Alheia a isso tudo ela apenas observa a televisão. Já conhece essas histórias de trás pra frente, todo ano é a mesma coisa. E também se repetem as mesmas histórias nos noticiários após a euforia das festas: acidentes, assaltos, mortes, bêbados. Ela dizia se sentir cansada disso tudo e não conseguia entender o motivo pelo qual as pessoas, ano após ano, dizem que “neste ano” será diferente. E nada muda, nunca muda…
Pegou um livro e riu com o título da crônica na página que acabara de abrir aleatoriamente: “Feliz ano novo”. Começou a ler e se deparou com uma história comum, exatamente como as que gostava de ler e assistir. Gostava de se identificar com o que via, por isso preferia histórias possíveis às surreais. O conto falava da contagem regressiva de duas pessoas que se amavam e que estavam separadas. Em dez segundos eles reviveram todas a expectativas que criaram, as promessas não cumpridas, o amor idealizado e ali se encontravam novamente em um ponto de partida. Parou de ler. Por que as pessoas vêem um ano que começa como um ponto de partida? Por que o “marcador” zera e começa de novo a correr?
Porque era preciso só por isso. Caso contrário a continuação seria insuportável. Ela sabia disso. Zerar, recomeçar, se dar nova chance – “reprometer”… Será então que a “repromessa” é o que nos faz ter vontade de acordar no dia seguinte? Ela achava que sim. Nos últimos anos vinha trazendo com ela coisas que nem sabe se serão concretizadas, mas que sempre fazem parte daquilo que a faz bem, já que pode ao menos sonhar com o que anseia.
E ela sabia que sua lista de repromessas aumentava com o passar dos anos. Mas agora ela reprometeria ser menos crítica com si mesma, tentar fazer mais coisas que a deixassem cem por cento feliz, não pensar demais e… Nunca mais de se desejar “feliz ano velho” revivendo coisas que não importam mais.
Quanto às repromessas ela deseja que estas sejam as últimas já que espera realmente conseguir cumprir suas promessas.
Feliz ano novo? Não, definitivamente não… “Feliz todo dia” – é o que ela gosta de dizer.
Feliz todo dia para todos.
Sabe aquelas dúvidas quase sempre inúteis que todo ser humano carrega? Aquelas com as quais nos questionamos se teríamos sido mais felizes caso as nossas vidas tivessem tomado um outro rumo, se tivéssemos nos casado com aquela grande paixão que hoje em dia nem temos mais notícias? É exatamente sobre isso que fala o filme que assisti ontem. “Antes do Pôr-do-Sol” mostra o reencontro de Jesse e Celine. No filme anterior, “Antes do Amanhecer”, os dois jovens se conhecem em uma viagem de trem e se apaixonam intensamente durante apenas um dia em que estiveram juntos na cidade de Viena.
Se “Antes do Amanhecer” tinha suas lentes voltadas para o momento mais intenso e delicioso de um relacionamento, sem cobranças com relação ao futuro, “Antes do Pôr-do-Sol” procura justamente o outro lado. O que perderam os dois jovens quando decidiram não trocarem telefone ou endereço? Eles cumpriram com a promessa de voltarem a se encontrar seis meses depois? Algo tão intenso poderia se acabar com o tempo, tornando-se apenas uma boa lembrança?
Assim como Xavier e Martine, nós também tivemos muita coisa entre o primeiro e o último beijo que nos demos. Quando o primeiro aconteceu, eu tinha certeza absoluta de que ali começava a primeira linha de uma longa história que seria escrita, cheia de outras tantas histórias pelo caminho.
Adorei Os Incríveis. Dêem uma lida na sinopse que surrupiei do Adoro Cinema e corram para assistir ao filme.
Há muito tempo, quando eu ainda mantinha ilusões a respeito de muitas e muitas coisas, o homem dos meus sonhos era aquele que se dignasse a dizer-me “eu te amo”. Para uma cabecinha adolescente, repleta de expectativas influenciadas por novelas, livros, letras de músicas e é claro, as revistas Carícia e Capricho, as bíblias das jovens da minha geração, ouvir a tal esperada frase era tudo o que eu queria. Meu primeiro namorado, no entanto, nunca me disse e também nunca ouviu em represália. Uma vez ele escreveu em um cartãozinho de Natal, mas não teve o mesmo efeito, eu queria que tivesse sido verbalizado. Ele não foi um homem ideal dentro daquele conceito que eu havia criado para a relação perfeita.
Mas vendo pelo lado bom, já que estou faz algum tempo em “momentos Polliana”, tenho que admitir que o ano foi legal. Tá, meu time não ganhou o campeonato, eu não arrumei um trabalho realmente decente, a casa de Caraguá foi roubada e ganhei uma alergia incurável, mas fora isso foi bom… E eu estou realmente me esforçando para ser otimista
Tenho deixado ir embora tristezas que não faziam sentido, sentimentos que não faziam sentido… As duas coisas preenchem a alma – a tristeza e o sentimento, no entanto chegam momentos em que já nem sabemos mais porque ainda estão ali. Essa é a hora de enfim soltar as amarras e respirar fundo. Sempre quis deixar determinadas coisas irem embora, mas sempre me apeguei a tudo o que era meu – especialmente às coisas que só existem dentro de mim, coisas que jamais, nada nem ninguém poderia tocar – a não ser eu, no momento em que eu escolhesse esquecê-las e soprá-las ao vento.






