consciente deste fato achei o filme bem interessante. Bush é realmente o imbecil que eu já tinha certeza, mesmo com toda a parcialidade e direcionamento do documentário.



4 de agosto de 2004

Promete amá-lo e respeitá-lo?


Que eu sou casada todo mundo sabe e que casamento é loteria isso todo mundo também deve saber. É a mais plena verdade que quando se aceita casar com alguém, arrisca-se, e muito. Pode ser que dê certo e que vivam felizes para todo sempre, pode ser que a vidinha seja meia boca e que os dois vão levando e pode ser que acabe tudo depois de algum tempo. Ninguém nunca sabe o que o espera até que aconteça.

Meu casamento está na fase: “Putaqueopariu, casamento é bom pra caramba!”. Sim, nesta fase. Faz pouco mais de 1 ano em que me casei e alguns podem pensar que é pouco tempo e que quando é assim tudo é maravilhoso. Mentira! Não é. Conheço gente que se separou depois de dois meses dividindo o teto. Por isso refleti por tempos sobre casamento.

Com um namorado que tive achava que estava de bom tamanho juntar os trapos e pronto, tamanha era minha descrença nesse negócio de papel. A mãe do infeliz queria que o filho casasse na igreja e se chocava com a norinha aqui que era relutante a esse negócio de casar de branco e outras baboseiras. Acabou o namoro e o casamento (Thank God) – nem saiu dos planos.

Quando conheci o homem que se tornou meu marido eu acabei querendo casar com pétalas de rosas sendo atiradas em minha cabeça. Como as coisas mudam, não? Nos casamos sem pompa nenhuma e com um juiz careca e maluco nos chamando de Rita e Rafael.

Sim, ele disse. Ele disse que promete me amar e respeitar até que a morte nos separe.
Sim, eu disse. Disse que prometo amá-lo e respeitá-lo, também até que morte nos separe.
Mas pensando nessas palavras, hoje sei que fazem apenas parte de um texto resumido que tenta sintetizar o que temos que prometer quando casamos.

Eu prometi que vou amá-lo e vou, respeitá-lo também. Mas hoje sei que a promessa que fiz também diz que vou amá-lo mesmo com o mau humor que acorda. E mesmo quando ele não quiser fazer o que peço. E respeitar os dois dias por semana que quer ver os amigos. E que terei que dizer a ele que está atrasado. Falar que é teimoso e que odeio a mania que tem de discutir por coisas bobas. E tolerar que ele odeie minha mania de arrancar a pelinha dos meus lábios quando estão ressecados pelo frio. E ouvi-lo dizer que adora meus “peitões”. Que terei que escutá-lo me imitando nas manhas que faço. E ter certeza de que o mimei demais. E o confortar quando está preocupado com o trabalho. E segurar sua mão afirmando que estarei a seu lado em qualquer circunstância. E te sorrir sincero o fazendo entender que o amo mesmo sem dizer.

… na alegria e na tristeza, na saúde e na doença – ATÉ QUE A MORTE OU A VIDA NOS SEPARE.



2 de agosto de 2004

Segundos, minutos, horas…


Acordo.
Olho pro teto.
Me pergunto se está sol.
Levanto. Abro a janela. E vejo que o céu está cinza.
Abro a porta do quarto e depois a do banheiro.
Faço xixi.

Me olho no espelho e me pergunto se estou mais gorda que ontem.
Sim, estou…
Pergunto o mesmo para o meu marido. Ele jura que não.

Minha sobrancelha cresce mais rápido que capim.
Vou ter que fazer minhas unhas.
Tenho que cobrir minha conta.
Ainda tenho que escrever o release da semana e mandar o mailing.
Quero pintar meus cabelos de vermelho.

Escrevo, escrevo, escrevo.
Estou com fome, mas é melhor não comer, estou gorda.
A droga do outlook pifou.
Não consigo mandar e-mails.

Mandei os e-mais.
Não me respondem.
Odeio quando não me respondem.

O telefone toca.
Não, não tem nenhum Juan aqui.
Já disse que não tem.
Desligaram na minha cara.
Todo dia ligam perguntando por esse Juan.

Ai, ainda é meio dia…

Leia antes de usar
Desde 15 de janeiro de 2002 uma jornalista nonsense escreve desembestada no blog que chama carinhosamente de sua Casa.

Aqui têm besteiras demais, coisas inúteis demais, enfim, tudo o que nem precisava ser dito, muito menos escrito.

Obviamente, qualquer semelhança com a realidade é única e exclusivamente uma opção da autora.

Assim como o direito de escrever
o que bem entender, claro!


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